História dos Filósofos Ilustrada Pelos Textos – Platão

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Nascido em 428 a. C., é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. Jovem aristocrata, estava destinado a uma carreira política. Em 407, Platão se torna discípulo de Sócrates, à época com 63 anos.

Segundo Sócrates, devemos nos interessas por aquilo que nos concerne diretamente. “Conhece-te a ti mesmo” é a palavra-chave do humanismo socrático. Sócrates ajuda-nos somente a refletir. Nada ensinava, buscava ajudar os espíritos a trazer à luz o que já trazem em si mesmos (é a maiêutica socrática). Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento, Sócrates faz perguntas que levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Seu método baseado em interrogar é, antes de tudo, um esforço de definição. Por exemplo, partindo dos diversos aspectos da justiça, ele procura depreender a ideia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. Para ele, os injustos são ignorantes, pois ninguém é mau voluntariamente. Só o conhecimento salva.

O ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. C., condenado a beber cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. Condenação injusta que exprime uma incompatibilidade entre o poder político e a sabedoria do filósofo. Daí as resoluções de Platão, que afirma que todos os estados são mal governados por ser somente através da filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual. Platão ainda diz que a justiça reinará no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos.

A filosofia de Platão é fundamentalmente dualista. Admite a existência de dois mundos: o das Ideias imutáveis, eternas, o único mundo verdadeiro; e o mundo das aparências sensíveis, perpetuamente mutáveis, que só existe porque participa do mundo das ideias do qual é uma sombra. Uma bela moça, por exemplo, só é bela porque participa da Beleza em si.

A intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates de duas maneiras:

a) Eis o ensinamento socrático sobre a definição: para que haja uma definição do homem em geral, é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós conhecemos, um outro mundo onde exista o Homem em si, a Justiça em si, isto é, as Ideias. A Ideia platônica dá realidade ao conceito socrático.

b) É sobretudo a vida e morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. A cidade que condena Sócrates à morte, que vê triunfar a injustiça e a mentira, é um mundo de pernas para o par. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam. A tranquilidade de Sócrates no momento de sua morte mostram que, para ele, as Ideias contam mais que a vida.

Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Ideias eternas e o mundo das aparências mutáveis. A ascensão dialética, por exemplo, é o itinerário pelo qual nos elevamos das simples impressões sensíveis (eikasia) mais alto grau, a iluminação direta pela Ideia (noesis).

A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Ideias. A alma guarda uma lembrança obscura de quando podiam contemplar as Ideias à vontade. Essa lembrança pode ser redespertada através de estímulos. A emoção amorosa, por exemplo, a emoção que arrebata a alma diante da Beleza – a Ideia mais fácil de reconhecer – é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo, em seguida pelos belos corpos, depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si.

Uma vez que não é o homem, mas as Ideias que constituem absolutos referenciais, é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. Platão defende o valor absoluto da Ideia de justiça; a justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma: a sensibilidade, a vontade e o espírito. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo, mas escrita em caracteres mais fortes na escala do Estado. A política de Platão distingue três classes sociais: os artesãos, dos quais a Justiça exige a temperança, os militares nos quais a Justiça será coragem, os chefes (cuja Justiça é antes de tudo, Sabedoria) que são filósofos longamente instruídos.

Platão prefere a aristocracia, que, no caso, significa o governo dos melhores.

Podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico:

a) o mito traduz uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível em uma linguagem de imagens.

b) o mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem) pois a inteligência abstrata não basta para evocar o que pertence à história.

c) o mito indica que o pensamento filosófico se inspira nas crenças religiosas tradicionais.

Textos de Platão

1 – A virtude segundo Sócrates

Sócrates pede a Mênon que o ensine o que é a virtude, que responde ser fácil dizê-lo e cita diversos exemplos (a do homem é administrar bem o Estado; a da mulher, administrar a casa etc.). Sócrates diz que todos eles tem ao menos um o caráter idêntico, em razão do qual todos são virtudes. Quer saber qual é a virtude cuja unicidade abarca todas as outras. Mênon termina por afirmar não saber responder.

2 – DISCURSO DE GLAUCO SOBRE O JUSTO E O INJUSTO

Um testemunho do imoralismo dos sofistas. Em diálogo com Sócrates, Glauco defende que a justiça nasce da conclusão dos homens que é mais vantajoso não ser nem autor nem vítima de injustiça. O medo dos homens de sofrê-la explica o elogio que se faz da justiça. Glauco supõe um modelo em que um homem injusto tenha a fama de justo (o cúmulo da injustiça) e outro homem que, tendo a fama de injusto, dedique-se integralmente a ser justo. Segundo Glauco, a aparência determinaria o destino de ambos: o injusto seria louvado tanto na vida privada quanto na pública; o justo, torturado e empalado, descobrindo que o importante não é realmente ser homem de bem, mas parecê-lo.

3 – O MITO DA CAVERNA

Sócrates responde com a alegoria da caverna. Sugere a imagem de homens que vivem em uma caverna, acorrentados de modo que veem apenas a parede em que são projetadas as sombras do que passa à entrada da caverna. Eles acreditam que as sombras são a realidade. Se um desses homens fosse libertado, ficaria confuso ao olhar para a luz, não conseguiria distinguir as coisas e ainda continuaria a achar que as sombras representam o real. Se fosse trazido à força ao mundo exterior, continuaria incapaz de distinguir as coisas. O hábito o faria, aos poucos, distinguir as sombras, os reflexos nas águas, depois os próprios seres, até que poderia fitar diretamente o sol. Aí descobriria que o sol produz as estações e os anos, governa todas as coisas visíveis, inclusive é responsável pelo que era visto na caverna. Uma vez nessa situação, ele iria preferir a atual situação ao retorno às sombras. Se o homem subitamente voltasse às sombras, teria a mesma dificuldade de acostumar à vista, os colegas achariam que o mundo exterior estraga a vista e que não vale a pena ir até lá.

Sócrates quer dizer que a ideia do Bem é como o sol. Difícil de chegar até ele e ver, mas, uma vez vista, se apresenta como a causa de toda a retidão e de toda a beleza. É necessário contemplar a ideia do Bem se se quer agir com sabedoria na vida privada ou na vida pública.

Invista mo Resumo da Obra

Bibliografia:

VERGEZ, André; HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1976.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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