O Caminho da Servidão – O Caminho Abandonado

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Quando o curso da civilização toma um rumo inesperado, quando, ao invés do progresso contínuo, vemo-nos ameaçados por males que associamos à barbárie do passado, atribuímos a culpa a tudo, exceto a nós mesmos. Por mais que possamos discordar quanto à causa desta situação, todos estamos certos de uma coisa, ou pelo menos estávamos, até recentemente: as ideias que ao longo da geração passada foram seguidas pela maioria dos homens de boa vontade e determinaram grandes mudanças em nossa vida social não podiam estar erradas.

O aspecto crucial de que o nosso povo ainda tão pouco se apercebe, contudo, não é apenas a magnitude das transformações ocorridas durante a geração passada, mas o fato de que elas significam um completo desvio da evolução de nossas ideias e da ordem social. Durante pelo menos 25 anos antes de o espectro do totalitarismo se tornar uma ameaça real, fomos nos afastando progressivamente das ideias básicas sobre as quais se erguera a civilização ocidental. Fomos aos poucos abandonando aquela liberdade de ação econômica sem a qual a liberdade política e social jamais existiu no passado.

A tendência moderna ao socialismo não implica apenas um rompimento definitivo com o passado recente, mas com toda a evolução da civilização ocidental. Renunciamos progressivamente não só ao liberalismo dos séculos XVIII e XIX, mas ao individualismo essencial que herdamos de Erasmo e Montagne, de Cícero e Tácito, de Péricles e Tucídides. O individualismo tem hoje uma conotação negativa e passou a ser associado ao egoísmo. Mas o individualismo a que nos referimos tem como características essenciais o reconhecimento da supremacia de suas preferências e opiniões na esfera individual e a convicção de que é desejável que os indivíduos desenvolvam dotes e inclinações pessoais. “Liberdade” é agora uma palavra tão desgastada que devemos hesitar em empregá-la; talvez “tolerância” seja o único termo que ainda expresse o pleno significado do princípio que predominou durante esse período, e que desapareceu de todo com o advento do estado totalitário.

Durante todo o período moderno da história europeia, a tendência geral do desenvolvimento social era libertar o indivíduo das restrições que o mantinham sujeito a padrões determinados pelo costume ou pela autoridade no que dizia respeito a suas atividades ordinárias. A elaboração de uma tese de defesa da liberdade econômica resultou do livre desenvolvimento das atividades econômicas que tinham sido um subproduto imprevisto e não planejado da liberdade política.

O resultado mais importante da liberação das energias individuais foi o desenvolvimento da ciência. Só depois que a liberdade industrial permitiu a livre utilização dos novos conhecimentos, depois que se tornou possível qualquer experimentação, é que a ciência deu os grandes passos que nos últimos cento e cinquenta anos mudaram o mundo. A contribuição do século XIX ao individualismo do período precedente foi apenas trazer a todas as classes a consciência da liberdade, desenvolver sistemática e continuamente o que surgira de modo aleatório e fragmentário, e disseminá-lo da Inglaterra e Holanda para a maior parte do continente europeu.

Onde quer que fossem suprimidos os obstáculos ao livre exercício do engenho humano, o homem logo se tornava capaz de satisfazer o seu crescente número de desejos. Não poderemos fazer justiça a esse crescimento se o medirmos pelos padrões contemporâneos. O que tal progresso significou para os seus protagonistas deve ser avaliado pelas esperanças e os desejos que os homens tinham quando ele começou; e não cabe a menor dúvida de que seu êxito ultrapassou os sonhos mais ousados. Em princípios do século XX, o trabalhador do mundo ocidental havia alcançado um grau de conforto material, segurança e independência que pareceria impossível um século antes.

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Os princípios que haviam possibilitado esse avanço no passado começaram a ser considerados obstáculos à rapidez do progresso e não mais as condições para a preservação e o desenvolvimento do que já fora conquistado.

Nenhum espírito sensato teria duvidado de que as regras primitivas nas quais foram expressos os princípios da política econômica do século XIX eram apenas o começo, de que ainda tínhamos muito a aprender e de que havia ainda imensas possibilidades de progresso no caminho que vínhamos seguindo. Mas esse progresso só seria alcançado à medida que conquistássemos um crescente domínio intelectual das forças que teríamos de empregar.

Mas se, para aperfeiçoar-se de imediato, o liberalismo tinha de valer-se em grande parte do aumento gradual da riqueza trazida pela liberdade, precisaria por outro lado combater constantemente as propostas políticas antiliberais que ameaçavam esse avanço. O liberalismo veio a ser considerado uma filosofia gnegativah porque não podia oferecer a cada indivíduo mais do que uma participação no progresso comum. Pode-se mesmo dizer que o próprio sucesso do liberalismo tornou-se a causa do seu declínio. Devido ao êxito já alcançado, o homem se foi mostrando cada vez menos disposto a tolerar os males ainda existentes, que a essa altura lhe pareciam insuportáveis e desnecessários.

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A impaciência crescente em face do lento progresso da política liberal, a justa irritação com aqueles que empregavam a fraseologia liberal em defesa de privilégios antissociais, e a ilimitada ambição aparentemente justificada pela melhoria material já conquistada fizeram com que a crença nos princípios básicos do liberalismo fosse aos poucos abandonada. Os olhos do povo fixaram-se em novas reivindicações, cuja rápida satisfação parecia obstada pelo apego aos velhos princípios. Já não se tratava de ampliar ou melhorar o mecanismo existente, mas de descartá-lo e substituí-lo por outro. E à medida que as esperanças da nova geração se voltavam para algo inteiramente novo, a compreensão e o interesse pelo funcionamento da sociedade existente sofreram brusco declínio. Com esse declínio, declinou também a nossa consciência de tudo o que dependia da existência do sistema liberal.

Disso resultou um completo abandono da tradição individualista que criou a civilização ocidental. É significativo que essa mudança no rumo das ideias tenha coincidido com uma inversão da trajetória que elas vinham seguindo no espaço. Durante mais de duzentos anos, o pensamento inglês irradiou-se para leste. O regime de liberdade ao qual se chegara na Inglaterra parecia destinado a difundir-se por todo o mundo. Por volta de 1870, as ideias liberais haviam atingido provavelmente seu ponto máximo de expansão para leste. Nos sessenta anos seguintes, a Alemanha converteu-se no centro de onde as ideias destinadas a governar o mundo no século XX se propagaram para leste e oeste.

Embora a maioria das novas ideias, e em particular o socialismo, não se tivesse originado na Alemanha, foi na Alemanha que se aperfeiçoou e alcançou o seu mais completo desenvolvimento.A influência intelectual que os pensadores alemães exerceram baseava-se sobretudo no extraordinário prestígio que os cientistas e pensadores alemães haviam conquistado nos cem anos precedentes. Mas em breve essa influência serviria para difundir, a partir da Alemanha, ideias que visavam a abalar os alicerces dessa civilização. Os próprios alemães – ou pelo menos os divulgadores de tais ideias – tinham consciência do conflito: a herança comum da civilização europeia tornara-se para eles, muito antes do nazismo, a civilização “ocidental” – e a palavra “ocidental” significava o mundo a oeste do Reno. “Ocidental”, neste sentido, era sinônimo de liberalismo e democracia, capitalismo e individualismo, livre comércio e toda forma de internacionalismo ou amor à paz.

Mas apesar do desprezo mal disfarçado que um número crescente de alemães votava aos ideais “superficiais” do Ocidente, ou talvez por essa razão, os povos desse mesmo Ocidente continuaram importando ideias alemães. E foram induzidos a acreditar que suas convicções anteriores não passavam de pretextos para justificar interesses egoísticos, que o livre comércio era uma doutrina inventada para defender interesses ingleses, e que os ideais políticos que a Inglaterra legara ao mundo estavam irremediavelmente ultrapassados e constituíam motivo de vergonha.

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Bibliografia:

HAYEK, Friedrich August. O Caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

Veja aqui a íntegra do texto.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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