O Abolicionismo – O Partido Abolicionista

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O sentido em que é geralmente empregada a expressão partido abolicionista não corresponde ao que se entende pela palavra partido. A esse respeito algumas explicações são necessárias.

Não há dúvida de que já existe um núcleo de pessoas identificadas com o movimento abolicionista, que sentem dificuldade em continuar filiadas nos partidos existentes, por causa das suas idéias. Sob a bandeira da abolição, combatem hoje liberais, conservadores, republicanos, sem outro compromisso senão o de subordinarem a rejeição partidária à consciência humana.

Não se pode todavia chamar partido à corrente de opinião, ainda não encaminhada para seu destino, a cuja expansão assistimos. Entende-se por partido uma opinião organizada para chegar aos seus fins: o abolicionismo é por hora, uma agitação. No Partido Liberal a corrente conseguiu, pelo menos, pôr a descoberto os alicerces mentirosos do liberalismo entre nós. Quanto ao Partido Conservador, devemos esperar a prova da passagem pelo poder para sabermos que ação o abolicionismo exercerá sobre ele. Restam os republicanos.

O abolicionismo afetou esse partido de um modo profundo. Foi a lei de 28 de setembro e a idéia de que o imperador era o chefe do movimento contra a escravidão, que de repente engrossou as fileiras republicanas com uma leva de voluntários saídos de onde menos se imaginava. Como era natural, o abolicionismo, depois de muitas hesitações, impôs-se ao espírito de grande número de republicanos como uma obrigação maior do que a de mudar a forma do governo com o auxílio de proprietários de homens.

Supondo que a República seja a forma natural da democracia, o dever de elevar os escravos a homens precede a toda arquitetura democrática. A teoria inventada de que pertence à Monarquia acabar com a escravidãoe que o Partido Republicano nada tem com isso, uma forma para contornar a dificuldade sem a resolver, lançou, para muitos que se haviam alistado nas fileiras da República, um clarão sinistro sobre a aliança contraída em 1871.

É, com efeito, difícil hoje a um liberal ou conservador (e muito mais para um republicano) fazer parte homogênea de organizações em cujo credo a mesma natureza humana pode servir para base da democracia e da escravidão; conferir a um indivíduo, ao mesmo tempo, o direito de tomar parte no governo do país e o de manter outros indivíduos em subserviência forçada, durante toda a vida.

É por isso que o abolicionismo desagrega dessas organizações os que as procuram por causa daqueles nomes históricos, segundo as suas convicções individuais. Todos os três partidos baseiam as sua aspirações políticas sobre um estado social cujo nivelamento não os afeta; o abolicionismo, pelo contrário, começa pelo princípio, e, antes de discutir qual o melhor modo para um povo ser livre de governar-se a si mesmo, trata de tornar livre a esse povo, aterrando o imenso abismo que separa as duas castas sociais em que ele se extrema.

Nesse sentido, o abolicionismo deveria ser o alfabeto da nossa política, e não o é; por um curioso anacronismo, houve um partido republicano muito anos antes de existir uma opinião abolicionista, e daí a principal razão porque essa política é uma Babel na qual ninguém se entende. Qual será, porem, o resultado da desagregação inevitável?

Assim aconteceu nos Estados Unidos. onde o atual Partido Republicano, ao surgir na cena política, teve que estabelecer o novo regime de liberdade e da igualdade em Estados que queriam formar a maior potência escravocrata do mundo. É natural que isso aconteça no Brasil; mas é possível também que o abolicionismo venha a reunir os elementos progressistas numa aliança política limitada a certo fim; ou que venha mesmo a decompor, e reconstituir diversamente os partidos existentes, sem, todavia, formar um partido único e homogêneo.

O advento do abolicionismo coincidiu com a eleição direta, e sobretudo com a aparição de uma força, a qual se está solidificando em torno da imprensa, força que é a opinião pública. Todos esses elementos devem ser tomados em consideração quando se quer saber como o abolicionismo há de, por fim, constituir-se.

Neste livro, entretanto, a expressão partido abolicionista significará somente o movimento abolicionista, a corrente de opinião que se está desenvolvendo do Norte ao Sul.. Nenhuma opinião remotamente distante do governo pode ostentar o pessoal numeroso dos dois partidos que se alternam no exercício do patronado. Isso mesmo caracteriza a diferença entre o abolicionismo e os dois partidos constitucionais: o poder destes é, praticamente, o poder da escravidão toda, como instituição privada e como instituição política; o daquele é o poder tão somente das forças que começam a rebelar-se contra semelhante monopólio – da terra, do capital e do trabalho – que faz da escravidão um estado no Estado, cem vezes mais forte do que a própria nação.

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Bibliografia

NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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