Brasil: Uma Biografia – Primeiro Veio o Nome, Depois Uma Terra Chamada Brasil

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DAS VICISSITUDES DE UM MUNDO NOVO, NOVO

Difícil imaginar o impacto e o significado da “descoberta de um Novo Mundo”. Novo, porque ausente dos mapas europeus; novo, porque repleto de animais e plantas desconhecidos; novo, porque povoado por homens estranhos, que praticavam a poligamia, andavam nus e tinham por costume fazer a guerra e comer uns aos outros.

Foi o próprio navegador genovês Cristóvão Colombo, responsável por comandar a frota que primeiro alcançou o continente americano em 12 de outubro de 1492, quem cunhou o nome “canibal”. No diário de sua primeira viagem ao Caribe (realizada entre 1492 e 1493) o explorador menciona que os nativos das ilhas tinham o costume de comer carne humana, e assim os chama de “caribes” ou “canibes”. O nome virou adjetivo e a difusão da prática do canibalismo nas Américas ajudou a consolidar um novo propósito: o de escravizar os nativos. O argumento era que os canibais estavam longe dos valores da humanidade ocidental mas poderiam ser úteis como bons escravos.

Entre os séculos XIV e XV, o que mais animou os portugueses a procurar por novas rotas foi o mercado de especiarias provindas do Oriente. Com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 29 de maio de 1453, porém, as rotas ficaram bloqueadas para os mercadores cristãos. Foi para contornar esse problema que Portugal e Espanha passaram a organizar expedições de exploração, visando encontrar rotas alternativas por terra e por mar.

Para evitar outras guerras, numa Europa já habituada às batalhas envolvendo nações em litígio, logo em 7 de junho de 1494 era assinado um acordo — o Tratado de Tordesilhas — que objetivava dividir as terras “descobertas e por descobrir” fora do Estado por ambas as Coroas. O Tratado definiu como linha de demarcação o meridiano que ficava 370 léguas a oeste de uma ilha não especificada do arquipélago de Cabo Verde, então pertencente aos portugueses. Legislava o tratado, ainda, que os territórios a leste desse meridiano pertenceriam a Portugal e os a oeste à Espanha. O tratado seria ratificado pela Espanha em 2 de junho e por Portugal em 5 de setembro de 1494.

Nova expedição foi organizada em 1500; dessa vez sob o comando do capitão-mor Pedro Álvares Cabral. O empreendimento contava com uma tripulação composta de cerca de mil homens. Problemas não faltavam nessa verdadeira cidadela flutuante. A comida era escassa. Não havia banheiros nesses navios — pequenos assentos eram pendurados sobre a amurada. Com tantos problemas de higiene, as doenças garantiam presença durante as travessias. Em vista das mortes praticamente diárias, a única saída era estender os cadáveres no convés, até que um religioso fizesse uma breve oração e por fim os corpos fossem atirados na água.

A exploração marítima era uma atividade, no limite, privada, mas totalmente financiada pela família real e supervisionada de perto pelo próprio rei. Em troca, a monarquia se reservava o direito de controlar qualquer conquista, distribuir terras e ter monopólio dos ganhos.

A armada de Cabral, que saiu do Tejo em 9 de março de 1500 a caminho das Índias, no dia 22 de abril se deparou com terra a ocidente. Um grande monte logo nomeado monte Pascoal (uma vez que aquela era a semana da Páscoa); o local, por fim, foi chamado de Terra de Vera Cruz.

A descoberta não alterou de imediato os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso-espanhola do globo, logo invadiriam diferentes pontos do litoral. A saída foi criar várias frentes colonizadoras. A partir de 1534 a metrópole dividiu o Brasil entre catorze capitanias, quinze lotes e doze donatários. Como se desconhecia o interior do território, a saída foi imaginar faixas litorâneas paralelas desde a costa que adentrariam até o “sertão”. Todos os beneficiados pela medida eram egressos da pequena nobreza lusitana.

Tinha-se que povoar e colonizar a terra, mas também encontrar algum tipo de estímulo econômico. Além de papagaios e macacos, havia à disposição apenas uma “madeira de tingir”, conhecida no Oriente como boa especiaria, e que poderia alcançar altos preços na Europa. O pau-brasil era muito utilizado na construção de móveis finos, e de seu interior extraía-se uma resina avermelhada, boa para o uso como corante de tecidos. A Coroa logo declarou sua exploração um monopólio real, portanto a atividade só poderia ser desenvolvida mediante pagamento de imposto. O trabalho era executado a partir da mão de obra indígena, que em troca obtinham facas e outras quinquilharias.

PARAÍSO OU INFERNO: A NATUREZA E OS NATURAIS NOS RELATOS SEISCENTISTAS

Brasil, Terra de Santa Cruz, Terra dos Papagaios ou qualquer que fosse o nome escolhido, esse local nascera desempenhando o papel de um “outro”. Se a natureza seria considerada uma eterna primavera coberta por animais pacíficos, já a humanidade gerava desconfiança.

A primeira carta sobre o país, a missiva de 1500 escrita por Pero Vaz de Caminha, ficaria inédita até 1773. Só da década de 1550 em diante é que o conhecimento sobre o Brasil ganharia uma literatura mais específica. Dentre os textos portugueses, o mais conhecido é o Pero Magalhães Gândavo. O Brasil seria o paraíso ou o inferno? Gândavo tanto descreveria a fertilidade da terra, o clima ameno e receptivo, como daria início a uma visão pessimista acerca das gentes do Brasil.

UMA PARCELA DA HUMANIDADE A SER CATEQUIZADA OU ESCRAVIZADA

O resultado do que agora chamamos eufemisticamente de “encontro” de sociedades foi um verdadeiro morticínio: uma população estimada na casa dos milhões em 1500 foi sendo reduzida aos poucos a cerca de 800 mil, que é a quantidade de índios que habitam o Brasil atualmente. São muitos os fatores que explicam tal desastre. Em primeiro lugar, existiu uma barreira epidemiológica favorável aos europeus. A colonização levou à exploração do trabalho indígena e foi responsável por muita dizimação. É ainda na conta da colonização que se deve pôr o recrudescimento das guerras indígenas, que, se já existiam internamente, eram agora provocadas também pelos colonos.

Revelou-se igualmente nefasta a concentração da população indígena nas aldeias controladas pelos missionários, uma vez que favoreceu a proliferação de doenças e epidemias. Com propósitos distintos, a inimizade entre jesuítas e colonos não tardaria a se manifestar.

MUITO ANTES DE CABRAL

Às vésperas da conquista europeia diferentes sistemas sociais indígenas não se achavam isolados; ao contrário, articulavam-se local e regionalmente. Além do mais, vastas redes comerciais uniam áreas e grupos distantes entre si.

As teorias ameríndias têm posto em questão preconceitos comuns como supor que os nativos teriam “mitos”, e nós “filosofias”; que eles possuiriam “rituais”, e nós “ciências”. Essas são heranças e resquícios tardios da maneira como a literatura dos viajantes do XVI viu como “menos” o que era e é, na verdade, “diferente”. Levar a sério os grupos que já moravam na América antes da vinda dos portugueses implica não só pensar a história em nossos próprios termos, mas entender que existiram e existem outras formas de compreensão dessa terra que virou Brasil. Foi graças às alianças que fizeram com certos grupos que os portugueses puderam conquistar o interior do continente, sendo Piratininga (no atual estado de São Paulo) um caso particularmente significativo.

Às vésperas da colonização havia, portanto, um vasto contingente populacional espalhado pelo continente, apresentando diferentes formas de articulação social, econômica e política em escala regional e local. Se a chegada de Cabral significou um desastre para essas populações, não há por que descrever apenas perdas em vidas, terras e na cultura. Contatos e mudanças continuam a ser feitos até hoje, quando os ameríndios com suas práticas, religiões e filosofias têm ganhado maior espaço como atores sociais no país; a despeito de ainda representarem uma voz política bastante ignorada. Também não há por que imaginar que a catequese tenha encontrado uma população passiva. Se os ameríndios pareciam aceitá-la sem reação alguma, retornavam sempre às suas próprias sociedades e cosmologias.

Bibliografia:

SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Miguel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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