O Povo Brasileiro: A Urbanização Caótica

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CIDADES E VILAS

O Brasil nasceu já como uma civilização urbana, separada em conteúdos rurais e citadinos, com funções complementares e comandada por grupos eruditos da cidade. Nossa primeira cidade, de fato, foi a Bahia, já no primeiro século, quando surgiram também Rio de Janeiro e João Pessoa. No terceiro século, interioriza‐se a vida urbana, com São Paulo; Mariana, em Minas; e Oeiras, no Piauí.

No curso desses séculos as cidades cresceram e se ornaram como portentosos centros de vida urbana, só comparáveis aos do México. Os holandeses enriqueceram Recife. A riqueza das minas se exibiu em Ouro Preto e outras cidades do ouro. A valorização do açúcar translada os senhores de engenho para Recife e para a Bahia. A independência derramou quantidades de lusitanos por toda a parte. A abolição encheu as cidades do Rio e da Bahia de núcleos chamados africanos, que se desdobraram nas favelas de agora. A crise de desemprego que ocorre na Europa na passagem do século nos manda 7 milhões de europeus.

As cidades e vilas da rede colonial eram, essencialmente, centros de dominação colonial criados, muitas vezes, por ato expresso da Coroa para defesa da costa, como Salvador, Rio de Janeiro, São Luís, Belém, Florianópolis e outras. Exerciam o comércio e a prestação de serviços aos setores produtivos, na qualidade de agências reais de cobrança de impostos e taxas, de concessão de terras. Suas principais edificações eram as igrejas, conventos e fortalezas. Por ocasião das festas religiosas, a aristocracia rural deixava as fazendas para viver um breve período de convívio urbano festivo.

A classe alta urbana era composta de funcionários, escrivães e meirinhos, militares e sacerdotes ‐ que também eram os únicos educadores ‐ e negociantes. Exceto a alta hierarquia civil e eclesiástica, toda essa gente era considerada “de segunda” em relação aos senhores rurais. Uma camada intermediária de brancos e mestiços livres, paupérrimos, procurava sobreviver à sombra dos ricos ou remediados. Cada fazendeiro ou comerciante tinha e mantinha esses agregados, que os serviam sem salário, em contrapartida dos obséquios que ocasionalmente recebiam e de que viviam.

Essas cidades e vilas constituíam agências de uma civilização agrário‐mercantil, cujo papel fundamental era gerir a ordenação colonial da sociedade brasileira, integrando‐a no corpo de tradições religiosas e civis da Europa pré‐industrial e fazendo‐a render proventos à Coroa portuguesa. Como tal, eram centros de imposição das idéias e das crenças oficiais e de defesa do velho corpo de tradições ocidentais, muito mais que núcleos criadores de uma tradição própria.

INDUSTRIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO

No Brasil, sobretudo o monopólio da terra e a monocultura promovem a expulsão da população do campo. As dimensões são espantosas. A população urbana salta de 12,8 milhões, em 1940, para 80,5 milhões, em 1980. Agora é de 110, 9 milhões. A população rural reduz‐se, em números relativos, de 68,7% para 32,4% e para 24,4% do total. Vivemos um dos mais violentos êxodos rurais, tanto mais grave porque nenhuma cidade brasileira estava em condições de receber esse contingente de população. Chegamos, assim, à loucura de ter algumas das maiores cidades do mundo, tais como São Paulo e Rio de Janeiro, com o dobro da população de Paris ou Roma, mas dez vezes menos dotadas de serviços urbanos e de oportunidades de trabalho. A consequência foi a miserabilização da população urbana e pressão enorme na competição por empregos.

Esse crescimento explosivo entra em crise em 1982, anunciando a impossibilidade de seguir crescendo economicamente sob o peso das constrições sociais que deformavam o desenvolvimento nacional. Primeiro, a estrutura agrária dominada pelo latifúndio que, incapaz de elevar a produção agrícola ao nível do crescimento da população, as expulsa do campo. Segundo, a espoliação estrangeira, que, amparada pela política governamental, fortalecera seu domínio pela sucção de todas as riquezas produtivas.

O Brasil alcança, desse modo, uma extraordinária vida urbana. Dificulta, porém, uma verdadeira modernização. Em nossos dias, o principal problema brasileiro é atender essa imensa massa urbana que, não podendo ser exportada, como fez a Europa, deve ser reassentada aqui. Não há nenhum indício, porém, de que isso se alcance. A ordem social brasileira, fundada no latifúndio e no direito implícito de ter e manter a terra improdutiva, é tão fervorosamente defendida pela classe política e pelas instituições do governo que isso se torna impraticável. A indústria, por sua vez, se orienta cada vez mais para sistemas produtivos poupadores de mão‐de‐obra.

A moderna industrialização brasileira teve o seu impulso inicial com a construção da Companhia Sidenirgica Nacional, em Volta Redonda, e com a Vale do Rio Doce, que pôs nossas reservas minerais a serviço do Brasil, provendo delas o mercado mundial. Essa política de capitalismo de Estado e de industrialização de base provocou sempre a maior reação por parte dos privatistas e dos porta‐vozes dos interesses estrangeiros.

Juscelino Kubitschek, abandonando a política de capitalismo de Estado, atrai numerosas empresas para implantar subsidiárias no Brasil, no campo da indústria automobilística, naval, química, mecânica etc. Para tanto, concedeu toda a sorte de subsídios. O fundamento dessa política, formulada pelo Centro de Estudos para a América Latina (CEPAL), era o de que, elevando as barreiras alfandegárias para reservar o mercado interno às indústrias que aqui se instalassem, se promoveria uma Revolução Industrial equivalente à que ocorreu originalmente em outros países. Os resultados foram, por um lado, altamente exitosos pela modernização que essas indústrias substitutivas das importações promoveram, dinamizando toda a economia nacional. Por outro lado, concentrou‐se tanto em São Paulo, que fez desse estado um pólo de colonização interna.

DETERIORAÇÃO URBANA

A própria população urbana, largada a seu destino, encontra soluções, às vezes esdrúxulas, para seus maiores problemas. Aprende a edificar favelas nas morrarias mais íngremes fora de todos os regulamentos urbanísticos, mas que lhe permitem viver junto aos seus locais de trabalho e conviver como comunidades humanas regulares. Em São Paulo, onde faltam morrarias, as favelas se assentam no chão liso de áreas de propriedade contestada. Resistem quanto podem a tentativas governamentais de desalojá‐las e exterminá‐las. Outra expressão da criatividade dos favelados é aproveitar a crise das drogas como fontes locais de emprego. É nessa base que se estrutura o crime organizado, oferecendo uma massa de empregos na própria favela, bem como uma escala de heroicidade dos que o capitaneiam e um padrão de carreira altamente desejável para a criançada.

O normal na marginália é uma agressividade em que cada um procura arrancar o seu, seja de quem for. Não há família, mas meros acasalamentos eventuais. A vida se assenta numa unidade matricêntrica de mulheres que parem filhos de vários homens. Talvez, por isso, tanto se apeguem aos cultos evangélicos que salvam os homens do alcoolismo, as mulheres da pancadaria dos maridos bêbados, as crianças de toda sorte de violência e do incesto. Quem compete mais com os evangélicos são os cultos afro‐brasileiros, que com sua hierarquia rígida e com sua liturgia apuradíssima abrem perspectivas de carreira religiosa e de vidas devotadas ao culto.

Ultimamente, a coisa se tornou mais complexa porque as instituições tradicionais estão perdendo todo o seu poder de controle e de doutrinação. A escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa fazendo a cabeça das pessoas, impondo‐lhes padrões de consumo inatingíveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações e seu pendor à violência.

Bibliografia:

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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