Era dos Extremos: “Socialismo Real”

COMPARTILHE:
Share

Leia todos os resumos de Era dos Extremos

I

A Primeira Guerra Mundial despedaçou tanto o império otomano, cujo sultão era califa de todos os muçulmanos, quanto o império habsburgo, que mantinha uma relação especial com a Igreja romana. O fato de a Rússia ter
sobrevivido como uma entidade multiétnica única quase certamente se deveu à Revolução de Outubro. O que emergiu no início da década de 1920 foi um Estado único, empobrecido e atrasado, mas de enormes dimensões, dedicado a uma sociedade diferente e oposta ao capitalismo.

A região socialista do globo formou um sub universo separado e em grande parte auto-suficiente econômica e politicamente. Suas relações com a economia mundial eram escassas. Mesmo no auge do grande boom no comércio internacional, durante a Era de Ouro, cerca de 4% das exportações das economias de mercado capitalistas foram para as “economias centralmente planejadas”. Havia pouco movimento de pessoas do “primeiro” para o “segundo” mundos. A emigração para os países não socialistas, bem como a viagem temporária, eram estritamente controladas.

O motivo fundamental para a separação dos dois “campos” era político. Após a Revolução de Outubro, a Rússia soviética via o capitalismo mundial como inimigo a ser derrubado pela revolução mundial. Foi isolada, a maioria de poderosos governos do mundo capitalista queria impedir o estabelecimento desse centro de subversão global. A URSS não conquistar reconhecimento diplomático oficial pelos EUA até 1933 demonstra seu estado prescrito inicial.

O fato central da União Soviética era o de que seus novos governantes, o Partido Bolchevique, jamais haviam esperado tornar-se o núcleo de uma economia autossuficiente (“socialismo num só país”). Os fundadores do marxismo supunham que a função da Revolução Russa seria a de provocar a explosão revolucionária nos países industriais mais avançados, onde estavam presentes as condições para a construção do socialismo. Na visão de Lenin, este lugar seria Berlim. Não foi por acaso que a língua oficial da Internacional Comunista era não o russo, mas o alemão.

Quando ficou claro que a Rússia ia ser por algum tempo o único país onde a revolução proletária triunfara, a política lógica era transformar sua economia e sua sociedade atrasadas em avançadas o mais breve possível. A maneira mais óbvia de fazer isso que se conhecia era combinar uma ofensiva total contra o atraso cultural das massas com modernização tecnológica e Revolução Industrial. O comunismo de base soviética, portanto, passou a ser um programa voltado para a transformação países atrasados em avançados. A receita soviética de desenvolvimento econômico era: planejamento econômico estatal centralizado, voltado para a construção ultrarrápida das indústrias básicas, e infraestrutura essencial a uma sociedade industrial moderna. Nenhuma discussão de “planejamento” se encontrava nos textos de Marx e Engels. Foi a crise da Guerra Civil que levou as coisas ao ponto crítico. Todas as economias de guerra, mesmo em países capitalistas, envolvem planejamento e controle pelo Estado.

Com seu realismo habitual, Lenin introduziu em 1921 a Nova Política Econômica, que na verdade reintroduzia o mercado e, de fato, em suas próprias palavras, recuava do Comunismo de Guerra para o Capitalismo de Estado. Foi nesse momento que a necessidade de industrializar maciçamente, e fazê-lo por planejamento do governo, se tornou a tarefa prioritária básica para o governo soviético.

Stalin, que presidiu a resultante era de ferro da URSS, era um autocrata de ferocidade, crueldade e falta de escrúpulos excepcionais. Qualquer política de rápida modernização na URSS, nas circunstâncias da época, tinha de ser implacável e, porque imposta contra o grosso do povo e impondo-lhe sérios sacrifícios, em certa medida coercitiva. A economia de comando centralizado que realizou essa corrida com seus “planos” estava mais perto de uma operação militar que de um empreendimento econômico.

Em suma, o sistema soviético foi projetado para industrializar o mais rapidamente possível um país muito atrasado e subdesenvolvido, na suposição de que seu povo se satisfaria com um padrão de vida que garantisse um mínimo social e um padrão de vida material pouco acima da subsistência. Apesar da ineficiência e desperdício, atingiu esses objetivos. A Rússia se transformara numa grande potência industrial. Contudo, a revolução também desenvolveu um sistema político muito especial, depois também transferido para o mundo socialista: rompeu decisivamente com o lado democrático dos movimentos socialistas.

O Partido Bolchevique ganhou a Guerra Civil como uma ditadura unipartidária garantida por um poderoso aparelho de segurança. Igualmente importante, o próprio partido abandonou a democracia interna, quando se proibiu a discussão coletiva de políticas alternativas (em 1921). A decisão de lançar a revolução industrial de cima automaticamente comprometeu o sistema com a imposição de autoridade porque sua maquinaria para exercer o poder continuamente era agora muito maior. Foi nesse ponto que o sistema se tornou uma autocracia sob Stalin, buscando impor controle total sobre todos os aspectos das vidas e pensamentos de seus cidadãos. Isso certamente não fora previsto por Marx e Engels e não teria passado pela mente de nenhum socialista importante antes de 1917.

Stalin dirigiu seu partido, como tudo mais ao alcance de seu poder pessoal, pelo terror e o medo. O que deu a esse terror uma desumanidade sem precedentes foi o fato de que não reconhecia limites. Era a aplicação do princípio de guerra total a todos os tempos. Apesar de brutal e ditatorial, o sistema soviético não era “totalitário”, um termo inventado na década de 1920 pelo fascismo italiano para descrever seu próprio projeto. Representava um sistema que não apenas impunha total controle físico sobre sua população como, por meio do monopólio da propaganda e da educação, conseguia fazer com que o povo internalizasse seus valores. Isso é sem dúvida o que Stalin teria querido alcançar. Contudo, o sistema soviético não exercia efetivo “controle da mente”, mas na verdade despolitizou a população num grau espantoso. As doutrinas oficiais do marxismo-leninismo deixaram a maioria da população praticamente intocada.

II

Os Estados comunistas que passaram a existir após a Segunda Guerra Mundial, ou seja, todos, eram controlados por partidos comunistas formados moldes soviéticos, ou seja, stalinistas. Em todos eles, encontramos sistemas políticos unipartidários com estruturas de autoridade altamente centralizadas; verdade cultural e intelectual oficialmente promulgada, determinada pela autoridade política; economias centrais planejadas pelo Estado e líderes supremos de forte perfil.

Politicamente, os Estados comunistas começaram formando um único bloco sob a liderança da URSS, que, com base na solidariedade antiocidental, era apoiada mesmo pelo regime comunista que assumiu o pleno controle da China em 1949, embora a influência de Moscou sobre o Partido Comunista chinês fosse tênue desde que Mao Tsé-tung se tornara seu líder inconteste na década de 1930.

O desmoronamento político do bloco soviético começou com a morte de Stalin, em 1953, mas sobretudo com os ataques oficiais à era stalinista em geral no XX Congresso do PCUS, em 1956. Embora visando uma platéia soviética restrita – os comunistas estrangeiros foram excluídos do discurso secreto de Kruschev -, logo se espalhou a notícia de que o monolito soviético rachara. Os efeitos dentro da região da Europa dominada pelos soviéticos foi imediato. Em poucos meses, uma liderança comunista reformista na Polônia foi aceita por Moscou e uma revolução estourou na Hungria.

Enquanto isso, tornava-se cada vez mais urgente a necessidade de mudar o sistema econômico de planejamento central do tipo soviético. A taxa de crescimento das economias socialistas, que superara a das economias ocidentais até a última parte da década de 1950, começou visivelmente a afrouxar. O registro da Europa Oriental era semelhante. Quando a economia mundial entrou em novo período de incertezas, na década de 1970, ninguém no Oriente ou Ocidente esperava mais que as economias socialistas “realmente existentes” alcançassem as não socialistas. Contudo, embora mais problemáticas que antes, o futuro delas não parecia causa de preocupação. Isso logo iria mudar.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

More Posts

Follow Me:
Twitter

Desabafos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.