A Crise e Suas Fronteiras: Oito Meses de “Mensalão” nos Editoriais dos Jornais

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A crise do chamado “mensalão” – pretenso esquema de propinas pagas regularmente a parlamentares federais, com dinheiro público desviado, para que votassem a favor do governo – foi, provavelmente, a mais estrondosa da história da República. Entre os fatores que explicam a importância adquirida pela crise está a ação dos meios de comunicação de massa.

A partir da análise de órgãos da imprensa brasileira ao longo da crise de 2005, este trabalho busca observar como a crise é constituída enquanto “desvio” a ser corrigido pela punição ou exclusão de determinados atores e comportamentos, impedindo que se coloque em questão os fundamentos do regime político.

O PT e a crise

Fundado no bojo da reforma partidária de 1979, o Partido dos Trabalhadores representou uma experiência inédita na vida política brasileira. Congregando um conjunto heterogêneo de aderentes, entre os quais sobreviventes da esquerda armada e militantes do catolicismo “progressista”, o novo partido tinha como principal base o novo sindicalismo urbano, em especial na região industrial do ABC paulista, de onde provinham suas lideranças mais importantes. Entre elas, sobressaía Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, que ganhara projeção nacional ao comandar as greves operárias de 1977 e 1978.

Singularizavam o PT, no cenário político brasileiro, tanto o fato de ser um partido que nascia “de baixo para cima” quanto sua relação com os movimentos sociais que deseja representar – uma relação em que o partido aprenderia com eles, em vez de deles se servir para impor um programa “pronto”, como no modelo da esquerda mais tradicional.

A partir daí, a história do partido pode ser contada como uma progressão quase linear na direção de maior pragmatismo e maior integração ao jogo político tradicional. De maneira sumária, é possível dizer que, de sua fundação até a vitória eleitoral para a presidência em 2002, o PT passou de uma situação em que se projetava como singular no cenário político por seu caráter classista para outra em que o diferencial buscado era ético. É a passagem do “Trabalhador vota em trabalhador”, slogan da primeira experiência eleitoral do partido, em 1982, para o “Quero um Brasil decente”, que a campanha de Lula anunciava 20 anos depois. Por isso, os deslizes éticos do governo Lula tiveram mais impacto do que se o governo federal estivesse nas mãos de outro partido.

Orientações metodológicas

Esta pesquisa envolveu a análise dos editoriais dos três principais jornais diários do país – Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo – durante um período de oito meses, revelando como uma parcela influente da elite empresarial brasileira (os controladores da imprensa) pensou a crise política. Foram lidos, fichados e tabulados todos os editoriais publicados entre 1º de maio (mês em que eclodiu a crise) e 31 de dezembro de 2005, num total de 245 dias e 1803 editoriais.

Os editoriais e a crise

Dos 1803 editoriais publicados no período sob análise, 26,2% tratavam da crise do “mensalão”. Dentre estes, as personagens mais frequentes foram o Partido dos Trabalhadores (em 68,6% deles), o presidente da República (em 59,5%) e o governo da União (em 50,2%). O foco no PT, como organização partidária, mais do que em seus líderes ou na administração federal, já indica que a denúncia das “promessas vãs” do petismo – que faria política de um jeito diferente, que seria guardião da ética – foi um dos elementos centrais do enquadramento da crise.

Entre os motivos da crise, destaca-se, com nitidez, a corrupção, sobretudo a corrupção do PT e seus líderes (57,2%) e a corrupção da administração petista (54%), que foram, de longe, os motivos mais citados para a crise.

Embora em linhas gerais se mostrassem bastante similares, as abordagens dos três jornais apresentaram algumas diferenças significativas. Em O Estado de S. Paulo, a corrupção foi focada no PT e em seus dirigentes, mais do que na administração federal, ao contrário do que ocorreu nos outros dois jornais. Também no Estado, a inexperiência do presidente e de seu partido aparece como motivo importante para a crise, o que não se verificou na Folha ou no Globo. O diário carioca, por sua vez, foi o único a dar ênfase ao aparelhamento da máquina pública.

Entre os remédios propostos, destacaram-se a investigação das denúncias e a punição dos culpados por corrupção, o que é congruente com o foco em causas personalistas para a crise. Proporcionalmente, O Globo apresentou mais remédios à crise do que os jornais de São Paulo. A maior presença de editoriais que sugeriam “evitar crise institucional” e “evitar imobilismo do governo” – isto é, medidas que visam garantir a continuidade da ação governamental –, por sua vez, sinalizava para uma posição mais cautelosa no enfrentamento com Lula. Uma explicação possível para a divergência está no fato de que as Organizações Globo mantinham relação privilegiada com o governo, com ligação íntima com o ministro das Comunicações (nomeado em meio à crise, em agosto de 2005), seu ex-funcionário Hélio Costa, e interessadas diretas numa decisão crucial que estava sendo tomada no período, o padrão da televisão digital brasileira.

Conclusões

A cobertura da crise do mensalão pelos três jornais em foco, assim como pelo restante da mídia, ao longo de 2005 e também em 2006, foi “dura”. O núcleo de poder do governo federal foi atingido em ondas sucessivas. Em 16 de junho de 2005, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, tido como homem forte do governo, renunciou ao cargo (e teria seu mandato de deputado federal cassado meses depois). Em 27 de março de 2006, o governo Lula perderia seu outro homem forte, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, em consequência de um dos desdobramentos do escândalo.

No entanto, quando analisavam os motivos da crise ou propunham alternativas para sua superação, os editoriais se mantiveram dentro da lógica da ordem vigente. De fato, a natureza do escândalo, associada à perda das esperanças com uma gestão governamental “diferente” – que Lula e o Partido dos Trabalhadores representavam –, abria as portas à possibilidade de uma negação radical da política concorrencial estabelecida, na linha do “que se vayan todos” argentino de 2001, que postulava a remoção de toda a elite política e apontava na direção de novas, ainda que obscuras, formas de organização social.

Para os três jornais, a crise política resultou do descumprimento de regras legais (corrupção) ou de normas morais tácitas (fisiologismo) que deveriam reger o comportamento político. A solução estaria no cumprimento da lei (investigação e punição dos culpados), secundada por modificações acessórias nas regras em vigor (mudança do sistema eleitoral, redução dos cargos de confiança). Apesar das diferenças de ênfase, este retrato vale para qualquer dos diários analisados.

Mesmo quando eram apontados defeitos na democracia concorrencial estabelecida, as alternativas para remediá-los não extrapolavam a mera revisão de algumas normas legais. Tratava-se, portanto, de uma questão de “deficiências” a serem sanadas pela redução do Estado e pela “modernização” das regras políticas. Não houve qualquer espaço para uma discussão sobre o afastamento entre as instituições representativas e o povo que é titular nominal da soberania, afastamento que é próprio das democracias eleitorais. Muito menos para pôr em questão a relação entre a economia capitalista, marcada pela desigualdade de recursos entre os agentes privados, e a esfera política formalmente democrática, em que todos têm condições pretensamente iguais de influência.

A análise dos editoriais indica que os meios de comunicação podem ter sido “incendiários” na conjuntura, mas adotaram antes a postura de “bombeiros” em relação a possíveis questionamentos de longo alcance do sistema político e de sua relação com o sistema econômico. O “ideal político” que suas representações forjam é inequivocamente conservador. O jornalismo colabora, assim, para estabelecer o fato de que política é isso, política se faz assim, e que é possível pensar em reformá-la, mas não em fugir da lógica já dada.

Leia a íntegra do texto aqui

Bibliografia:

MIGUEL, Luis Felipe; COUTINHO, Aline de Almeida. A crise e suas fronteiras: oito meses de “mensalão” nos editoriais dos jornais. Opin. Publica,  Campinas ,  v. 13, n. 1, p. 97-123,  June  2007 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762007000100004&lng=en&nrm=iso>. access on  26  May  2020.  https://doi.org/10.1590/S0104-62762007000100004.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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