Coronavírus e a Luta de Classes – Política Anticapitalista em Tempos de COVID-19

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A ESPIRAL

Quando, em 26 de janeiro de 2020, li pela primeira vez sobre um coronavírus que estava ganhando terreno na China, pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica global da acumulação de capital. Eu também estava bem ciente de que a China é a segunda maior economia do mundo e que ela efetivamente salvou o capitalismo global em 2007-8, portanto, qualquer impacto sobre a economia da China teria sérias consequências para uma economia global que já estava em péssimas condições. Movimentos de protesto estavam ocorrendo em quase todo lugar (de Santiago a Beirute), muitos dos quais estavam focados no fato de que o modelo econômico dominante não dava resultados positivos para grande parcela da população. Como poderia o modelo econômico dominante, com sua legitimidade reduzida e sua saúde delicada, absorver e sobreviver aos impactos inevitáveis do que poderia se tornar uma pandemia?

Os vírus mudam o tempo todo. Mas as circunstâncias nas quais uma mutação se torna uma ameaça à vida dependem das ações humanas.

Há dois aspectos relevantes nisto. Primeiro, as condições ambientais favoráveis aumentam a probabilidade de mutações fortes. É plausível, por exemplo, esperar que sistemas de fornecimento alimentar intensivos ou abusivos em subtrópicos úmidos possam contribuir para isso. Em segundo lugar, as condições que favorecem a transmissão rápida através dos corpos hospedeiros variam muito. O impacto econômico e demográfico da disseminação do vírus depende de fissuras e vulnerabilidades preexistentes no modelo econômico hegemônico.

Quando a COVID-19 apareceu, a reação dominante foi a de apresentá-la como uma repetição da SARS, mostrando que o pânico era novamente desnecessário. O fato de a epidemia ter eclodido na China também levou o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que aconteceu apenas “lá”. O pico que o vírus colocou na história triunfante do crescimento chinês foi recebido com alegria em certos círculos do governo Trump.

A notícia inicial da propagação internacional do vírus foi ocasional e episódica, com um surto grave na Coreia do Sul e em alguns outros pontos críticos como o Irã. Foi o surto italiano que provocou a primeira reação violenta. O crash da bolsa de valores que começou em meados de fevereiro oscilou um pouco, mas em meados de março levou a uma desvalorização líquida de quase 30% nas bolsas de valores em todo o mundo.

As autoridades públicas e os sistemas de saúde foram apanhados em quase todos os lugares com falta de funcionários. Quarenta anos de neoliberalismo na América do Norte e do Sul e na Europa tinham deixado o público totalmente exposto e mal preparado para enfrentar uma crise de saúde pública deste tipo. Em muitas partes do suposto mundo “civilizado”, governos locais e autoridades regionais/estatais tinham sido privados de financiamento graças a uma política de austeridade destinada a financiar cortes fiscais e subsídios às corporações e aos ricos.

A indústria farmacêutica têm pouco ou nenhum interesse na pesquisa sem fins lucrativos sobre doenças infecciosas. O Presidente Trump tinha cortado o orçamento do Centro de Controle de Doenças e dissolveu o grupo de trabalho sobre pandemias no Conselho Nacional de Segurança com o mesmo ânimo que cortou todo o financiamento da pesquisa, inclusive sobre as mudanças climáticas. Talvez seja sintomático que os países menos neoliberais, China e Coreia do Sul, Taiwan e Singapura, tenham atravessado até agora a pandemia melhor do que a Itália, embora o Irã se baseie neste argumento como um princípio universal.

Os efeitos econômicos estão agora fora de controle, tanto dentro da China como fora dela. Mas as maiores vulnerabilidades existem em outros lugares. Os modos de consumismo que explodiram depois de 2007-8 caíram com consequências devastadoras. Estes modos foram baseados na redução do tempo de rotação do consumo o mais próximo possível de zero. O turismo internacional era emblemático. As visitas internacionais aumentaram de 800 milhões para 1,4 bilhões entre 2010 e 2018. Esta forma de consumismo instantâneo exigiu investimentos maciços em infraestruturas de aeroportos e companhias aéreas, hotéis e restaurantes, parques temáticos e eventos culturais, etc. O impulso em direção ao que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” (no qual os trabalhadores alienados devem recuperar o ânimo através de um pacote de férias em uma praia tropical) foi interrompido.

Mas as economias capitalistas contemporâneas são 70 ou mesmo 80% impulsionadas pelo consumismo. A confiança e o sentimento dos consumidores tornou-se, nos últimos quarenta anos, a chave para a mobilização de uma demanda efetiva e o capital tornou-se cada vez mais orientado pela procura e pelas necessidades. Esta fonte de energia econômica não tem estado sujeita a flutuações bruscas. Mas a COVID-19 fundamenta uma queda generalizada no coração da forma de consumismo que domina nos países mais ricos. A única coisa que pode salvá-lo é um consumismo de massa financiado, inventado e incentivado pelo governo, surgido do nada. Isto exigirá a socialização de toda a economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem chamar-lhe de socialismo.

AS LINHAS DE FRENTE

Há um mito conveniente de que as doenças infecciosas não reconhecem classe ou outras barreiras e limites sociais. Para começar, a força de trabalho que se espera que cuide dos números crescentes de doentes é tipicamente sexista, racializada e etnizada na maioria das partes do mundo.

Esta “nova classe trabalhadora” está na vanguarda e suporta o peso de ser a força de trabalho que corre maior risco de contrair o vírus através de seus empregos ou de ser demitida injustamente por causa da retração econômica imposta pelo vírus. As forças de trabalho na maioria das partes do mundo há muito que foram socializadas para se comportarem como bons sujeitos neoliberais (o que significa culpar a si mesmos ou a Deus se algo de ruim acontecer, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema). Mas mesmo os bons sujeitos neoliberais podem ver que há algo errado com a forma como esta pandemia está sendo enfrentada.

A grande questão é: quanto tempo isto vai durar? Quanto mais tempo durar, mais desvalorização, inclusive da força de trabalho. Os níveis de desemprego subirão, seguramente, para níveis comparáveis aos da década de 1930, na ausência de intervenções estatais maciças que terão de ir contra o neoliberalismo.

Na frente econômica, as respostas têm sido condicionadas pela forma de êxodo do crash de 2007-8. Isto implicou uma política monetária extremamente flexível, aliada ao socorro aos bancos, complementada por um aumento dramático do consumo produtivo através de uma expansão maciça dos investimentos infraestruturais na China. Este último não pode ser repetido na escala necessária.

Se a China não pode repetir seu papel de 2007-8, então o fardo da saída da atual crise econômica se desloca para os Estados Unidos e aqui está a ironia final: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica quanto politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que Bernie Sanders possa propor e esses programas de resgate terão de ser iniciados sob a égide de Donald Trump. Este último, se for sábio, cancelará as eleições em caráter de emergência e declarará a necessidade de uma presidência imperial para salvar o capital e o mundo do “motim e da revolução”.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

HARVEY, David. Política anticapitalista em tempos de COVID-19. In: DAVIS, Mike, et al: Coronavírus e a luta de classes. Terra sem Amos: Brasil, 2020.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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