Era dos Extremos: A Queda do Liberalismo

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I

De todos os fatos da Era da Catástrofe, os sobreviventes do século XIX ficaram talvez mais chocados com o colapso dos valores e instituições da civilização liberal cujo progresso seu século tivera como certo.

Esses valores eram a desconfiança da ditadura e do governo absoluto; o compromisso com um governo constitucional com ou sob governos e assembleias representativas livremente eleitos, que garantissem o domínio da lei; e um conjunto aceito de direitos e liberdades dos cidadãos, incluindo a liberdade de expressão, publicação e reunião.

De fato, após a erupção de barbarismo em 1914-8, as instituições básicas do governo liberal constitucional eram quase universais no mundo de países independentes nessa época. No entanto o liberalismo fez uma retirada durante toda a Era da Catástrofe.

Vale a pena lembrar que nos vinte anos de enfraquecimento do liberalismo o perigo vinha exclusivamente da direita política, um movimento para o qual o rótulo “fascismo” é ao mesmo tempo insuficiente mas não irrelevante. Insuficiente porque de modo algum todas as forças que derrubavam os regimes liberais eram fascistas. E relevante porque o fascismo inspirou outras forças antiliberais, apoiou-as e deu à direita internacional um senso de confiança histórica: na década de 1930, parecia a onda do futuro.

A Igreja Católica Romana não era fascista. O que ligava a Igreja não só a reacionários anacrônicos mas aos fascistas era um ódio comum pelo Iluminismo do século XVIII, pela Revolução Francesa e por tudo o que na sua opinião dela derivava: democracia, liberalismo e, claro, o “comunismo ateu”.

II

O primeiro dos movimentos que podem ser verdadeiramente chamados de fascistas foi o italiano, que deu nome ao fenômeno, criação de um renegado jornalista socialista, Benito Mussolini.

A grande diferença entre a direita fascista e não fascista era que o fascismo existia mobilizando massas de baixo para cima, rejubilava-se na mobilização das massas, mesmo quando chegava ao poder. Os fascistas eram os revolucionários da contrarrevolução: em sua retórica, em seu apelo aos que se consideravam vítimas da sociedade, em sua convocação a uma total transformação da sociedade.

O fascismo enfatizava muitos valores tradicionais. Denunciavam a emancipação liberal — as mulheres deviam ficar em casa e ter muitos filhos — e desconfiavam da corrosiva influência da cultura moderna, que os nacional-socialistas alemães descreviam como “bolchevismo cultural” e degeneradas. O racismo de Hitler não era um orgulho de uma linhagem sem mistura. Com apoio da genética aplicada (“eugenia”), sonhava em criar uma super-raça humana pela reprodução seletiva e a eliminação dos incapazes.

O cimento comum desses movimentos era o ressentimento de homens comuns contra uma sociedade que os esmagava entre a grande empresa, de um lado, e os crescentes movimentos de trabalhistas, do outro. Esses sentimentos encontraram sua expressão característica no antissemitismo. Os judeus estavam presentes em quase todo lugar. Eles podiam servir como símbolos do odiado capitalista/financista; do agitador revolucionário; da corrosiva influência dos “intelectuais sem raízes” e dos novos meios de comunicação. Para não falar da visão aceita entre os cristãos antiquados de que eles tinham matado Jesus. A antipatia aos judeus era de fato difusa no mundo ocidental.

III

As condições ideais para o triunfo da ultradireita alucinada eram um Estado velho, com seus mecanismos dirigentes não mais funcionando; uma massa de cidadãos desencantados, desorientados e descontentes, não mais sabendo a quem ser leais; fortes movimentos socialistas ameaçando ou parecendo ameaçar com a revolução social; e uma inclinação do ressentimento nacionalista contra os tratados de paz de 1918-20. Essas eram as condições sob as quais as velhas elites governantes desamparadas sentiam-se tentadas a recorrer aos ultrarradicais, como fizeram os liberais italianos aos fascistas de Mussolini em 1920-2, e os alemães aos nacional-socialistas de Hitler em 1932-3.

Não houve “revolução fascista”, nem foi o fascismo a expressão do grande capital. O nazismo tinha, e em parte realizou, um programa social para as massas: férias; esportes; o planejado “carro do povo”, o “fusca” Volkswagen. Deve-se dizer no entanto que o fascismo teve algumas grandes vantagens para o capital, em relação a outros regimes: derrotou a revolução social esquerdista e eliminou os sindicatos e outras limitações aos direitos dos empresários de administrar sua força de trabalho.

IV

O fascismo dificilmente teria se tornado muito significativo na história do mundo não fosse a Grande Depressão. Contudo, mesmo a Grande Depressão não teria dado ao fascismo nem a força nem a influência que ele exerceu na década de 1930 caso não houvesse levado um movimento desse tipo ao poder na Alemanha, um Estado destinado por seu tamanho, potencial econômico e militar e também sua posição geográfica, a desempenhar um papel político importante na Europa. A tomada da Alemanha por Hitler pareceu confirmar o sucesso da Itália de Mussolini.

A influência do fascismo na década de 1930 era global. Mas, fora da Europa, foram poucas as condições para a criação dos movimentos fascistas. Isso se aplica até mesmo ao Japão. O conceito de um “movimento” de mobilização de massa para fins novos, guiado por líderes autodesignados, não fazia sentido no Japão de Hirohito – o Japão não era fascista.

Entretanto, na América Latina a influência fascista europeia foi aberta e reconhecida, tanto em políticos individuais, como Jorge Eliezer Gaitán da Colômbia (1898-1948) e Juan Domingo Perón da Argentina (1895-1974), quanto em regimes, como o Estado Novo de Getúlio Vargas, de 1937 a 1945, no Brasil Na verdade, o principal efeito da influência fascista na América Latina foi interno a seus países. Tirando a Argentina, que favoreceu abertamente o Eixo, os governos do hemisfério ocidental entraram na guerra do lado dos EUA, pelo menos nominalmente.

O que os líderes latino-americanos tomaram do fascismo europeu foi a sua deificação de líderes populistas com fama de agir. Mas os regimes fascistas europeus destruíram os movimentos trabalhistas, os líderes latino-americanos que eles inspiraram os criaram. Independentemente de filiação intelectual, historicamente não podemos falar do mesmo tipo de movimento.

V

Embora a ascensão e triunfo do fascismo fossem a expressão mais espetacular da derrota liberal, é um erro ver a queda do liberalismo exclusivamente em termos de fascismo.

No fundo, a política liberal era vulnerável porque sua forma de governo característica, a democracia representativa, em geral não era uma maneira convincente de governar Estados, e as condições da Era da Catástrofe raramente asseguraram as condições que a tornavam viável, quanto mais eficaz.

As democracias da década de 1920 desmoronaram sob a tensão da revolução e contrarrevolução (Hungria, Itália, Portugal), ou do conflito nacional (Polônia, Iugoslávia); as da década de 1930, sob as tensões da Depressão. Nessas circunstâncias, a democracia tornava-se mais um mecanismo para formalizar divisões entre grupos inconciliáveis que qualquer outra coisa. Onde, em tempos de crise, não havia maioria parlamentar alguma, como na Alemanha (ao contrário da Grã-Bretanha), a tentação de procurar base em outro lugar era esmagadora.

Assim, é fácil entender que a democracia parlamentar nos Estados sucessores dos velhos impérios, bem como na maior parte do Mediterrâneo e da América Latina, fosse uma frágil planta crescendo em solo pedregoso.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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