Origens do Totalitarismo: O Antissemitismo Como Uma Ofensa ao Bom Senso

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Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt

Muitos ainda julgam que a ideologia nazista girou em torno do antissemitismo por acaso, e que desse acaso nasceu a política que visou a perseguir e exterminar os judeus. O que os nazistas apresentaram como sua principal descoberta – o papel dos judeus na política mundial – e o que propagavam como principal alvo – a perseguição dos judeus no mundo inteiro – foi considerado pela opinião pública mero pretexto, interessante truque demagógico para conquistar as massas.

Provavelmente não existe aspecto da história contemporânea mais irritante e mais mistificador do que o fato de, entre tantas questões políticas vitais, ter cabido ao problema judaico a duvidosa honra de pôr em movimento toda uma máquina infernal. Tais discrepâncias entre a causa e o efeito constituem ultraje ao bom senso a tal ponto que as tentativas de explanar o antissemitismo parecem forjadas com o fito de salvar o equilíbrio mental dos que mantêm o senso de proporção e a esperança de conservar o juízo.

Uma dessas apressadas explicações identifica o antissemitismo com desenfreado nacionalismo e suas explosões de xenofobia. Os nazistas não eram meros nacionalistas. Sua propaganda nacionalista era dirigida aos simpatizantes e não aos membros convictos do partido. Os nazistas sentiam genuíno desprezo pela estreiteza do nacionalismo e pelo provincianismo do Estado-nação. Repetiram muitas vezes que seu movimento, de âmbito internacional era mais importante para eles do que o Estado, o qual necessariamente estaria limitado a um território específico.

O antissemitismo alcançou o seu clímax quando os judeus haviam perdido as funções públicas e a influência, e quando nada lhes restava senão sua riqueza. Quando Hitler subiu ao poder, os judeus na Alemanha declinavam tão rapidamente que os estatísticos prediziam o seu desaparecimento em poucas décadas. O mesmo é verdadeiro em quase todos os países da Europa ocidental.

Contudo, o declínio dos judeus na Europa ocidental e central explica tão pouco os eventos subsequentes como o fato de a aristocracia ter perdido o poder explicaria a REVOLUÇÃO FRANCESA. Conhecer essas regras gerais é importante, para que seja possível refutar as insinuações segundo as quais o ódio violento são necessariamente decorrentes do exercício de forte poder e de abusos cometidos pelos que constituem o alvo do ódio, e que, consequentemente, o ódio contra os judeus só pode ter surgido como reação contra sua importância e o seu poderio.

Mais séria parece outra argumentação: os judeus, por serem um grupo inteiramente impotente, ao serem envolvidos nos conflitos gerais e insolúveis da época, podiam facilmente ser acusados de responsabilidade por esses conflitos e apresentados como autores ocultos do mal.

A teoria que apresenta os judeus como eterno bode expiatório não significa que o bode expiatório poderia também ser qualquer outro grupo? Essa teoria defende a total inocência da vítima. Ela insinua que nada foi feito pela vítima que a relacionasse com o assunto em questão. Contudo, quem tenta explicar por que um determinado bode expiatório se adapta tão bem a tal papel abandona nesse momento a teoria e envolve-se na pesquisa histórica. E então o chamado bode expiatório deixa de ser a vítima inocente a quem o mundo culpa por todos os seus pecados e torna-se um grupo entre outros grupos, todos igualmente envolvidos nos problemas do mundo. O fato de ter sido ou estar sendo vítima da injustiça e da crueldade não elimina a sua corresponsabilidade.

Até há pouco, a falta de lógica aparente na formulação da teoria do bode expiatório bastava para descartá-la como escapista. Mas o surgimento do terror como importante arma dos governos aumentou-lhe a credibilidade. A diferença fundamental entre as ditaduras modernas e as tiranias do passado está no uso do terror como instrumento corriqueiro para governar as massas perfeitamente obedientes, não mais como meio de extermínio e amedrontamento dos oponentes. O terror, como o conhecemos hoje, ataca sem provocação preliminar, e suas vítimas são inocentes até mesmo do ponto de vista do perseguidor.

À primeira vista, isso pode parecer confirmação da teoria do bode expiatório. O terror, contudo, assume a simples forma do governo só no último estágio do seu desenvolvimento. O estabelecimento de um regime totalitário requer a apresentação do terror como instrumento necessário para a realização de uma ideologia específica, e essa ideologia deve obter a adesão de muitos, até mesmo da maioria, antes que o terror possa ser estabelecido. O que interessa ao historiador é que os judeus, antes de se tornarem as principais vítimas do terror moderno, constituíam o centro de interesse da ideologia nazista. Ora, uma ideologia que tem de persuadir e mobilizar as massas não pode escolher sua vítima arbitrariamente.

A explicação tipo bode expiatório escamoteia, portanto, a seriedade do antissemitismo e da importância das razões pelas quais os judeus foram atirados ao centro dos acontecimentos. Igualmente disseminada é a doutrina do “eterno antissemitismo”, na qual o ódio aos judeus se manifesta com maior ou menor virulência segundo o desenrolar da história. Assim, as explosões do antissemitismo parecem não requerer explicação especial, como consequências “naturais” de um problema eterno.

O aspecto mais surpreendente dessa premissa é o fato de haver sido adotada por muitos historiadores imparciais e até por um elevado número de judeus. Em ambos os casos, seu escapismo é evidente: como os antissemitas desejam fugir à responsabilidade dos seus feitos, também os judeus, atacados e na defensiva, ainda mais naturalmente recusam discutir a sua parcela de responsabilidade.

Para o historiador dos tempos modernos é especialmente importante ter cuidado com as opiniões geralmente aceitas, que dizem explicar tendências históricas, porque durante o último século foram elaboradas numerosas ideologias que pretendem ser as “chaves da história”, embora não passem de desesperados esforços de fugir à responsabilidade.

PLATÃO, em sua luta contra os sofistas, descobriu que a arte de encantar o espírito com argumentos nada tinha a ver com a verdade, mas só visava à conquista de opiniões, que são mutáveis por sua própria natureza e válidas somente na hora do e enquanto dure o acordo. Descobriu também que a verdade ocupa uma posição muito instável no mundo, pois as opiniões – isto é, “o que pode pensar a multidão”, decorrem antes da persuasão do que da verdade.

A simultaneidade entre o declínio do Estado-nação europeu e o crescimento de movimentos antissemitas, a coincidência entre a queda de uma Europa organizada em nações e o extermínio dos judeus, preparado pela vitória do antissemitismo sobre todos os outros ismos que competiam pela conquista da opinião pública, têm de ser interpretadas como sério elemento no estudo da origem do antissemitismo. Se no estágio final da desintegração os slogans antissemitas constituíam o meio mais eficaz de inspirar grandes massas para levá-las à expansão imperialista e à destruição das velhas formas de governo, então a história da relação entre os judeus e o Estado deve conter indicações elementares para entender a hostilidade entre certas camadas da sociedade e os judeus. Trataremos disso no capítulo seguinte.

Se, além disso, a contínua expansão da ralé moderna — isto é, dos dé-classés provenientes de todas as camadas — produziu líderes que repetidamente viram nos judeus a causa central de todos os males, então a história das relações entre os judeus e a sociedade deve conter indicações elementares para explicar a hostilidade entre a ralé e os judeus. Trataremos da relação entre os judeus e a sociedade no terceiro capítulo.

O quarto capítulo ocupa-se do CASO DREYFUS, que foi uma espécie de ensaio geral para o espetáculo do nosso próprio tempo. Analisamos o caso em todos os detalhes, dada a peculiar oportunidade que oferece de revelar as potencialidades do antissemitismo como importante arma política dentro da estrutura política do século XIX, e isto apesar da sua relativa sanidade.

Os três capítulos seguintes analisam, porém, apenas os elementos preparatórios, que chegaram ao estágio da completa realização quando a decadência do Estado-nação e o surgimento do imperialismo se destacaram concomitantemente no cenário político.

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Bibliografia: 

ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, 2011.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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