A Casa & A Rua: Conversa para receber o leitor

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As páginas iniciais do livro equivalem às normas de recepção; servem para amortecer a passagem entre a “casa” e a “rua”, transformando quem recebe em anfitrião e o estranho (leitor) em visita, uma entidade com extrema precisão social e sujeita a atenções ritualizadas conscientes. A “casa” aqui é apresentada, então, como uma coleção de ensaios que buscam compreender a sociedade brasileira como uma coisa totalizada; entendem a sociedade brasileira como uma realidade que forma um sistema com normas próprias que se materializam e atualizam através dos indivíduos. Assim, a sociedade se faz e se refaz por meio de um sistema complexo de relações sociais que se impõem aos seus membros.

No Brasil, estilos distintos ou mutuamente excludentes convivem em íntima relação. O que se chamou de Barroco é uma arte brasileira, uma vez que sua estilística é relacionar o alto com baixo, humano com divino, passado e presente, etc. São, a “Casa” e a “Rua”, esferas de ação social, domínios culturais institucionalizados que despertam emoções, reações, leis, etc. São categorias sociológicas fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira. Categorias sociológicas são entendidas aqui como conceito que dá conta do que a sociedade pensa e assim institui seus valores e ideias (cosmologia e sistema classificatório) e também para dizer o que a sociedade vive e faz concretamente – sistema de ação que é referido e embebido nos seus valores.

Na tradição de estudos históricos e sociais brasileiros, a casa aparece como lugar físico privilegiado, que abriga as famílias (e empregados, agregados, sacerdotes, escravos) com poder feudal. Não se percebia que família era um grupo dividido e desigual, que se integrava no espaço da casa, espaço que se define ideologicamente em contraste ou oposição a outros espaços e domínios. Assim, o espaço pode aumentar ou diminuir de acordo com a unidade a ser oposta ou contrastada – meu quarto pode ser a casa em relação a outros quartos, já na vizinhança, minha casa se refere à construção em si e seus jardins, quintal. Casa e rua formam um par estrutural que é formado pela relação ao mesmo que a forma. Essa dinâmica também pode incluir o “englobamento”, em que um elemento pode absorver o outro em certos momentos por exemplo, quando a rua é englobada pela casa, trata-se a sociedade como uma grande família que segue a liderança de um líder, guia e pai – situação típica do discurso populista, onde a pessoa, a casa e suas simpatias constituem a moldura de todo o sistema, criando a ilusão de presença, honestidade de propósitos e compromisso com o povo. Quando a sociedade é englobada pelo eixo das leis impessoais, está mais próxima de uma situação autoritária. Aqui rompe-se a teia de relações que ameniza a rigidez de um sistema cujo conjunto legal não parte da prática social, visando corrigir ou instaurar novos hábitos sociais.

A “gramática ideológica” brasileira é composta, além da casa e da rua, pelo “outro mundo”, ou o sobrenatural – o universo dos mortos também engloba situações sociais. É possível “ler” o Brasil do ponto de vista da casa, da rua, e do outro mundo. Leituras pelo ângulo da casa ressaltam a pessoa, tem alta carga emocional, que contamina a compreensão do espaço social. Aqui todos, até inimigos, pertencem a uma mesma pátria, o que faz aliados e inimigos irmãos. Leituras pelo ângulo da rua são discursos mais rígidos e instauradores de novos processos sociais. É o idioma do decreto, da lei, da emoção disciplinada que permite a cassação, o banimento, a expulsão. As leituras pelo outro mundo são relativizadoras e inclusivas, pois há um outro lugar e uma outra lógica, todos somos iguais perante forças maiores do que nós.

São três modos diferenciados e complementares de ordenar e reconstruir a experiência social brasileira. Em casa pode-se requerer mais direitos do que na rua, onde se é anônimo, subjugado, um subcidadão. São duas realidades que não conseguimos harmonizar, mas as mantivemos de modo relacional, o que leva a muitas possibilidades de classificação social.

Ao observar a cidadania e o espaço da sociedade, nota-se que temos eixos de classificação diferenciados, que estão associados a certas categorias de pessoas e segmentos sociais. O discurso dominante é mais da “rua”, dos componentes legais e jurídicos. A fala dos subordinados é mais próxima à “casa”, com apelos aos limites morais da exploração social. Já sacerdotes adotam o discurso de “fora do mundo”, cujo conhecimento os legitima como líderes. Por isso esta sociedade seja tão movida às possibilidades de inventar pontes entre esses espaços. Essa é a tese central dos ensaios aqui reunidos.

As interpretações do Brasil seguem duas linhas bem distintas: uma vê o pais cuja raiz é dominada por famílias patriarcais, feudais e escravocratas em um vazio de instituições e valores. Uma outra produção via os atores como modos de produção e  componentes de classes sociais em uma dinâmica de presencias e ausências de instituições como o parlamento, a industrialização, urbanização, ausência de um movimento operário livre, etc.

A primeira linha visa mais o conjunto de costumes que marcou a formação da nossa sociedade. A segunda segue a linha institucional, priorizando leis e aspectos econômicos. São faces da mesma moeda: uma sociedade que atua por meio de códigos sociais complementares e diferenciados. Escolher a “casa” ou a “rua” como viés para análise reflete, além da afinidade pessoal e posicionamento político, a forma como a sociedade opera, acionando tanto o código das relações pessoais quanto as leis da economia política. Essa interpretações dualísticas do Brasil não conseguem vê-la de modo totalizado. No Brasil, mais importante do que posição dos elementos, é a sua conexão. Descobrir essas conexões é captar a sociedade brasileira em seu movimento, que sempre é no sentido de relação e conexão. Por isso essa sociedade é aqui chamada de sociedade relacional. Há sociedades onde os indivíduos são fundamentais, outras em que as relações são valorizadas e podem ser sujeitos importantes em seus processos sociais. A partir de conectivos e conjunções podemos ver melhor as oposições sem desmanchá-las, reduzi-las ou toma-las como irredutíveis. O estilo brasileiro se define a partir de um elo que batiza duas entidades e, simultaneamente, inventa seu próprio espaço e permite enxergar melhor a própria oposição.

É uma arte brasileira fazer de dois, três. Deus é brasileiro porque Ele é feito, como nós, de três pessoas distintas e complementares: o Pai é a “rua”, o estado, as leis impessoais; o Filho é a casa, com as relações calorosas, a humanidade; e o Espírito Santo, é a relação entre os dois, o “outro lado”, a virtude que fica no meio – em cima do muro.

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Bibliografia:

DAMATTA, R. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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