Era dos Extremos: A Revolução Mundial

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A Revolução Bolchevique de outubro de 1917 tornou-se tão fundamental para a história do século XX quanto a Revolução Francesa de 1789 para o século XIX. A Revolução de Outubro produziu de longe o mais formidável movimento revolucionário organizado na história moderna. Apenas trinta ou quarenta anos após a chegada de Lenin à Estação Finlândia em Petrogrado, um terço da humanidade se achava vivendo sob regimes diretamente derivados dos “Dez dias que abalaram o mundo” (Reed, 1919) e do modelo organizacional de Lenin, o Partido Comunista.

I

Que a Rússia czarista estava madura para a revolução, já fora aceito por todo observador sensato do panorama mundial desde a década de 1870.

Em 1916, o cansaço de guerra transformava-se em hostilidade em relação a uma matança aparentemente interminável e incerta. O sentimento antiguerra elevou o perfil político dos socialistas. Mesmo onde os partidos socialistas apoiaram a guerra, seus mais eloquentes opositores se encontravam em suas fileiras. Ao mesmo tempo, o movimento trabalhista organizado nas vastas indústrias de armamentos tornou-se um centro de militância industrial e antiguerra. Não surpreende que os desejos de paz e revolução social se fundissem.

II

A Rússia foi o primeiro dos regimes da Europa Central e Oriental a ruir sob as pressões da Primeira Guerra Mundial. O governo do czar desmoronou quando houve uma greve geral basicamente para exigir pão. O czar abdicou, sendo substituído por um “governo liberal” provisório.

A reivindicação básica dos pobres da cidade era pão, e a dos operários entre eles, melhores salários e menos horas de trabalho. A reivindicação básica dos 80% de russos que viviam da agricultura era terra. Todos queriam o fim da guerra. O slogan “Pão, Paz, Terra” conquistou logo crescente apoio para os que o propagavam, em especial os bolcheviques de Lenin. O Governo Provisório, sem mais ninguém para defendê-lo, simplesmente se esfumou.

O programa do próprio Lenin era essencialmente uma aposta na transformação da Revolução Russa em revolução mundial. Nesse meio tempo, o dever básico dos bolcheviques era se aguentarem.

A Revolução sobreviveu por três grandes razões: primeiro, possuía um instrumento de poder único no centralizado e disciplinado Partido Comunista de 600 mil membros. Segundo, era o único governo capaz de manter a Rússia integral como Estado. A opção em 1917-8 era entre a Rússia e a desintegração, que havia sido o destino de outros impérios derrotados, ou seja, a Áustria-Hungria e a Turquia. A terceira razão era que a Revolução permitira ao campesinato tomar a terra.

III

Em janeiro de 1918, semanas depois da tomada do Palácio de Inverno, uma onda de greves políticas e manifestações antiguerra em massa varreu a Europa Central. O impacto da Revolução Russa nos levantes europeus de 1918-9 foi tão patente que seria difícil haver muito espaço em Moscou para ceticismo quanto à perspectiva de disseminação da revolução do proletariado mundial.

Contudo, era claro em 1920 que a Revolução Bolchevique não estava nos planos do Ocidente. Os novos partidos comunistas continuaram sendo minorias da esquerda europeia. Sua situação não ia mudar até a década de 1930.

IV

No fim, os interesses de Estado da União Soviética prevaleceram sobre os interesses revolucionários mundiais da Internacional Comunista, que Stalin reduziu a um instrumento da política de Estado soviético, sob o controle do Partido Comunista soviético. A revolução mundial pertencia à retórica do passado, e na verdade qualquer revolução só era tolerada se a) não conflitasse com o interesse de Estado soviético; e b) pudesse ser posta sob controle soviético direto.

A humanidade, a URSS aprendera há muito tempo, não seria transformada pela revolução mundial inspirada por Moscou. Desapareceu até mesmo a convicção de Nikita Kruchev de que o socialismo ia “enterrar” o capitalismo por força de sua superioridade econômica. Nenhuma dessas hesitações perturbou a primeira geração de inspirados pela luz de Outubro a dedicar suas vidas à revolução mundial. Embora o seu número fosse pequeno, não se pode entender o século XX sem eles.

Ser um social-revolucionário cada vez mais significava ser um seguidor de Lenin e da Revolução de Outubro, tanto mais quando, após o triunfo de Hitler na Alemanha, esses partidos adotaram a política de união antifascista que lhes permitiu conquistar apoio de massa tanto entre os trabalhadores quanto entre os intelectuais. O marxismo, restaurado por Outubro como a ideologia da mudança revolucionária, significava o marxismo do Instituto Marx-Engels-Lenin de Moscou.

V

A força do movimento pela revolução mundial estava na forma comunista de organização, o “novo tipo de partido” de Lenin. E no entanto, a relação entre o modelo do “partido de vanguarda” e as grandes revoluções que ele se destinava a fazer, longe estava de clara: pois a típica revolução pós-Outubro do Breve Século XX seria ou iniciada por um golpe (quase sempre militar), capturando a capital, ou o resultado final de uma luta armada extensa e em grande parte rural.

VI

O caminho para a revolução pela longa guerra de guerrilha foi descoberto um tanto tardiamente pelos revolucionários sociais do século XX. A Segunda Guerra Mundial produziu um incentivo à tomada do caminho da guerrilha para a revolução: a necessidade de resistir à ocupação da maior parte da Europa continental pelos exércitos da Alemanha de Hitler e seus aliados. Quando o exército alemão foi derrotado, os regimes da Europa ocupada ou fascista se desintegraram, e regimes social-revolucionários sob controle comunista tomaram o poder em vários países onde a resistência armada tinha sido mais eficaz. Desta vez era a própria guerra, e não a repulsa a ela, que levava a revolução ao poder.

VII

A revolução mundial avançara visivelmente. Em vez de uma única URSS fraca e isolada, emergira algo como uma dezena de Estados da segunda grande onda de revolução global, chefiada por uma das duas potências no mundo merecedoras deste nome. Tampouco se exaurira o ímpeto da revolução global, pois a descolonização das velhas possessões ultramarinas imperialistas prosseguia em franco progresso.

As consequências indiretas da era de levantes após 1917 foram tão profundas quanto as diretas. Os anos após a Revolução Russa iniciaram o processo de emancipação colonial e descolonização, e introduziram a política de bárbaras contrarrevoluções (na forma do fascismo e outros muitos movimentos) e a política de social-democracia na Europa. Os partidos trabalhistas e socialistas preferiram ficar em permanente oposição até a chegada da hora do socialismo.

A história do Breve Século XX não pode ser entendida sem a Revolução Russa e seus efeitos. Não menos porque se revelou a salvadora do capitalismo liberal, tanto possibilitando ao Ocidente ganhar a Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha de Hitler quanto fornecendo o incentivo para o capitalismo se reformar, e também (graças a aparente imunidade da União Soviética à Grande Depressão) o incentivo a abandonar a crença na ortodoxia do livre mercado.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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