Era dos Extremos: O Século – Vista Aérea

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I

Em 28 de junho de 1992 o presidente [François] Mitterrand, da França, apareceu de forma inesperada em Sarajevo. Seu objetivo era lembrar à opinião pública mundial a gravidade da crise bósnia, que iria custar cerca de 150 mil vidas no decorrer daquele ano. 28 de junho era o aniversário do assassinato, em Sarajevo, em 1914, do arquiduque Francisco l Ferdinando da Áustria-Hungria, ato que em poucas semanas levou à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Quase ninguém captou a alusão. A memória histórica já não estava viva.

A destruição do passado é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio.

Contudo, não é propósito deste livro contar a história da época de que trata, o Breve Século XX entre 1914 e 1991. Meu objetivo é compreender e explicar por que as coisas deram no que deram e como elas se relacionam entre si.

Confrontos religiosos ou ideológicos como os que povoaram este século erguem barricadas no caminho do historiador. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são fáceis de superar, pois não há verdade no dito francês “tudo compreender é tudo perdoar”. Compreender a era nazista na história alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender.

II

Como iremos compreender o Breve Século XX, ou seja, os anos que vão da eclosão da Primeira Guerra Mundial ao colapso da URSS?

Neste livro, a estrutura do Breve Século XX parece uma espécie de tríptico ou sanduíche histórico. A uma Era de Catástrofe, que se estendeu de 1914 até depois da Segunda Guerra Mundial, seguiram-se cerca de 25 ou trinta anos de extraordinário crescimento econômico e transformação social, anos que provavelmente mudaram de maneira mais profunda a sociedade humana que qualquer outro período de brevidade comparável. A última parte do século foi uma nova era de decomposição, incerteza e crise — e, com efeito, para grandes áreas do mundo, como a África, a ex-URSS e as partes anteriormente socialistas da Europa, de catástrofe.

O roteiro deste livro começa com a Primeira Guerra Mundial, que assinalou o colapso da civilização (ocidental) do século XIX. Para essa sociedade, as décadas que vão da eclosão da Primeira Guerra Mundial aos resultados da Segunda foram uma Era de Catástrofe. Ela foi abalada por duas guerras mundiais, seguidas por duas ondas de rebelião e revolução globais que levaram ao poder um sistema que se dizia a alternativa historicamente predestinada para a sociedade capitalista e burguesa e que foi adotado, após a Segunda Guerra Mundial, por um terço da população do globo. Os imensos impérios coloniais erguidos durante a Era do Império foram abalados e ruíram em pó.

Mais ainda: uma crise econômica mundial de profundidade sem precedentes pôs de joelhos até mesmo as economias capitalistas mais fortes. Enquanto isso, avançavam o fascismo e seu corolário de movimentos e regimes autoritários. A democracia só se salvou porque, para enfrentá-lo, houve uma aliança temporária e bizarra entre capitalismo liberal e comunismo.

As décadas que se seguiram à Era de Ouro iriam ser décadas de crise universal ou global. A crise afetou todas as partes do mundo porque pela primeira vez na história a Era de Ouro criara uma economia mundial única, operando em grande medida por sobre as fronteiras de Estado (“transnacionalmente”) e, portanto, também, cada vez mais, por sobre as barreiras da ideologia de Estado. Os países socialistas, agora com suas economias desabando, rumaram para o colapso. Esse colapso pode assinalar o fim do Breve Século XX, como a Primeira Guerra Mundial pode assinalar o seu início. Nesse ponto minha história chega ao fim.

Chega ao fim com um olhar para a escuridão. À medida que a década de 1980 passava para a de 1990, foi ficando evidente que a crise mundial não era geral apenas no sentido econômico, mas também no político. O colapso dos regimes comunistas entre Istria e Viadivostok destruiu o sistema internacional que dera estabilidade às relações internacionais durante cerca de quarenta anos. O futuro da política era obscuro, mas sua crise, no final do Breve Século, patente.

III

Como comparar o mundo da década de 1990 ao mundo de 1914? Nele viviam 5 ou 6 bilhões de seres humanos, talvez três vezes mais que na eclosão da Primeira Guerra Mundial. Na década de 1990 a maioria das pessoas era mais bem alimentada e muito mais longeva. O mundo estava incomparavelmente mais rico. A humanidade era muito mais culta que em 1914. Na verdade, talvez pela primeira vez na história a maioria dos seres humanos podia ser descrita como alfabetizada. O mundo estava repleto de uma tecnologia revolucionária em avanço constante, cuja consequência política mais impressionante talvez fosse a revolução nos transportes e nas comunicações, que praticamente anulou o tempo e a distância.

O século terminara num estado de inquietação não apenas porque ele foi o século mais assassino de que temos registro, como também pelo volume único das catástrofes humanas que produziu, desde as maiores fomes da história até o genocídio sistemático. Durante o século XX as guerras têm sido, cada vez mais, travadas contra a economia e a infraestrutura de Estados e contra suas populações civis.

Não podemos comparar o mundo do final do Breve Século XX ao mundo de seu início. Tratava-se de um mundo qualitativamente diferente em pelo menos três aspectos.

Primeiro, ele tinha deixado de ser eurocêntrico. Os europeus estavam reduzidos de talvez um terço para no máximo um sexto da humanidade. As indústrias, em que a Europa fora pioneira, migravam para outras partes. As “grandes potências” de 1914, todas europeias, haviam desaparecido ou sido reduzidas a um status regional ou provincial, com a possível exceção da Alemanha. O esforço para criar uma “Comunidade Europeia” demonstrava a profundidade desse declínio.

A segunda transformação foi mais significativa. Entre 1914 e o início da década de 1990 o globo foi uma unidade operacional única, como não poderia ter sido em 1914. Na verdade, o globo é agora a unidade operacional básica, e unidades mais velhas como as “economias nacionais”, definidas pelas políticas de Estados territoriais, estão reduzidas a complicações das atividades transnacionais.

A terceira transformação é a desintegração de velhos padrões de relacionamento social humano, e com ela, a quebra dos elos entre as gerações, quer dizer, entre passado e presente. Isso ficou muito evidente nos países mais desenvolvidos da versão ocidental de capitalismo, onde predominaram os valores de um individualismo associal absoluto, tanto nas ideologias oficiais como nas não oficiais.

Desde a Era da Revolução, observadores de todos os matizes ideológicos previram a consequente desintegração dos velhos laços sociais na prática e acompanharam seu desenvolvimento. A nova e revolucionária sociedade capitalista operou não pela destruição maciça de tudo que o herdara da velha sociedade, mas adaptando seletivamente a herança do passado para uso próprio. No fim deste século tornou-se possível ver como pode ser um mundo em que o passado perdeu seu papel, em que os velhos mapas e cartas que guiavam os seres humanos pela vida individual e coletiva não mais representam a paisagem na qual nos movemos.

Olhando para trás, vemos a estrada que nos trouxe até aqui; foi o que tentei fazer neste livro. Não sabemos o que moldará o futuro. Esperemos que seja um mundo melhor, mais justo e mais viável. O velho século não acabou bem.

Invista mo Resumo da Obra

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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