História Geral da África, I: Introdução Geral

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A história da África, como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita. E isso porque, até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela ignorância e pelo interesse.

I. POR QUÊ?

A história da África é pouco conhecida. Porém, há algumas décadas, milhares de pesquisadores vêm procurando resgatar porções inteiras da antiga fisionomia da África. Tornou-se importante que uma tomada de posição acima de qualquer suspeita fosse levada a cabo por equipes de pesquisadores africanos e não-africanos, sob os auspícios da UNESCO e sob a autoridade de um conselho científico internacional e de coordenadores africanos.

II. COMO?

Passemos agora à problemática questão do como, ou seja, da metodologia. É necessário evitar tanto a singularização excessiva da África quanto a tendência a alinhá-la demasiadamente segundo normas estrangeiras.

Na verdade, as dificuldades específicas da história da África podem ser constatadas já na observação das realidades da geografia física desse continente. Continente solitário, a África parece dar as costas para o resto do Velho Mundo, ao qual se encontra ligada apenas pelo frágil cordão umbilical do istmo de Suez. No sentido oposto, ela mergulha integralmente sua massa compacta na direção das águas austrais. A única passagem importante entre o Saara e os montes abissínios encontra-se obstruída pelos imensos pântanos de Bahr el-Ghazal. Ventos e correntes marítimas extremamente violentos montam guarda do Cabo Branco ao Cabo Verde. Entretanto, no interior do continente, três desertos encarregam-se de agravar o isolamento exterior por uma divisão interna. Ao sul, o Calaari. Ao centro, o “deserto verde” da floresta equatorial. Ao norte, o Saara. O isolamento foi um dos fatores-chave da lentidão do progresso da África em determinados setores. Ora, a própria vastidão desse continente, com uma população diluída e, portanto, facilmente itinerante, em meio a uma natureza ao mesmo tempo generosa (frutas, minerais, etc.) e cruel (endemias, epidemias), impediu que fosse atingido o limiar de concentração demográfica que tem sido quase sempre uma das precondições das mudanças qualitativas importantes no domínio econômico, social e político. Além disso, a severa punção demográfica da escravidão desde os tempos imemoriais e, sobretudo, após o comércio negreiro do século XV ao XX, contribuiu muito para privar a África do tônus humano e da estabilidade necessários a toda criação eminente, mesmo que seja no plano tecnológico. É indispensável retornar a essas condições fundamentais do processo evolutivo, para que seja possível colocar os problemas em termos objetivos e não sob a forma de mitos aberrantes como a inferioridade racial, o tribalismo congênito e a pretensa passividade histórica dos africanos.

  1. As fontes difíceis

No que concerne ao continente africano, é preciso reconhecer que o manuseio das fontes é particularmente difícil. Três fontes principais constituem os pilares do conhecimento histórico: os documentos escritos, a arqueologia e a tradição oral. Essas três fontes são apoiadas pela linguística e pela antropologia, que permitem matizar e aprofundar a interpretação dos dados.

As fontes escritas: quando não são raras, tais fontes se encontram mal distribuídas no tempo e no espaço. Do ponto de vista quantitativo, massas consideráveis de materiais escritos permanecem ainda inexploradas.

A arqueologia: a arqueologia, por suas prestigiosas descobertas, já deu uma contribuição valiosa à história africana, sobretudo quando não há crônica oral ou escrita disponível. Alguns objetos-testemunho são particularmente significativos como indicadores e medidas da civilização.

A tradição oral: paralelamente às duas primeiras fontes da história africana (documentos escritos e arqueologia), a tradição oral aparece como repositório e o vetor do capital de criações socioculturais acumuladas pelos povos ditos sem escrita: um verdadeiro museu vivo.

A linguística: os estudos linguísticos demonstram que as rotas e os caminhos das migrações, assim como a difusão de culturas materiais e espirituais, são marcados pela distribuição de palavras aparentadas.

A antropologia e a etnologia: O discurso etnológico tem sido, por força das circunstâncias, um discurso com premissas explicitamente discriminatórias e conclusões implicitamente políticas. Seu pressuposto era muitas vezes a evolução linear: à frente da caravana da humanidade ia a Europa, pioneira da civilização, e atrás os povos “primitivos” da Oceania, Amazônia e África. A etnologia recebeu procuração geral para ser o ministério da curiosidade europeia diante dos “nossos nativos”.

Ao mesmo tempo, pioneiros como Frobenius, Delafosse, Palmer, Evans Pritchard haviam trabalhado na descoberta de um fio histórico e de estruturas originais nas sociedades africanas com ou sem Estado. A abordagem marxista e a abordagem estruturalista de Lévi -Strauss contribuem também com observações válidas, mas opostas, sobre a evolução dos povos ditos sem escrita. O método marxista insiste muito mais nas forças produtivas e nas relações de produção, na práxis e nas normas; o método estruturalista, por sua vez, quer desvendar os mecanismos inconscientes, mas lógicos, que sustentam e enquadram a ação dos espíritos e das sociedades. Bebendo nessas novas fontes, a antropologia será, esperamos, algo mais que uma Fênix que, em defesa da causa, haja renascido das cinzas de um certo tipo de etnologia.

Dessa forma, as principais fontes da história da África mencionadas acima, não podem ser classificadas a priori de acordo com uma escala de valores que privilegie permanentemente uma ou outra. Toma-se necessário julgar caso por caso.

  1. Os quatro grandes princípios

Quatro princípios devem nortear a pesquisa, se se quer levar adiante a frente pioneira da historiografia da África.

1 A interdisciplinaridade, cuja importância é tal que chega quase a constituir por si só uma fonte específica. Essa combinação de fontes impõe-se ainda mais quando se trata de minorar as dificuldades relativas à cronologia. Não é sempre que dispomos de datas determinadas pelo carbono. E quando existem, estas devem ser interpretadas e confrontadas com dados de outras fontes, como a metalurgia ou a cerâmica (materiais e estilos).

2 Essa história deve ser vista a partir do polo africano, e não medida permanentemente por padrões de valores estrangeiros. As conexões históricas da África com os outros continentes do Velho e do Novo Mundo serão analisadas em termos de intercâmbios recíprocos e de influências multilaterais.

3 Essa história é obrigatoriamente a história dos povos africanos em seu conjunto, pois na África mesmo o despotismo de certas dinastias tem sido sempre atenuado pela distância e pela ausência de meios técnicos que agravem o peso da centralização. É uma história dos povos porque a posição territorial dos povos africanos ultrapassa as fronteiras herdadas da partilha colonial.

4 Além do mais, esta história deverá evitar ser excessivamente fatual, pois com isso correria o risco de destacar em demasia as influências e os fatores externos. Serão tratadas com especial interesse as civilizações, as instituições, as estruturas: técnicas agrárias e de metalurgia, artes e artesanato, circuitos comerciais, formas de conceber e organizar o poder, cultos e modos de pensamento filosófico ou religioso, técnicas de modernização, o problema das nações e pré-nações, etc. Esta opção metodológica requer, com mais vigor ainda, a abordagem interdisciplinar.

Finalmente, por que esse retorno às fontes africanas? A história da África é necessária à compreensão da história universal, da qual muitas passagens permanecerão enigmas obscuros enquanto o horizonte do continente africano não tiver sido iluminado. Mas esta história é ainda mais necessária aos próprios povos para os quais ela constitui um direito fundamental.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

Ki-Zerbo, Joseph. Introdução Geral. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed– Brasília : UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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