Era dos Extremos: Contra o Inimigo Comum

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I

Quando perguntados, em janeiro de 1939, quem os americanos queriam que ganhasse, se irrompesse uma guerra entre a União Soviética e a Alemanha, 83% foram a favor de uma vitória soviética (Miller, 1989, pp. 283-4). Nada parece mais anômalo do que essa declaração de preferência pelo berço da revolução mundial em detrimento de um país vigorosamente anticomunista e cuja economia era capitalista.

A política do Ocidente pode ser mais bem entendida como uma guerra civil ideológica internacional: de um lado, os descendentes do Iluminismo do século XVIII e das grandes revoluções, incluindo, claro, a russa; do outro, seus adversários.

O que uniu todas as divisões civis nacionais numa única guerra global, internacional e civil, foi o surgimento da Alemanha de Hitler (1933-45). O fascismo tratava publicamente todos os liberais, socialistas e comunistas ou qualquer tipo de regime democrático e soviético, como inimigos a serem destruídos. Um outro fator entrelaçou os fios da política nacional numa única teia internacional: a debilidade dos Estados democráticos liberais para resistir ao avanço de Japão, Alemanha e Itália (que viria a chamar-se “Eixo”). A popularidade da URSS, e a relutância a criticar o que acontecia lá, deveram-se basicamente à sua oposição à Alemanha nazista, diferente das hesitações do Ocidente.

II

Embora os governos sempre estivessem dispostos a chegar a um acordo com a URSS, muitos conservadores achavam que o melhor seria uma guerra germano-soviética, enfraquecendo os dois inimigos. Além disso, a Europa como tal era de pouco interesse para o Japão e os EUA, cujas políticas eram do Pacífico e da América. Os países da Europa Oriental, embora hostis à Alemanha, resistiam a qualquer aliança que trouxesse as forças russas de volta às suas terras.

A França saíra da Primeira Guerra Mundial dessangrada. Os governos britânicos, financeiramente, não podiam se dar o luxo de outra guerra. Ao mesmo tempo, o problema que de fato os preocupava era como manter inteiro um império global à beira da decomposição. Por trás de tudo isso havia a questão de saber se, estando o status quo de qualquer maneira condenado, o fascismo não era melhor que a revolução social e o bolchevismo.

III

A Guerra Civil Espanhola de 1936-9 se tornou a expressão exemplar desse confronto global: de um lado, democracia e revolução social; do outro, a contrarrevolução ou reação, inspirado por uma Igreja Católica que rejeitava tudo o que acontecera no mundo desde Maninho Lutero.

Tendo falhado a política direitista ortodoxa em vencer as eleições de 1936, a Espanha reverteu a uma forma política em que fora pioneira: o pronunciamiento, ou golpe militar. O golpe iniciou uma longa guerra civil entre o governo legítimo da República e os generais insurgentes. A URSS foi a única potência que ajudou o governo legítimo da Espanha, o que não impediu que a mobilização da direita tenha se mostrado mais efetiva que a da esquerda.

IV

A Guerra Civil Espanhola moldou as forças que iriam destruir o fascismo. Antecipou a aliança única de frentes nacionais que ia de conservadores patriotas a revolucionários sociais, para a derrota do inimigo nacional e simultaneamente para a regeneração social – ninguém sonhava com um retorno ao pré-guerra de 1939.

V

Após quase uma década de aparente fracasso da unidade antifascista, o temor de ter de enfrentar Hitler sozinho levou Stalin a chegar a um acordo com Hitler. Contudo, quando a Alemanha invadiu a URSS e declarou guerra aos EUA, a guerra transformou-se numa aliança entre o capitalismo dos EUA e o comunismo da União Soviética.

Duas coisas se deve dizer sobre os movimentos de resistência europeus. Primeiro, seu maior significado foi político e moral. Enquanto os italianos podiam deixar a memória de Mussolini para trás com a consciência limpa por causa da generalizada resistência em 1943-5, os alemães, que tinham apoiado seu governo até o fim, não podiam colocar distância entre eles próprios e a era nazista de 1939-45. A resistência interna estava morta ou saía de campos de concentração.

A segunda observação sobre a Resistência é que sua política pendia para a esquerda. Em cada país os fascistas, os radicais de direita, os conservadores, ricos locais e outros cujo principal terror era a revolução social, tendiam a pelo menos a não se opor aos alemães.

Os comunistas não tentaram estabelecer regimes revolucionários em lugar nenhum, a URSS desencorajou vigorosamente tais investidas unilaterais ao poder. As revoluções comunistas de fato feitas (Iugoslávia, Albânia, depois China), o foram contra a opinião de Stalin. O socialismo se limitaria à URSS e à área ocupada pelo Exército Vermelho no fim da guerra.

VI

A natureza da guerra confirmou as intuições de 1936 sobre as implicações da Guerra Civil Espanhola: a identificação de mobilização militar e civil com mudanças sociais.

Onde houve eleições autênticas, elas mostraram uma nítida mudança para a esquerda. O caso mais impressionante foi o britânico, onde as eleições de 1945 derrotaram o senhor da guerra, Winston Churchill, e levaram ao poder o Partido Trabalhista. Os dois grandes partidos haviam se envolvido igualmente no esforço de guerra. O eleitorado escolheu aquele que prometia tanto vitória quanto transformação social. O fenômeno foi geral na Europa Ocidental guerreira.

Muito curiosamente, a URSS foi (com os EUA) o único país beligerante a que a guerra não trouxe nenhuma mudança social e institucional significativa. Começou e terminou o conflito sob Yosif Stalin.

VII

Muito pouco do que foi escrito neste capítulo até agora se aplica à maior parte do globo. Para a maior parte da Ásia, África e o mundo islâmico, o fascismo jamais se tornou o principal inimigo. Este era o “imperialismo” ou “colonialismo”, e as potências imperialistas eram, em sua maioria, as democracias liberais: Grã-Bretanha, França, os Países Baixos, Bélgica e os EUA.

VIII

Após a derrota do Eixo, a força e legitimidade do velho colonialismo haviam sido seriamente solapadas. No fim, o fascismo não tinha mobilizado nada além de seus países originais. O efeito líquido de doze anos de nacional-socialismo foi que grande parte da Europa estava agora à mercê dos bolcheviques.

Por outro lado, o capitalismo constitucional ocidental, os sistemas comunistas e o Terceiro Mundo estavam igualmente comprometidos com iguais direitos para todas as raças e ambos os sexos. Mais precisamente, após 1945 eram quase todos Estados que rejeitaram a supremacia do mercado e acreditaram na administração e planejamento da economia pelo Estado. Fosse para impedir um retorno às catástrofes econômicas do entreguerras e evitar os perigos políticos de pessoas radicalizadas, fosse para tirar suas economias do atraso e dependência. A União Soviética e sua nova e extensa família acreditavam apenas no planejamento central.

A primeira contingência que se teve de enfrentar foi o imediato colapso da grande aliança antifascista. Assim que não mais houve um fascismo para uni-los contra si, capitalismo e comunismo mais uma vez se prepararam para enfrentar um ao outro como inimigos mortais.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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