A Ditadura Envergonhada: A Violência – Pelas Barbas de Fidel

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Em setembro de 1964, Golbery assinalava a Castello que o governo tinha na oposição à esquerda uma frente contrarrevolucionária em que identificava dois blocos: “O grupo janguista-brizolista que foi alijado do poder e (…) o grupo comunista da linha violenta (maoísta-fidelista) que teme a consolidação total, em curto prazo, do atual governo e, pois, acalenta ainda a esperança de, através de atos de violência, criar um clima de intranquilidade pública propiciando a ainda almejada tomada do poder”.

Fidel Castro subvertera noções tradicionais de luta política dos partidos comunistas. Em dezembro de 1956 ele desembarcara na ilha com 81 homens e em janeiro de 59 entrara triunfalmente em Havana. A esquerda latino-americana conseguira seus primeiros heróis vitoriosos. LUIZ CARLOS PRESTES e o PCB, então com 30 mil militantes, estavam dispostos a fazer tudo pelo triunfo do socialismo e da REVOLUÇÃO CUBANA, menos pegar em armas. Quando a guerrilha cubana se encontrava nas montanhas, o Cavaleiro da Esperança não lhe dava crédito nem apoio.

Hostilizado pelo governo americano, Fidel temia ser derrubado por uma invasão da ilha e acreditava que “os Estados Unidos não poderão nos atacar se o resto da América Latina estiver em chamas”. A guerrilha brasileira entrara nos seus planos antes mesmo da derrubada de Goulart.

Desde abril de 1964, a luta armada transformara-se numa alternativa de sobrevivência para centenas de profissionais. O governo Castello Branco expurgara 738 suboficiais, sargentos e cabos das Forças Armadas. Na Marinha licenciaram-se 963 marujos e fuzileiros. Num só processo, sentenciaram-se 284 alistados a penas superiores a cinco anos de reclusão. Todos perderam o emprego e as punições eram um estigma na busca de serviço; as condenações tornavam-se um estímulo à vida clandestina. O que décadas de organização sistemática não haviam sido capazes de dar à cerebral esquerda brasileira, os militares ofereceram de mão beijada: um braço armado.

Francisco Julião, primeira aposta cubana para a revolução, estava preso num quartel do Exército em Brasília. Suas Ligas Camponesas haviam-se desvanecido, e Fidel se queixava de que seu dinheiro fora malbaratado. Aos poucos, saía do baralho uma nova carta: Leonel Brizola. A associação prática de Brizola com os cubanos deu-se provavelmente no segundo semestre de 1964. O sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, dirigente da Ação Popular, a AP, organização da esquerda católica, foi mandado a Havana como representante do comando revolucionário baseado em Montevidéu. Levou uma carta de Brizola a Fidel Castro, entendeu-se com o comandante Manuel Piñeiro Losada, o Barba Roja, chefe do serviço de informações cubano e chanceler da subversão da América Latina. Acertaram as bases para o treinamento militar de brasileiros na ilha.

Em março de 1965, o ex-sargento da Briga da Militar Alberi Vieira dos Santos, um dos exilados mais corajosos, radicais e faladores de Montevidéu, foi a Atlântida ver se conseguia algum dinheiro com Brizola e saiu sem tostão. Encontrou-se depois com o ex-coronel Jefferson Cardim, que fora ligado ao PCB e que a deposição de Goulart colhera em Montevidéu.

Cardim decidira que, a despeito das grandes insurreições planejadas no Uruguai, se ninguém fizesse nada antes do dia 31 de março de 1965, quando o regime militar completaria um ano, ele iria em frente, com o que tivesse. A partir daí Alberi disse ao coronel que tinha centenas de homens prontos para a luta no planalto norte do Rio Grande, e os dois começaram a mover as engrenagens daquela que seria a única insurreição saída do Uruguai. Em dois dias juntaram mil dólares, três fuzis tchecos semi-automáticos e alguns revólveres. Sem nenhum apoio de Brizola, o grupo saiu no dia 18 de março. Conseguiram um caminhão, e nele subiram 23 combatentes.

Os guerrilheiros subiram para o norte e no dia 25 acercaram-se da cidade gaúcha de Três Passos. Atacaram o destacamento da Brigada Militar e o presídio. Com mais armas, à meia-noite, deixaram a cidade. Sempre em direção ao norte, chegaram ao lugarejo de Tenente Portela, capturaram as armas do pelotão da brigada e foram para a divisa entre o Rio Grande e Santa Catarina. A essa altura, os guerrilheiros tinham o Exército no encalço. Cardim subia em direção a Mato Grosso quando as tropas do Exército cercaram-no nas vizinhanças da cidade de Cascavel, duzentos quilômetros a oeste de Curitiba. Horas depois o coronel Cardim foi preso.

Estava terminada a guerrilha. Demorara cerca de 144 horas para ser planejada e 36 para ser destruída. Para a esquerda, sua aventura demonstrou algo cruel: por maior que fosse o descontentamento com o regime, ninguém sairia à rua para tentar derrubá-lo por que uma coluna de guerrilheiros cruzara a fronteira. A ideia de um Brasil pronto para erguer-se à voz de alguns valentes exilados estava dissolvida.

Antes de qualquer interrogatório, um capitão jogou Cardim ao chão e, depois de chutá-lo, ordenou que a tropa “cuspisse na cara desse filho-da-puta, comunista, assassino”. Foi espancado e crucificado nas grades de sua cela. Torturaram-no em três quartéis diferentes. O sargento Alberi, capturado dois dias depois de Cardim, passou pelo mesmo tratamento. A ferocidade da repressão do regime cravou em Cardim uma estaca histórica. Como observou o historiador Jacob Gorender: “Deixava de existir a imunidade dos oficiais à tortura, respeitada nas sublevações anteriores”.

O presidente Castello Branco leu os depoimentos de Cardim e Alberi no dia 13 de abril. Não houve de parte de Castello nenhuma providência no sentido de investigar a conduta dos interrogadores. Com o depoimento de Jefferson Cardim, a tortura entrou no palácio do Planalto como arma de defesa do Estado. No quartel do Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu, a tortura foi praticada como recurso de investigação policial, sem objetivos políticos colaterais, dentro da disciplina e das atividades estritamente militares, fazendo parte delas, como instrumento de poder.

Apesar de terem jogado sobre as costas de Brizola o preço da aventura e do fracasso de Cardim, ele pouco ou nada teve a ver com a correria.

Para Fidel, a aliança com o brizolismo significava a base no Brasil que lhe fora negada pelo Partido Comunista e que vira malbaratada por Francisco Julião. O grande plano da revolução continental dava-lhe uma plataforma de política externa que garantia a Cuba uma projeção internacional jamais conseguida por outro país latino-americano.

Em fevereiro de 1966, Brizola tinha três guerrilhas no mapa. A principal estava em Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia. Fora concebida com a ajuda do Partido Comunista Boliviano e deveria ser uma espécie de foco dos focos. O segundo projeto de guerrilha brizolista estava no sul do Maranhão, para onde já haviam ido quinze homens. O terceiro ficava no parque nacional da serra de Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo. No Brasil, a guerrilha de Brizola tinha o reforço do treinamento cubano. Uma vez em Cuba, os guerrilheiros passavam por dois cursos. O primeiro, mais teórico, incluía aulas de tática, tiro, comunicações, explosivos e topografia, durante cerca de sessenta dias. O segundo durava oito meses e era uma espécie de mestrado, com marchas na serra do Escambray, rações de carne de porco chinesa e leite condensado soviético.

Em março, as guerrilhas começaram a acabar. Em Minas Gerais, no lugarejo de Espera Feliz, no sopé da montanha, o Exército capturou, numa barbearia, dois ex-sargentos que desciam de Caparaó com destino ao Rio de Janeiro. Caparaó esboroou-se em uma semana. Uma coluna comandada por um cabo da PM prendeu oito guerrilheiros no alto da serra. A maneira como foi montada e a facilidade com que foi desmontada a guerrilha de Caparaó indicam que ela tenha sido, para Brizola, mais uma esperança de propaganda – como Golbery supunha – do que efetivamente um foco insurrecional. No final, a aventura serviu muito mais à propaganda do governo, usada para assustar a opinião pública com uma guerrilha de verdade.

Em meados de 1967, Brizola ordenou a desmobilização de seu aparato guerrilheiro. A base mato-grossense dissolveu-se. A execução de Che Guevara em outubro de 1967 e a derrota fulminante de Caparaó abalaram o sonho da guerrilha invencível com a qual um destacamento de bravos embrenhado na selva poderia iniciar uma avalanche que, levando consigo a esquerda e os camponeses, soterraria os liberais e as cidades. Começavam novos tempos. Mudaria a esquerda, mudaria a direita.

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Bibliografia:

GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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