Era dos Extremos: Revolução Cultural

COMPARTILHE:
Share

I

A melhor abordagem da revolução cultural é através da família e da casa, isto é, através da estrutura de relações entre os sexos e gerações.

A vasta maioria da humanidade partilhava certo número de características, como a existência de casamento formal com relações sexuais privilegiadas para os cônjuges (o “adultério” é universalmente tratado como crime); a superioridade dos maridos em relação às esposas (“patriarcado”) e dos pais em relação aos filhos, assim como às gerações mais jovens; famílias consistindo em várias pessoas; e coisas assim.

Contudo, na segunda metade do século XX, esses arranjos básicos começaram a mudar com grande rapidez. Assim, na Inglaterra e no País de Gales, em 1938, houve um divórcio para cada 58 casamentos (Mitchell, 1975, pp. 30-2), mas, em meados da década de 1980, a proporção era de um divórcio para cada 2,2 casamentos (UN Statistical Yearbook, 1987).

A crise da família estava relacionada com mudanças dramáticas nos padrões públicos que governam a conduta sexual, a parceria e a procriação. Eram tanto oficiais quanto não oficiais, e a grande mudança em ambas coincide com as décadas de 1960 e 1970. Oficialmente, essa foi uma era de extraordinária liberalização tanto para os heterossexuais (isto é, sobretudo para as mulheres) quanto para os homossexuais, além de outras formas de dissidência cultural-sexual. Grandes ou pequenas, as mesmas transformações podem ser identificadas por todo o globo “modernizante”. Em parte alguma isso foi mais impressionante que no campo da cultura popular, ou, mais especificamente, jovem.

II

Pois se divórcio, nascimentos ilegítimos e o aumento de famílias com um só dos pais (isto é, esmagadoramente de mães solteiras) indicavam uma crise na relação entre os sexos, o aumento de uma cultura juvenil específica, e extraordinariamente forte, indicava uma profunda mudança na relação entre as gerações.

A novidade da nova cultura juvenil era tripla. Primeiro, a “juventude” era vista não como um estágio preparatório para a vida adulta, mas, em certo sentido, como o estágio final do pleno desenvolvimento humano. A segunda: ela tornou-se dominante nas “economias de mercado desenvolvidas”, em parte porque representava agora uma massa concentrada de poder de compra, em parte porque cada nova geração de adultos fora socializada como integrante de uma cultura juvenil autoconsciente pois a espantosa rapidez da mudança tecnológica na verdade dava à juventude uma vantagem mensurável sobre grupos etários mais conservadores. A terceira peculiaridade da nova cultura jovem nas sociedades urbanas foi seu espantoso internacionalismo. O blue jeans e o rock se tornaram marcas da juventude “moderna” em todo país onde eram oficialmente tolerados e em alguns onde não eram, como na URSS a partir da década de 1960 (Starr, 1990, capítulos 12 e 13).

A criação de vastas populações de rapazes e moças vivendo juntos como um grupo etário em universidades expandiram espetacularmente a cultura juvenil. Além disso, mesmo os adolescentes tinham muito mais poder aquisitivo que seus antecessores, graças à prosperidade e pleno emprego da Era de Ouro e à maior prosperidade dos pais, que tinham menos necessidade do dinheiro dos filhos para o orçamento familiar.

Os jovens viviam agora em sociedades secionadas de seu passado por revolução, como na China, Iugoslávia ou Egito; por conquista e ocupação, como na Alemanha e Japão; ou por libertação colonial. Os jovens não tinham como entender o que seus mais velhos haviam vivido ou sentido. A Era de Ouro alargou esse abismo. Como rapazes e moças criados numa era de pleno emprego podiam compreender a experiência da década de 1930? O impressionante declínio do campesinato criou um abismo semelhante entre gerações rurais e ex-rurais, braçais e mecanizadas.

III

A cultura jovem tornou-se a matriz da revolução cultural no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes. Liberação pessoal e liberação social davam-se as mãos, sendo sexo e drogas as maneiras mais óbvias de despedaçar as cadeias do Estado, dos pais e do poder dos vizinhos, da lei e da convenção.

O grande significado dessas mudanças foi que rejeitavam a ordenação histórica e há muito estabelecida das relações humanas em sociedade. Essa rejeição se dava em nome da ilimitada autonomia do desejo humano. Paradoxalmente, os que se rebelavam contra as convenções e restrições partilhavam as crenças sobre as quais se erguia a sociedade de consumo de massa. Assumia-se tacitamente agora que o mundo consistia em vários bilhões de seres humanos definidos pela busca de desejo individual.

IV

A revolução cultural de fins do século XX pode assim ser mais bem entendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade. As instituições mais severamente solapadas pelo novo individualismo moral foram a família tradicional e as igrejas organizadas tradicionais no Ocidente, que desabaram de uma forma impressionante no último terço do século.

As consequências materiais do afrouxamento dos laços de família tradicionais foram talvez ainda mais sérias. Pois a família não era apenas um mecanismo para reproduzir-se, mas também fora essencial para a manutenção tanto da economia agrária quanto das primeiras economias industriais, locais e globais. Isso se deveu ao fato de que o mercado por si só não prevê esse elemento central em qualquer sistema privado de busca ao lucro, o denominado truste; ou seu equivalente legal, o desempenho de contratos. Isso exigia ou o poder do Estado ou os laços do parentesco e da comunidade. Contudo, justamente esse laços e solidariedades de grupo não econômicos eram agora minados, como o eram os sistemas morais que os acompanhavam. O velho vocabulário moral de direitos e deveres, pecado e virtude, sacrifício, consciência, prêmios e castigos não mais podia ser traduzido na nova linguagem de satisfação dos desejos.

De início, claro, as vantagens da liberalização social em massa pareceram enormes; tampouco parecia implicar liberalização econômica.

Pois o sistema capitalista dependia da disposição dos seres humanos de adiar a satisfação imediata por um longo período, isto é, poupar para recompensas futuras, do orgulho da conquista, dos costumes de confiança mútua e de outras atitudes que não tinham ligação intrínseca com a busca da vantagem do indivíduo. A família tornou-se parte integral do início do capitalismo porque lhe oferecia várias dessas motivações. O capitalismo podia funcionar sem isso, mas, quando o fez, tornou-se estranho e problemático mesmo para os próprios homens de negócios. Isso se deu durante a moda de especulações financeiras que varreram os distritos financeiros dos Estados de mercado ultralivre, como os EUA e a Grã-Bretanha, na década de 1980 e que praticamente quebraram todos os laços entre a busca do lucro e a economia como um sistema de produção. Os países capitalistas que não esqueceram que não se consegue crescimento só com maximização de lucros (Alemanha, Japão, França) tornaram tais ataques difíceis ou impossíveis.

Maximização e acumulação de lucros eram condições necessárias para o sucesso do capitalismo, mas não suficientes. Foi a revolução cultural do último terço do século que começou a erodir as herdadas vantagens históricas do capitalismo e a demonstrar as dificuldades de operar sem elas.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

More Posts

Follow Me:
Twitter

Desabafos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.