Era dos Extremos: O Terceiro Mundo

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I

A explosão demográfica nos países pobres do mundo é provavelmente a mudança mais fundamental no Breve Século XX. Uma população mundial que dobrou nos quarenta anos desde 1950 é inteiramente sem precedente histórico, como o são os problemas práticos que tem de suscitar.

Ela foi tão sensacional porque as taxas de nascimento básicas nesses países foram em geral muito altas e porque a enorme taxa de mortalidade caiu como uma pedra. A partir da década de 1940, a inovação médica e farmacêutica pela primeira vez estava em condições de salvar vidas em escala maciça (por exemplo, com antibióticos). Uma consequência incidental foi o alargamento do fosso entre ricos e pobres, países avançados e atrasados.

É importante iniciar qualquer história do Terceiro Mundo com alguma consideração acerca de sua demografia, uma vez que a explosão demográfica é o fato central de sua existência.

II

Contudo, quando surgiram no mundo pós-guerra e pós-colonial, essas não foram as primeiras preocupações dos Estados do mundo pobre. Que forma deveriam eles tomar?

Previsivelmente, adotaram sistemas político derivados dos antigos senhores imperiais, ou daqueles que os haviam conquistado. Uma minoria deles, saindo de revoluções sociais ou (o que equivalia à mesma coisa) extensas guerras de libertação, inclinavam-se a adotar o modelo revolução soviética. Em teoria, portanto, o mundo tinha cada vez mais pretensas “repúblicas democráticas populares” sob um partido único orientador. Na prática, tais rótulos eram em geral tão irrealistas quanto as Constituições oficiais das repúblicas latino-americanas, e pelas mesmas razões: na maioria dos casos, faltavam-lhes as condições materiais e políticas para corresponder a eles.

Na verdade, a predominância de regimes militares unia Estados do Terceiro Mundo de diversas filiações constitucionais e políticas. É difícil pensar em quaisquer repúblicas que não tenham conhecido pelo menos episódicos regimes militares depois de 1945.

As condições para a intervenção militar no Terceiro Mundo eram muito mais convidativas, sobretudo nos novos, fracos e muitas vezes minúsculos, onde era provável que governos inexperientes ou incompetentes produzissem recorrentes estados de caos, corrupção e confusão.

A política dos militares não era nenhum tipo particular de política, mas uma função da instabilidade e insegurança em volta. Contudo, foi se tornando cada vez mais difundida no Terceiro Mundo porque praticamente todos os países da parte anteriormente colonial ou dependente do globo se achavam agora comprometidos com políticas que exigiam deles exatamente os Estados estáveis, funcionais e eficientes que tão poucos tinham. Estavam comprometidos com a independência econômica e o “desenvolvimento”, fosse com base no modelo soviético de planejamento centralizado, fosse pela substituição da importação. Ambos, de modos diferentes, dependiam de ação e controle do Estado.

Os países que vieram a ser conhecidos a partir da década de 1970, no jargão dos funcionários internacionais, como NICS (Newly industrializing countries — Países de industrialização recente) baseavam-se nessas políticas. Elas produziram burocracia, corrupção e desperdício — mas também uma taxa de crescimento anual de 7% no México e Brasil durante décadas.

III

O desenvolvimento não era de interesse imediato para a grande maioria dos habitantes do Terceiro Mundo que viviam cultivando sua própria comida. O problema era que, como modernidade e governo andavam juntos, o “interior” era governado pelo “litoral”, o sertão pela cidade, o analfabeto pelo educado.

Até as pessoas mais distantes e atrasadas, portanto, reconheciam cada vez mais as vantagens da educação superior. Educação significava, muitas vezes, um posto garantido no funcionalismo público. A sede de conhecimento explica muito da espantosa migração em massa da aldeia para a cidade que esvaziou o campo do continente sul-americano, a partir da década de 1950.

IV

Não surpreende, assim, que as dezenas de Estados pós-coloniais que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, junto com a maior parte da América Latina, logo se vissem agrupadas como o “Terceiro Mundo”, em contraste com o “Primeiro Mundo” dos países capitalistas desenvolvidos e o “Segundo Mundo” dos países desenvolvidos comunistas. Todos eram pobres (comparados com o mundo desenvolvido), todos eram dependentes, todos tinham governos que queriam “desenvolver”, e nenhum acreditava que o mercado mundial capitalista ou a empresa privada alcançassem esse fim.

V

Na década de 1970, tornou-se evidente que nenhum nome ou rótulo individual podia cobrir adequadamente um conjunto de países cada vez mais divergentes.

O que o dividiu o “Terceiro Mundo” foi basicamente o desenvolvimento econômico. Era impossível classificar os Emirados Árabes Unidos, onde o PNB per capita   era de mais de 13 mil dólares (1975), no mesmo escaninho que, digamos, o Paquistão, que então tinha um PNB per capita de 130 dólares.

Em segundo lugar, parte do Terceiro Mundo industrializava-se e entrava no Primeiro Mundo, embora continuasse muito pobre. Como vimos, uma nova categoria, os NICS, entrou no jargão internacional.

Em terceiro lugar, estabeleceu-se um subgrupo de países em desenvolvimento de baixa renda para distinguir os 3 bilhões de seres humanos cujo PNB per capita (se o recebessem) teria dado uma média de 330 dólares em 1989 dos 500 milhões mais afortunados em países menos destituídos, como o Equador, cujo PNB era cerca de três vezes maior.

Além disso, à medida que cresciam as divisões entre os pobres, também a globalização provocava movimentos mais evidentes de seres humanos que cruzavam as linhas divisórias entre regiões e classificações. Dos países ricos, fluíam turistas para o Terceiro Mundo como jamais antes. Dos países pobres, os fluxos de migração para os ricos incharam em enormes torrentes.

VI

O “grande salto avante” da economia mundial (capitalista) e sua crescente globalização não apenas dividiram e perturbaram o conceito de Terceiro Mundo como também levaram quase todos os seus habitantes conscientemente para o mundo moderno. Num mundo onde as pessoas do campo migravam para as cidades aos milhões, aldeia e cidade estavam interligadas. Mesmo as mais remotas viviam agora num mundo de embalagem plástica, relógios digitais baratos e fibras artificiais.

Assim, em algum momento no último terço do século XX, a larga vala que separava as pequenas minorias dominantes modernizantes ou ocidentalizantes dos países do Terceiro Mundo do grosso de seus povos começou a ser tapada pela transformação geral de suas sociedades.

Apesar disso, em vastas áreas do Terceiro Mundo, as conseqüências políticas da transformação social eram de fato impossíveis de prever. A única coisa certa era a instabilidade e inflamabilidade desse mundo, do qual tinha dado testemunho o meio século desde a Segunda Guerra Mundial.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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