Era dos Extremos: As Décadas de Crise

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I

A história dos vinte anos após 1973 é a de um mundo que perdeu suas referências e resvalou para a instabilidade e a crise. E, no entanto, até a década de 1980 não estava claro como as fundações da Era de Ouro haviam desmoronado. Só no início da década de 1990 encontramos o reconhecimento de que os problemas econômicos do presente eram de fato piores que os da década de 1930.

Isso era intrigante. Os elementos que estabilizavam a economia eram mais fortes agora que antes. Controle de inventário computadorizado, melhores comunicações e transportes mais rápidos reduziram a importância do volátil “ciclo de estoques” da velha produção em massa. O fato fundamental das Décadas de Crise é que as operações do capitalismo se haviam tornado incontroláveis. As Décadas de Crise foram a era em que os Estados nacionais perderam seus poderes econômicos.

A economia mundial das décadas de 1970 e 1980 não era mais a da Era de Ouro. Seu sistema de produção fora transformado pela revolução tecnológica, globalizado ou “transnacionalizado”. A nova divisão internacional do trabalho transferia indústrias de velhos países regionais e continentes para novos, dos ricos países centrais do capitalismo, como os EUA, para países da periferia.

A tragédia histórica das Décadas de Crise foi a de que a produção agora dispensava visivelmente seres humanos mais rapidamente do que a economia de mercado gerava novos empregos para eles. O mecanismo automático pelo qual a expansão da economia gerava empregos para quem entrava no mercado de trabalho sem qualificações especiais estava visivelmente desabando.

II

A combinação de depressão com uma economia projetada para expulsar a mão-de-obra humana criou uma tensão que penetrou nas políticas das Décadas de Crise. Essa sensação de desorientação e insegurança produziu significativas rearrumações tectônicas na política dos países desenvolvidos. Os maiores perdedores foram os partidos trabalhistas do Ocidente, cujo principal instrumento para satisfazer seus seguidores – ação econômica e social de governos nacionais – perdeu a força, enquanto o núcleo central desses seguidores, a classe trabalhadora, se desfazia em fragmentos. Na nova economia transnacional, os salários internos estavam muito mais expostos à competição estrangeira que antes, e a capacidade dos governos de protegê-los era muito menor. Além disso, desde a década de 1970 vários seguidores abandonavam os principais partidos da esquerda por movimentos de mobilização mais especializados, assim enfraquecendo-os.

As novas forças políticas que ocuparam esse vácuo eram um agrupamento misto, que ia dos xenófobos e racistas na direita, passando pelos grupos secessionistas (não apenas étnicos/nacionalistas), até os vários partidos “Verdes” e outros “novos movimentos sociais”. Nenhuma dessas forças de fato substituiu os velhos establishments políticos. A maioria mais influente delas rejeitava o universalismo da política democrática e cidadã em favor da política de alguma identidade grupal.

III

A partir de 1970 mais ou menos, uma crise semelhante havia começado a solapar o “Segundo Mundo” das “economias centralmente planejadas”. Foi o momento em que essas economias se viram expostas aos movimentos e flutuações da economia mundial transnacional. Contudo, embora de muitas formas as crises no Leste e no Oeste corressem paralelas e estivessem ligadas, elas diferiam: para o sistema comunista, tratava-se de uma questão de vida e morte. A sobrevivência do sistema econômico jamais esteve em questão nos países desenvolvidos do capitalismo. Em alguns aspectos, Oriente e Ocidente haviam evoluído na mesma direção. Em ambos, as famílias se tornaram menores, os casamentos se desfaziam mais livremente que em outras partes, as populações dos Estados mal se reproduziam, quando o faziam.

IV

Sobre o Terceiro Mundo, só uma generalização era segura: desde 1970, quase todos os países dessa região haviam mergulhado profundamente em dívida. Em 1990, iam dos três gigantes da dívida internacional (60 bilhões a 110 bilhões de dólares) até os que deviam 1 ou 2 bilhões. Enquanto suas dívidas cresciam, os bens dos Estados pobres não o faziam. Havia substancial investimento em apenas catorze de quase cem países de baixa e média renda fora da Europa. Após o colapso do bloco soviético, esse pareceu ser também o caso da área entre Trieste e Vladivostok. Em 1990, os únicos ex-Estados socialistas da Europa Oriental que atraíam algum investimento estrangeiro líquido eram a Polônia e a Tchecoslováquia. A maior parte do ex-Segundo Mundo estava sendo assimilada a um status de Terceiro Mundo. O principal efeito das Décadas de Crise foi ampliar o fosso entre países ricos e pobres.

V

Quando a economia transnacional estabeleceu seu domínio sobre o mundo, solapou uma grande instituição, até 1945 praticamente universal: o Estado-nação territorial. Organizações cujo campo de ação era efetivamente limitado pelas fronteiras de seu território, como sindicatos, parlamentos e sistemas públicos de rádio e televisão nacionais, saíram perdendo, enquanto organizações não limitadas desse jeito, como empresas transnacionais, o mercado de moeda internacional e os meios de comunicação da era do satélite, saíram ganhando.

Paradoxalmente, esse enfraquecimento do Estado-nação foi acompanhado de uma nova moda de recortar os velhos Estados-nações territoriais em Estados menores, baseados na exigência de um monopólio étnico-linguístico. O novo nacionalismo separatista das Décadas de Crise era um fenômeno bastante diferente da criação do Estado-nação do século XIX e princípios do XX. Um dos fatores era a resistência dos Estados-nações em reter sua autonomia regional dentro de uma estandardização. O segundo é mais bem descrito como o egoísmo coletivo da riqueza: regiões mais pobres e atrasadas sendo subsidiadas pelas ricas e mais avançadas. Parte do separatismo nacionalista das Décadas de Crise visivelmente se alimentava desse egoísmo coletivo. O terceiro elemento era uma resposta à dissolução de normas, texturas e valores sociais tradicionais: o surgimento de “grupos de identidade” – agrupamentos humanos aos quais a pessoa podia “pertencer”, inequivocamente e sem incertezas. Na verdade, a essência da política étnica era competir com outros grupos semelhantes por uma fatia dos recursos do Estado não étnico, usando a ferramenta política da lealdade grupal.

A política de identidade e o nacionalismo fin-de-siècle eram reações emocionais a problemas do fim do século XX. E no entanto, à medida que o século chegava ao fim, a ausência de instituições e mecanismos de fato capazes de lidar com esses problemas se tornava cada vez mais evidente. O Estado-nação não era mais capaz de lidar com eles. Vários mecanismos tinham sido inventados com esse propósito desde que as Nações Unidas foram estabelecidas em 1945. A simples necessidade de coordenação global multiplicou as organizações internacionais mais rápido que nunca nas Décadas de Crise.

Apesar disso, havia duas maneiras de assegurar-se a ação universal. Uma foi a voluntária abdicação de poder nacional para autoridades supranacionais. O outro instrumento de ação internacional era igualmente protegido contra Estados-nações e democracias: a autoridade dos organismos financeiros internacionais estabelecidos depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Eles adquiriram crescente autoridade durante as Décadas de Crise, à medida que as incontroláveis incertezas das trocas globais e, após 1989, o colapso das economias do bloco soviético tornaram um número cada vez maior de países dependentes da disposição dos países ricos de conceder-lhes empréstimos. Esses empréstimos eram cada vez mais condicionados à busca local de políticas agradáveis às autoridades bancárias globais. O triunfo da teologia neoliberal na década de 1980 na verdade traduziu-se em políticas de privatização sistemática e capitalismo de livre mercado impostas a governos demasiado falidos para resistir-lhes.

Mesmo assim, essas ainda eram autoridades internacionais efetivas, de qualquer modo para a imposição pelos ricos de políticas aos países pobres.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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