Era dos Extremos: A Era da Guerra Total

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I

Não há como compreender o Breve Século XX sem a guerra mundial. Ele viveu e pensou em termos de guerra mundial. Em 1914, não havia grande guerra fazia um século. Além disso, media-se a extensão da guerra em meses, ou mesmo semanas.

Tudo isso mudou em 1914. A Primeira Guerra Mundial envolveu todas as grandes potências (Grã-Bretanha; França; Rússia; Áustria-Hungria; Alemanha; Itália; os EUA e o Japão). A Segunda Guerra Mundial foi global: quase todo o globo foi beligerante ou ocupado, ou as duas coisas juntas.

A Primeira Guerra Mundial começou entre a tríplice aliança de França, Grã-Bretanha e Rússia, de um lado, e as chamadas “Potências Centrais”, Alemanha e Áustria-Hungria, do outro.

Por que a Primeira Guerra Mundial foi travada pelas principais potências dos dois lados como uma guerra que só podia ser vencida por inteiro ou perdida por inteiro? O motivo era que essa guerra, ao contrário das anteriores, tratava-se por metas ilimitadas: a Alemanha queria uma política e posição marítima globais como as que então ocupava a Grã-Bretanha. A França queria compensar sua crescente inferioridade demográfica e econômica frente à Alemanha.

Isso arruinou vencedores e vencidos. A Grã-Bretanha arruinara sua economia travando uma guerra que ia muito além de seus recursos. Além disso, a vitória total, ratificada por uma paz punitiva, arruinou as escassas possibilidades existentes de restaurar uma Europa estável.

Impôs-se à Alemanha uma paz punitiva, justificada pelo argumento de que o Estado era o único responsável pela guerra e todas as suas consequências, para mantê-la permanentemente enfraquecida. Quanto ao mecanismo para impedir outra guerra mundial, foi criada uma “Liga de Nações”, que solucionasse pacífica e democraticamente os problemas antes que se descontrolassem, que se revelou um quase total fracasso. A recusa dos Japão a juntar-se à Liga das Nações privou-a de qualquer significado real.

Duas grandes potências mundiais estavam temporariamente não apenas eliminadas do jogo internacional, mas tidas como não existindo como jogadores independentes – a Alemanha e a Rússia soviética (para tornar o mundo seguro contra o bolchevismo, um imã para forças revolucionárias de todas as partes). Qualquer pequena chance que tivesse a paz foi torpedeada pela recusa das potências vitoriosas a reintegrar as vencidas.

Em meados da década de 1920, a economia mundial mergulhou na maior crise que conhecera desde a Revolução Industrial. E isso levou ao poder, na Alemanha e no Japão, as forças políticas do militarismo e da extrema direita, empenhadas num rompimento deliberado com o “status quo”. Uma nova guerra mundial era não apenas previsível, mas rotineiramente prevista.

II

As origens da Segunda Guerra Mundial produziram uma literatura histórica incomparavelmente menor sobre suas causas do que as da Primeira Guerra, e por um motivo óbvio. Nenhum historiador sério jamais duvidou de que a Alemanha, Japão e (mais hesitante) a Itália foram os agressores.

A guerra começou em 1939, depois que a Alemanha entrou na Polônia, que foi derrotada e dividida com a URSS, como uma guerra puramente europeia ocidental de Alemanha contra Grã-Bretanha e França. A guerra foi revivida pela invasão da URSS por Hitler em 22 de junho de 1941. Para Hitler, a conquista de um vasto império territorial oriental, rico em recursos e trabalho escravo, era o próximo passo lógico.

Enquanto isso a guerra se tornara de fato global. O triunfo de Hitler na Europa deixou um vácuo imperial parcial no Sudeste Asiático, no qual o Japão então entrou, afirmando um protetorado sobre as desamparadas relíquias dos franceses na Indochina. Os EUA encararam essa extensão do poder do Eixo no Sudeste Asiático como intolerável, e aplicaram severa pressão econômica sobre o Japão. O ataque japonês a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941 tornou a guerra mundial. Hitler, já inteiramente esgotado na Rússia, declarou gratuitamente guerra aos EUA, dando assim ao governo de Roosevelt a oportunidade de entrar no conflito sem enfrentar resistência política em casa.

A resistência alemã se mostrou muito dura de vencer. No Leste, a determinação do Japão de lutar até o fim foi o motivo pelo qual se lançaram armas nucleares sobre Hiroxima e Nagasaki, para assegurar uma rápida rendição japonesa.

Mais ainda que a Grande Guerra, a Segunda Guerra Mundial foi portanto travada até o fim, sem ideias sérias de acordo em nenhum dos lados.

III

De 1914 em diante, as guerras foram inquestionavelmente guerras de massa. Um tal nível de mobilização, durante anos, não pode ser mantido, a não ser por uma economia industrializada de alta produtividade e em grande parte nas mãos de setores não combatentes da população.

As guerras do século XX foram guerras de massa também no sentido de que usaram, e destruíram, quantidades até então inconcebíveis de produtos durante a luta. A guerra em massa exigia produção em massa. Mas a produção também exigia organização e administração. A guerra total era o maior empreendimento até então conhecido do homem.

A guerra promoveu o crescimento econômico? Num certo sentido, não. As perdas de recursos produtivos foram pesadas, sem contar a queda no contingente da população ativa. Por outro lado, as guerras foram visivelmente boas para a economia dos EUA. Em ambas os EUA se beneficiaram do fato de estarem distantes da luta e serem o principal arsenal de seus aliados, e da capacidade de sua economia de organizar a expansão da produção de modo mais eficiente que qualquer outro. É provável que o efeito econômico mais duradouro das duas guerras tenha sido dar à economia dos EUA uma preponderância global sobre todo o Breve Século XX.

IV

Falta avaliar o impacto humano da era de guerras, e seus custos humanos. O volume de baixas é apenas parte destes. Depois de 1945, voltamos a acostumar-nos ao uso da tortura em pelo menos um terço dos Estados membros das Nações Unidas, incluindo alguns dos mais velhos e civilizados.

Um motivo importante para o aumento da brutalização foi a estranha democratização da guerra. Os conflitos totais viraram “guerras populares”, tanto porque os civis e a vida civil se tornaram os alvos estratégicos certos, quanto porque nenhuma guerra em que se mobilizam os sentimentos nacionais de massa pode ser tão limitada quanto as guerras aristocráticas.

Outro motivo, porém, era a nova impessoalidade da guerra. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis. Embaixo dos bombardeios aéreos estavam não as pessoas que iam ser queimadas e evisceradas, mas somente alvos.

A Primeira e a Segunda Guerra foram episódios de carnificina sem paralelos. No entanto, são impressionantes as diferenças. A Primeira Guerra Mundial não resolveu nada. As esperanças que gerou – de um mundo pacífico e democrático de Estados-nação; de um retorno à economia mundial de 1913; mesmo (entre os que saudaram a Revolução Russa) de capitalismo mundial derrubado por um levante dos oprimidos – logo foram frustradas.

 

A Segunda Guerra Mundial trouxe soluções, pelo menos por décadas. A economia do mundo ocidental entrou em sua Era de Ouro; a democracia política ocidental ficou estável; baniu-se a guerra para o Terceiro Mundo. Até mesmo a revolução pareceu ter encontrado seu caminho para a frente. Os velhos impérios coloniais desapareceram ou logo estariam destinados a desaparecer. Um consórcio de Estados comunistas parecia disposto a competir na corrida pelo crescimento econômico com o Ocidente. Ao contrário da Grande Guerra, os ex-inimigos – Alemanha e Japão – se reintegraram na economia mundial (ocidental), e os novos inimigos – os EUA e a URSS – jamais foram realmente às vias de fato.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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