O Povo Brasileiro: O Enfrentamento dos Mundos

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Os índios perceberam a chegada do europeu como um acontecimento espantoso, só assimilável em sua visão mítica do mundo. Maiores terão sido as esperanças do que os temores daqueles primeiros índios. Tanto é que muitos deles embarcaram confiantes nas primeiras naus. Tantos que o índio passou a ser, depois do pau-brasil, a principal mercadoria de exportação para a metrópole.

Pouco mais tarde, os índios começam a ver a hecatombe que caíra sobre eles. Os povos que ainda o puderam fazer, fugiram mata adentro. Mas a atração irresistível das ferramentas, dos adornos, da aventura, os fazia voltar. Alguns se acercavam e aderiam, preferindo a aventura do convívio com os novos senhores, como flecheiros de suas guerras contra os índios arredios, do que a rotina da vida tribal, que perdera o viço e o brilho.

Aquele desencontro de gente índia que enchia as praias, encantada de ver as velas enfunadas, e que era vista com fascínio pelos barbudos navegantes recém-chegados, era, também, o enfrentamento biótico mortal da higidez e da morbidade. A branquitude trazia da cárie dental à bexiga, à coqueluche, à tuberculose e o sarampo. Assim é que a civilização se impõe, primeiro, como uma epidemia de pestes mortais. Depois, pela dizimação através de guerras de extermínio e da escravização.

Nada que os índios tinham ou faziam foi visto com qualquer apreço. O invasor, ao contrário, vinha com as as naus abarrotadas de machados, facas, facões, canivetes, tesouras, espelhos e miçangas cristalizadas em cores opalinas. Elas eram, em essência, a mercadoria que integrava o mundo índio com o mercado. Assim se desfez, uniformizado, o recém-descoberto Paraíso Perdido.

RAZÕES DESENCONTRADAS

Frente à invasão europeia, os índios defenderam até o limite possível seu modo de ser e de viver. Entretanto, cada tribo, desajudada pelas demais, pôde ser vencida por um inimigo pouco numeroso mas superiormente organizado, tecnologicamente mais avançado e mais bem armado.

As crônicas coloniais registram copiosamente essa guerra de europeus armados de canhões e arcabuzes contra indígenas que contavam com tacapes, zarabatanas, arcos e flechas. Mais que as espadas e os arcabuzes, as grandes armas da conquista, responsáveis principais pela depopulação do Brasil, foram as enfermidades desconhecidas dos índios com que os invasores os contaminaram. A magnitude desse fator letal pode ser avaliada pelo registro dos efeitos da primeira epidemia que atingiu a Bahia. Cerca de 40 mil índios reunidos pelos jesuítas nas aldeias do Recôncavo, em meados do século XVI, atacados de varíola, morreram quase todos, deixando os 3 mil sobreviventes tão enfraquecidos que foi impossível reconstituir a missão. Os próprios sacerdotes operavam muitas vezes como contaminadores involuntários.

Apesar de o projeto jesuítico de colonização do Brasil nascente ter sido formulado sem qualquer escrúpulo humanitário, tal foi a ferocidade da colonização leiga que estalou, algumas décadas depois, um sério conflito entre os padres da Companhia e os povoadores dos núcleos agrário mercantis. Para os primeiros, os índios, então em declínio e ameaçados de extinção, passaram a ser criaturas de Deus com direito a sobreviver se abandonassem suas heresias para se incorporarem ao rebanho da Igreja. Para os colonos, os índios eram um gado humano, cuja natureza, mais próxima de bicho que de gente, só os recomendava à escravidão.

Em diversas regiões – mas sobretudo em São Paulo, no Maranhão e no Amazonas – foram grandes os conflitos entre jesuítas e colonos, defendendo, cada qual, sua solução relativa aos aborígenes: a redução missionária ou a escravidão. A curto ou longo prazo, triunfaram os colonos, que usaram os índios como guias, remadores, lenhadores, caçadores e pescadores, criados domésticos, artesãos; e sobretudo as índias, como os ventres nos quais engendraram uma vasta prole mestiça, que viria a ser, depois, o grosso da gente da terra: os brasileiros.

Também foi nefasto o papel dos jesuítas, retirando os índios de suas aldeias dispersas para concentrá-los nas reduções, onde, além de servirem aos padres e de morrerem nas guerras dos portugueses contra os índios hostis, eram facilmente vitimados pelas pragas de que eles próprios os contaminavam. É evidente que nos dois casos o propósito dos jesuítas não era destruir os índios, mas o resultado de sua política não podia ser mais letal. A atuação mais negativa dos jesuítas, porém, se funda na dupla lealdade frente aos índios e à Coroa. Isso sobretudo no primeiro século, quando sua função principal foi minar as lealdades étnicas dos índios, apelando para o seu espírito religioso, a fim de fazer com que se desgarrassem das tribos e se atrelassem às missões.

No segundo século, representados por figuras mais capazes de indignação moral, como ANTÔNIO VIEIRA, os jesuítas assumiram grandes riscos no resguardo e na defesa dos índios. Foram, por isso, expulsos, primeiro, de São Paulo e, depois, do estado do Maranhão e Grão-Pará pelos colonos. Afinal, a própria Coroa, na pessoa do marquês de POMBAL, decide acabar com aquela experiência, expulsando-os do Brasil. Então, os padres entregam obedientemente as missões aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e dos índios pela gente de Pombal, e são presos e recolhidos à Europa.

O SALVACIONISMO

Nas décadas do achamento, descoberta ou invasão do Brasil, surgiram descrições cada vez mais minuciosas das novas terras. Assim, elas iam sendo apropriadas pelo invasor também pelo conhecimento de seus rios e matas, povos, bichos, compondo um novo corpo de saber, voltado para valores e propósitos diferentes.

Com o convívio, tanto os índios começaram a distinguir nos europeus nações e caráteres diferentes, como estes passaram a diferenciá-los em grupos de aliados e inimigos, falando línguas e tendo costumes diferentes. Assim, foi surgindo uma etnologia recíproca, através da qual uns iam figurando o outro. A ela correspondeu, na Europa, um compêndio de interpretações das novidades espantosas que vinham nas cartas dos navegantes, depois nas crônicas e testemunhos e, afinal, nessa etnologia incipiente.

A curiosidade se acendeu no reino dos teólogos. Logo compuseram uma teologia alucinada e messiânica, que via na expansão ibérica uma missão divina que se cumpria passo a passo. Tordesilhas, nesse contexto, teria sido uma visão profética sobre a destinação ibérica de evangelização para criar uma Igreja efetivamente universal. Esses discursos respondiam a uma necessidade imperativa: atribuir alguma dignidade formal à guerra de extermínio que se levava adiante. O império ibérico, sagrando-se sobre o novo mundo, prometia que, à torpeza índia, faria suceder a prudência e a piedade cristãs, até converter os infiéis servos do demônio em cristãos. Uma missão a cargo da Coroa, cujo direito de avassalar os índios, colonizar e fluir as riquezas da terra nova decorria do sagrado dever de salvá-los pela evangelização. O europeu agora tinha de incluir aquela indianidade pagã na humanidade do passado, entre os filhos de Eva, e do futuro, entre os destinados à redenção eterna.

Na ordem secular, a legitimidade da hegemonia europeia se estabeleceu soberana. Na ordem divina, os jesuítas e os franciscanos pretenderam, porém, afiançar que estavam destinados a criar repúblicas pias e seráficas de santos homens com os índios recém-descobertos, a fim de que, como prescrevia o Livro dos Atos, todos os que creem vivessem unidos, tendo todos os bens em comum.

Essas utopias se opunham tão cruamente ao projeto colonial que a guerra se instalou prontamente entre colonos e sacerdotes. Mesmo onde as missões se implantaram produtivas e até rentáveis para a própria Coroa – como ocorreu com as dos Sete Povos, no sul, e ao norte, na missão tardia da Amazônia – prevaleceu a vontade do colono.

Entre as duas proposições, as Coroas optaram, ambas, pelo projeto colonial. Os místicos haviam cumprido já a sua função de dignificar a ação conquistadora. Agora, deviam dar lugar aos homens práticos, que assentariam e consolidariam as bases do império maior que jamais se viu. Em lugar de sacros reinos pios, os reis de Espanha e de Portugal queriam é o reino deste mundo.

Bibliografia:

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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