Era dos Extremos: Terceiro Mundo e Revolução

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I

O Primeiro Mundo era política e socialmente estável quando começara a Guerra Fria global. O que quer que fumegasse sob a superfície do Segundo Mundo, era abafado pela tampa do poder do partido e da potencial intervenção militar soviética. Por outro lado, muito poucos Estados do Terceiro Mundo atravessaram o período a partir de 1950 (ou da data de sua fundação) sem revolução, golpes militares ou alguma outra forma de conflito armado interno.

Essa instabilidade era igualmente evidente para os EUA, que a identificavam com o comunismo soviético. Quase desde o início da Guerra Fria, os EUA partiram para combater esse perigo por todos os meios. Foi isso que manteve o Terceiro Mundo como uma zona de guerra.

Durante várias décadas, a URSS nem pretendia nem esperava aumentar a região sob governo comunista além da extensão da ocupação soviética no Ocidente, ou da intervenção chinesa (que não podia controlar inteiramente) no Oriente. Moscou simpatizava com os novos regimes e ajudou-os. Apesar disso, o Terceiro Mundo agora se tornava o pilar central da esperança dos que ainda acreditavam na revolução social. Parecia um vulcão global prestes a entrar em erupção.

II

Após 1945, a forma básica de luta revolucionária no Terceiro Mundo parecia ser a guerra de guerrilha.

A década de 1950 foi cheia de guerras de guerrilha no Terceiro Mundo. Curiosamente, foi um movimento relativamente pequeno que pôs a estratégia da guerrilha nas primeiras páginas do mundo: a revolução que tomou a ilha caribenha de Cuba em 1 de janeiro de 1959.

Os rebeldes latino-americanos, embora radicais, nem Fidel Castro, nem qualquer de seus camaradas eram comunistas. O populismo precisa de organização. O Partido Comunista era o único organismo do lado da revolução que podia proporcionar-lhe isso. Os dois precisavam um do outro, e convergiram.

Nenhuma revolução poderia ter sido mais bem projetada para atrair a esquerda do hemisfério ocidental e dos países desenvolvidos. A revolução cubana era tudo: romance, heroísmo nas montanhas, ex-líderes estudantis com a desprendida generosidade de sua juventude, um povo exultante, num paraíso turístico tropical pulsando com os ritmos da rumba. E o que era mais: podia ser saudada por toda a esquerda revolucionária, inclusive os insatisfeitos com a prioridade dos soviéticos para a coexistência pacífica entre ela e o capitalismo.

As guerrilhas eram feitas na área rural do Terceiro Mundo por jovens intelectuais, vindos inicialmente das classes médias estabelecidas de seus países. Isso também valeu quando a tática de guerrilha foi transferida para as grandes cidades, em fins da década de 1960. Esses grupos acharam mais fácil produzir golpes e assassinatos espetaculares do que revolucionar seus países. Pois mesmo na América Latina as grandes forças da mudança política eram políticos civis e exércitos. A onda de regimes militares direitistas que começou a inundar grandes partes da América do Sul na década de 1960 não respondia, basicamente, a rebeldes armados.

III

Nos florescentes países do capitalismo industrial, ninguém mais levava a sério a clássica perspectiva de revolução social por insurreição e ação de massa. E no entanto, os governos de repente se viram diante de uma coisa que parecia a velha revolução e revelava a fraqueza de regimes aparentemente firmes. Em 1968-9, uma onda varreu os três mundos, levada essencialmente pela nova força social dos estudantes, cujos números logo se contariam aos milhões. Três características multiplicavam sua eficácia política. Eram facilmente mobilizados e mais livres que os operários em fábricas gigantescas. Eram encontrados em geral nas capitais, sob os olhos dos políticos e das câmeras dos meios de comunicação. E, sendo muitas vezes filhos da classe média estabelecida, não eram tão fáceis de metralhar quanto as classes mais baixas. As autoridades cuidavam para que não houvessem mártires.

A rebelião dos estudantes ocidentais foi mais uma revolução cultural. Apesar disso, essa rebelião ajudou a politizar um número substancial da geração estudantil rebelde. Pela primeira vez, desde a era antifascista, o marxismo atraía grande número de intelectuais ocidentais.

A revolta estudantil de fins da década de 1960 foi a última arremetida da velha revolução mundial. Foi revolucionária tanto no antigo sentido de buscar uma inversão permanente de valores, quanto no sentido de procurar realizá-la pela ação nas ruas e barricadas, pela bomba e pela emboscada na montanha. Foi global, não só porque a ideologia da tradição revolucionária era internacionalista mas porque, pela primeira vez, o mundo era verdadeiramente global. A primeira geração da humanidade a tomar a viagem aérea e as telecomunicações rápidas e baratas como coisas do cotidiano.

Na verdade, a mais sensacional prova do desaparecimento da revolução mundial foi a desintegração do movimento internacional a ela dedicado. O que restava do movimento internacional comunista centrado em Moscou desintegrou-se entre 1956 e 1968, quando a China rompeu com a URSS em 1958-60, enquanto partidos comunistas (sobretudo ocidentais) começavam a distanciar-se abertamente de Moscou.

IV

Contudo, se a tradição de revolução social no estilo de Outubro de 1917 se exaurira, continuava existindo a instabilidade social e política que gerava revoluções.

O fim da década de 1970 viu a onda de revolução lançar seus salpicos sobre os EUA, quando a América Latina e o Caribe, inquestionável área de dominação de Washington, pareceram inclinar-se para a esquerda (Revolução Nicaragüense de 1979, movimento de guerrilha em El Salvador). A URSS nem fizera, nem controlava essas revoluções, mas visivelmente as acolhia como aliadas.

V

Poucas revoluções desde 1917-8 foram feitas a partir das bases. A maioria o foi pelas minorias ativistas ou impostas de cima, como por golpes de exército ou conquista militar. Contudo, em fins do século XX as “massas” retornaram à cena mais em papéis principais que coadjuvantes.

Independentemente do que tenha estimulado as populações a entrar em ação, era a disposição de manifestar- se que decidia as questões. O que essa mobilização das massas conseguia era demonstrar a perda de legitimidade de um regime. No Irã, como na Petrogrado de 1917, a perda de legitimidade foi demonstrada pela recusa do exército e da polícia a obedecer ordens. Os cidadãos precisavam de líderes, estruturas ou estratégias políticas para ser eficazes.

Uma explicação para a revivescência das massas foi a urbanização do globo, sobretudo no Terceiro Mundo. A maioria dos habitantes de qualquer grande Estado agora vivia na cidade, sede de poder; podia sobreviver e defender-se contra o desafio rural. Após a Guerra do Golfo de 1991, Saddam Hussein manteve-se no Iraque contra insurreições num Estado militarmente fraco, essencialmente porque não perdeu Bagdá. As revoluções no fim do século XX têm de ser urbanas, se querem vencer.

O mundo do fim do Breve Século XX se acha mais em estado de colapso que de crise revolucionária. Esse tipo de descontentamento concentrado com o status quo é hoje menos comum que uma rejeição desconcentrada do presente, um processo de desintegração a que as políticas interna e internacional dos Estados se adaptam o melhor que podem.

Além disso, a acessibilidade de armas e explosivos altamente destrutivos hoje é tal que o habitual monopólio de armamentos do Estado em sociedades desenvolvidas não pode mais ser tomado como certo. Na anarquia de pobreza e ganância que substituiu o ex-bloco soviético, não era mais inconcebível nem mesmo que armas nucleares, ou os meios para fabricá-las, pudessem chegar às mãos de grupos outros que não os governos.

O mundo do terceiro milênio, portanto, continuará a ser de política violenta e mudanças políticas violentas. A única coisa incerta nelas é aonde irão levar.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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