Era dos Extremos: O Fim dos Impérios

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I

Durante o século XIX, onde não se deram ao trabalho de ocupar e dominar, os países do Ocidente estabeleceram uma superioridade incontestável com seu sistema econômico e social. Depois de 1917, o comunismo soviético ofereceu um modelo alternativo. A dinâmica da maior parte da história do mundo no Breve Século XX consiste essencialmente das tentativas das elites das sociedades não burguesas de imitar o modelo em que o Ocidente foi pioneiro, numa variante capitalista ou socialista.

A história dos responsáveis pelas transformações no Terceiro Mundo neste século é a história de minorias de elite, pois — além da quase total ausência de instituições de política democrática — só uma minúscula camada possuía o necessário conhecimento mesmo alfabetização elementar.

Nada disso quer dizer que as elites ocidentalizadas aceitassem necessariamente os valores dos Estados e culturas que tomavam como modelos. Suas opiniões pessoais podiam ir de 100% de assimilacionismo a uma profunda desconfiança do Ocidente. Assim, no período de independência, o socialismo atraía os governos descolonizados porque viam a URSS como um modelo para superar o atraso através de uma industrialização planejada, questão de muito mais interesse para eles do que a emancipação do “proletariado”. Quaisquer que fossem os objetivos dos que moldavam a história do mundo atrasado, a modernização, ou seja, a imitação de modelos derivados do Ocidente, era o caminho necessário e indispensável para atingi-los.

II

A industrialização do mundo dependente ainda não fazia parte dos planos de ninguém.

A indústria pouco saíra do mundo do capitalismo desenvolvido até a década de 1970. Ainda em 1960 os velhos centros de industrialização na Europa Ocidental e América do Norte produziam mais de 70% do produto mundial bruto e quase 80% do “valor acrescentado na manufatura”, ou seja, da produção industrial (Harris, 1987, pp. 102-3). A grande virada da indústria para longe do velho Ocidente — incluindo a ascensão da indústria japonesa — ocorreu no último terço do século. Só na década de 1970 os economistas começaram a escrever livros sobre “a divisão internacional de trabalho”, ou seja, o início da desindustrialização dos velhos centros.

III

Praticamente todas as partes da Ásia, África e América Latina/Caribe eram dependentes do que acontecia nuns poucos Estados do hemisfério norte, mas (fora das Américas) a maioria delas era também ou propriedade deles ou de outro modo dominada e comandada por eles. Nessas áreas, era inevitável que surgisse o problema de como livrar-se do domínio estrangeiro.

O mundo colonial fora tão completamente transformado numa coleção de Estados nominalmente soberanos depois de 1945 que retrospectivamente pode parecer que isso era inevitável. Contudo, a ideia do Estado soberano independente que temos como certa, não fazia sentido para as pessoas. Na verdade, mesmo onde existia um “povo”, a ideia de que ele podia ser territorialmente separado de outro com o qual coexistia fazia pouco sentido. Além disso, os habitantes do Terceiro Mundo que mais se ressentiam dos ocidentais (fosse como infiéis ou simplesmente por resistência a qualquer mudança na vida da gente simples) opunham-se igualmente à justificada convicção das elites de que a modernização era indispensável. Em suma, um profundo conflito separava os modernizadores e a gente comum do Terceiro Mundo. Os movimentos anti-imperialistas e anticoloniais de antes de 1914 eram menos destacados do que se poderia pensar.

Contudo, a Primeira Guerra Mundial foi o primeiro conjunto de acontecimentos que abalou seriamente a estrutura do colonialismo mundial, além de destruir dois impérios (o alemão e o otomano, cujas antigas possessões foram divididas entre os britânicos e os franceses), e derrubar temporariamente um terceiro, a Rússia. As tensões da guerra nas regiões dependentes geraram agitação. O impacto da Revolução de Outubro e o colapso geral de velhos regimes fizeram pela primeira vez os impérios parecerem mortais. No fim da guerra, um partido egípcio, o Wafd (“delegação”) de Said Zaghiul, pediu pela primeira vez independência completa. Três anos de luta (1919-22) obrigaram os britânicos a transformar seu protetorado num Egito semi-independente sob controle britânico (fórmula que não valeu para a Palestina, que eles administraram diretamente).

Foi menos fácil para a Grã-Bretanha encontrar uma fórmula fácil para manter o controle sobre a maior de suas colônias, a Índia. A opinião efetiva da classe dominante britânica após 1919 era de que o futuro da Grã-Bretanha na Índia dependia de um acordo com a elite indiana, incluindo os nacionalistas. Como a Índia era o núcleo de todo o império britânico, o futuro desse império como um todo agora parecia incerto. Esse foi um dos grandes motivos pelos quais, quando a posição se tornou insustentável após a Segunda Guerra Mundial, os britânicos não resistiram à descolonização. É também talvez o motivo pelo qual outros impérios, notadamente o francês, lutaram de armas na mão para manter suas posições coloniais após 1945.

IV

A Grande Depressão atingiu todo o mundo dependente. Para praticamente todos esses países, a era de imperialismo fora de quase contínuo crescimento. O sentido de bens, serviços e transações entre povos foi transformado, e por consequência, também os valores morais da sociedade, assim como sua forma de distribuição social. No entanto, a economia mundial como tal parecia remota, porque seu impacto imediato não era cataclísmico.

A Grande Depressão mudou tudo isso. Pela primeira vez, os interesses de economias dependentes e metropolitanas entraram em choque, inclusive porque os preços dos produtos primários, dos quais dependia o Terceiro Mundo, caíram muito mais que os dos bens manufaturados que eles compravam do Ocidente. Ao mesmo tempo, a Depressão desestabilizou a política nacional e internacional do mundo dependente.

Os anos 1930 foram portanto uma década crucial para o Terceiro Mundo, porque estabeleceu contato entre as minorias politizadas e a gente comum de seus países. Começavam a surgir as tendências gerais da política de massa do futuro como o populismo latino-americano baseado em líderes autoritários buscando o apoio dos trabalhadores urbanos. Os anos de Depressão quebraram os laços entre as autoridades coloniais e as massas camponesas, deixando espaço para o surgimento de futuros políticos.

Embora provável, não parecia iminente em 1939 o fim universal dos impérios coloniais. O que transformou a situação foi a Segunda Guerra Mundial. Até 1943 os grandes impérios coloniais estavam do lado perdedor, a prova de que os brancos e seus Estados podiam ser derrotados e que as velhas potências coloniais encontravam-se fracas demais para restaurar suas antigas posições. Além disso, as duas potências que haviam de fato derrotado o Eixo, os EUA de Roosevelt e a URSS de Stalin, eram ambas, por motivos diferentes, hostis ao velho colonialismo.

V

Não surpreendentemente, em fins da década de 1950 já ficara claro para os velhos impérios sobreviventes que o colonialismo formal tinha de ser liquidado. Só Portugal continuou resistindo à sua dissolução, pois precisava explorar seus recursos africanos e, como sua economia não era competitiva, só podia fazê-lo pelo controle direto. A África do Sul e a Rodésia do Sul, os Estados africanos com substanciais populações de colonos brancos, também se recusaram a adotar políticas que inevitavelmente produziriam regimes controlados por africanos.

Em 1970 nenhum território de tamanho significativo continuava sob administração direta das ex-potências colonialistas ou seus regimes de colonos. A era imperial acabara. Menos de três quartos de século antes, parecera indestrutível. Mesmo trinta anos antes, cobria a maior parte dos povos do globo.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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