Brasil: Uma Biografia – Tão Doce Como Amarga: A Civilização do Açúcar

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UMA CIVILIZAÇÃO DO AÇÚCAR

É a partir de 1650 que o açúcar, em especial aquele feito de cana, converte-se de um luxo raro num produto corriqueiro e basicamente obrigatório. Até então, Portugal limitava-se a comercializar os produtos encontrados em suas possessões. Agora, era preciso transformar a empresa colonial num sistema produtivo de fluxo constante, tendo por base produtos diretamente dirigidos para o mercado europeu. Assim, a escolha da monocultura do açúcar veio bem a calhar. Portugal possuía experiência e conhecimento de como comercializar e distribuir o produto.

O AÇÚCAR CHEGA AO BRASIL

As primeiras mudas chegaram ao Brasil na expedição de Martim Afonso de Sousa, que saiu de Portugal em dezembro de 1530. Ele, em 1532, constrói o primeiro engenho de açúcar em São Vicente. A história do açúcar brasileiro migraria, então, para o Nordeste. Nessa região do país foi encontrado o massapê: um solo fértil de aluvião considerado ideal para a produção da cana. Além do mais, o clima quente e úmido, a vasta rede hidrográfica necessária para o transporte interno e a maior proximidade com a metrópole transformaram o açúcar na vedete do Império português. Os primeiros engenhos começaram a funcionar em Pernambuco no ano de 1535, sob a direção do donatário Duarte Coelho. Foi em Pernambuco e na Bahia, sobretudo na região do Recôncavo baiano, que a economia açucareira de fato prosperou.

Por mais que tentassem controlar todas as etapas, a história final do comércio açucareiro escaparia das mãos dos portugueses. Os grandes centros importadores estavam em Amsterdam, Londres, Hamburgo, Gênova, sendo deles o maior poder na fixação dos preços. A economia da cana assumiria, cada vez mais, um perfil internacional e à sua maneira globalizado.

OUTRO BRASIL”, FRANCÊS E HOLANDÊS

Entre os séculos XVI e XVII, tão logo os demais países europeus se deram conta da “descoberta” de uma nova colônia nas Américas, a costa brasileira foi alvo de frequentes invasões. Desrespeitando o Tratado de Tordesilhas, a França tentou por duas vezes implantar uma colônia no Brasil. A primeira tentativa — a França Antártica — foi empreendida por Nicolas Durand de Villegagnon, que conseguiu desembarcar no Rio de Janeiro em 1555 e por lá permaneceu durante três anos.

Já em 1612 os franceses estariam de volta, dessa vez invadindo São Luís no Maranhão, onde tentaram implementar a chamada França Equinocial. O território ocupado era bastante vasto. A reação de Portugal foi proporcional à extensão do ataque e as operações culminaram com a capitulação dos franceses em 4 de novembro de 1615.

Se a conquista francesa seria circunstancial, no caso da Holanda a história foi bem diferente. Os holandeses miraram a próspera capitania de Pernambuco. O ataque se iniciou em 1630 e contou com 65 embarcações e 7280 homens: Olinda, a capital, caiu no dia 14 de fevereiro desse mesmo ano. De 1630 a 1637 os holandeses consolidaram seu domínio na região entre o Ceará e o rio São Francisco. O Conselho dos XIX, que regia a Companhia das Índias Ocidentais, responsável pela administração do Brasil holandês, convidou para ocupar a posição de governador-geral de 1637 a 1644 um jovem coronel do Exército: o conde alemão João Maurício de Nassau-Siegen, então com 32 anos.

Com o objetivo de recuperar a economia e ganhar credibilidade, Nassau mandou vender a crédito os engenhos abandonados pelos proprietários que tinham fugido para a Bahia; restabeleceu o tráfico de escravos para a região; forneceu crédito para a compra e equipamento das fábricas; saneou a crise de abastecimento obrigando os proprietários a plantar mandioca na proporção compatível com o número de seus escravos. Calvinista, o conde determinou a liberdade de religião. Nassau favoreceu ainda a vinda de artistas, naturalistas e letrados para Pernambuco. O conde também esteve ligado aos melhoramentos feitos no Recife, que foi elevado pelos holandeses à categoria de capital, no lugar de Olinda. Perto da região deteriorada do porto, Nassau fundou a Cidade Maurícia — uma tentativa de réplica tropical da capital holandesa, com traçados geométricos e canais. O governador ergueu palácios, um templo calvinista, e instalou o primeiro observatório (que anotou um eclipse solar em 1640); tratou do calçamento de algumas vias e do saneamento urbano. Nassau ainda mandou construir três pontes, as primeiras de grandes proporções no Brasil.

Nassau, pressionado pelos holandeses, foi obrigado a regressar para a Europa em 1644, sendo esse também considerado o momento do início do declínio do Brasil holandês. A capitulação holandesa deu-se em 1654, quando uma esquadra portuguesa cercou o Recife por mar. Com a interferência da monarquia inglesa, em 6 de agosto de 1661 foi finalmente acertado um tratado em Haia: os portugueses manteriam a posse dos territórios conquistados na América e na África, mas pagariam uma indenização de 4 milhões de cruzados aos holandeses.

A luta contra o holandês fazia parte do estado de guerra de todos contra todos que dominava as terras desses Brasis. Juntamente com o temor de uma eventual ocupação estrangeira, era possível observar a resistência do ameríndio e do africano escravizado. Numa sociedade assim, as armas permaneciam dispersas pelo território; jamais depostas.

NA TERRA DO TRABALHO FORÇADO

Para que a roda do engenho girasse sem parar, o mais fundamental era a manutenção da mão de obra. A utilização de trabalhadores indígenas transformara-se num problema espinhoso já nos tempos do pau-brasil. As ordens religiosas, por exemplo, os jesuítas, desestimulavam o uso dessa mão de obra. Havia, da parte dos indígenas, uma visão diversa sobre a natureza do trabalho e os portugueses tomaram como “falta de aptidão” o que era uma compreensão distinta do mundo.

Foi dessa maneira que se casaram os lucros da cana com aqueles provenientes do “tráfico de viventes”. Entre os domínios do Império português constavam feitorias em toda a costa da África. Portugal garantia as duas pontas do mercado: o provimento de mão de obra e o monopólio da cana.

UMA NOVA LÓGICA DO AÇÚCAR

Em 1548, d. João III decidiu estabelecer um novo controle régio, nomeando um governador-geral e outros representantes da Coroa que viriam residir na colônia. No ano seguinte o primeiro governador, Tomé de Sousa, desembarcou na então semideserta capitania da Bahia e imediatamente começou a construir a capital no litoral. No entanto, a despeito das tentativas da metrópole de controlar a colônia, a descentralização era evidente. O centro da vida, o local de mando e de hierarquia, permanecia retido, real e simbolicamente, em torno da casa-grande e do engenho.

O que definia a nobreza no Brasil era o que ela não fazia. Dedicar-se ao trabalho braçal, cuidar de uma loja, atuar como artesão e demais atividades eram coisas para gentios ou cativos. Já os “nobres” deveriam viver do rendimento de aluguéis e de cargos públicos. Melhor ainda era ser proprietário de engenho e se cercar de um grande número de agregados, parentes e criados.

Mas não há casa-grande sem senzala. Nas senzalas da cana residiam escravos, que podiam chegar às centenas, em péssimas condições de higiene. As senzalas eram trancadas à noite pelos feitores, a fim de evitar fugas e de estabelecer a disciplina, pois dessa maneira se determinava o horário de se recolher e de despertar.

Inventou-se, portanto, uma aristocracia da cana, cujo ápice absoluto era ocupado pelo senhor de escravos e seu centralismo político e social. Nos “distantes e largos Brasis”, o proprietário da região reinava quase só, raramente havendo interferência da Coroa portuguesa nesses que se consideravam negócios internos.

O NEGÓCIO DA CANA

Vale lembrar um aspecto crucial, e muito peculiar, da economia açucareira no Brasil: a ausência de refinarias. E não apenas na colônia como também na metrópole portuguesa, que durante vários anos acabou deixando, além do comércio, a manufatura final do açúcar na mão dos holandeses.

Bibliografia:

SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Miguel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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