Lévi-Strauss: Vida e Obra (Os Pensadores)

COMPARTILHE:
Share

O termo “estrutura” se tornou a noção central de várias correntes do pensamento. Ele passou a ser empregado na biologia, quando Fontenelle o usou ao se referir sobre a disposição dos órgãos; na linguística, por Vaugelas, sobre a distribuição das palavras na oração. Mas é Ferdinand Saussure que elaborou a essência da concepção estrutural com a noção de “sistema”. Para ele, a língua é um sistema no qual o valor de um termo resulta da presença simultânea de outros. Além disso, as partes do sistema devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica, isto é, em um dado momento do tempo, não em sua evolução histórica. A partir daí, o estruturalismo estendeu-se a todos os domínios das ciências humanas. Papel importante nesse sentido teve Claude Lévi-Strauss, nascido na Bélgica, em 1908.

Nos Tristes Trópicos

Lévi-Strauss, formado em Filosofia, iniciou sua vida profissional como antropólogo quando fez parte da missão francesa que auxiliou o governo de São Paulo (Brasil) a fundar sua universidade em 1934. Volta à França e serve ao exército nos dois primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Em 1941, passa a lecionar nos Estados Unidos. Em 1948 Lévi-Strauss volta à Universidade de Paris, na França. No ano seguinte, publica “Estruturas Elementares do Parentesco”, onde fez uma primeira tentativa de aplicação do método estruturalista aos problemas antropológicos. Em 1962, saem O Totemismo Hoje e O Pensamento Selvagem. Nessas obras, o autor procura mostrar o processo lógico que opera com as categorias do sensível e como esse tipo de pensamento se encontra entre povos primitivos e na vida cotidiana do homem civilizado. Suas obras posteriores ocupam-se do funcionamento dessa estrutura de pensamento através da análise comparativa dos mitos: O Cru e o Cozido (1964), Do Mel às Cinzas (1966), As Origens da Etiqueta à Mesa (1968), e O Homem Nu (1971).

Que é Estrutura?

O estruturalismo opõe-se ao empirismo, para quem o objeto tem significado por si só. Para o estruturalismo, um fato isolado não possui significado. Lévi-Strauss exemplifica com os vocábulos fromage, cheese, queijo que, a princípio, se referem à mesma realidade. Mas para o francês, fromage indica um gosto picante; para o inglês, cheese quase não tem gosto e para o brasileiro queijo dá a ideia de um gosto salgado. Esse é o caráter relativo dos elementos da estrutura.

Para Lévi-Strauss, a estrutura é um sistema de relações que compõe a sociedade. A noção de estrutura social se refere aos modelos construídos a partir da realidade. Esses modelos podem ser conscientes ou inconscientes. Essa diferença influi na hora de apreender a estrutura profunda. Quanto mais nítida é a estrutura aparente, mais difícil é apreender a estrutura profunda, por causa dos modelos conscientes que estabelecem uma distância entre observador e objeto em uma investigação etnológica. Essa distância garante a objetividade ao impedir que preconcepções reduzam o objeto e, ao mesmo tempo, permite uma comunicação, pois, se a estranheza entre o observador e seu objeto é total, então objeto se torna refratário à investigação. Assim, a objetividade não é apenas distância, mas também uma reciprocidade entre observador e observado.

Um Novo Idealismo?

Lévi-Strauss encontrou uma identidade entre as leis do mundo e as do pensamento. Com os mitos ocorreria o mesmo que com a linguagem: o sujeito que aplicasse conscientemente as leis fonológicas e gramaticais no discurso acabaria perdendo o fio as ideias. Do mesmo modo, o exercício do pensamento mítico exige que suas propriedades permaneçam escondidas. A análise dos mitos, assim, não pretende mostrar como os homens pensam, mas como os mitos se pensam nos homens.

Coisas e Relações

O caráter abstrato das pesquisas estruturais e o caráter individualizado da observação etnográfica correspondem a duas etapas da pesquisa. No nível da observação, a regra diz que todos os fatos devem ser descritos e estruturados em si mesmos. Já a análise estrutural vai descrever redes de relações que terão prioridade em relação aos termos.

Os Modelos

O modelo é essencial para a compreensão da realidade etnográfica. Lévi-Strauss introduz uma distinção entre os modelos que se dá em função do valor que é dado a cada elemento da estrutura. Nesse sentido, a estrutura é apenas um sistema de relações, não um conjunto de elementos. Por isso a investigação antropológica se apoia na relação recíproca dos elementos, pois os elementos podem variar, mas a relação é constante. A estrutura apresenta um caráter abstrato e, por isso, o modelo torna-se aplicável a qualquer ordem de fenômenos e passa a se caracterizar por sua transponibilidade (ou tradutibilidade) de fenômenos para outra. Do ponto de vista metodológico, é assim, possível uma relação interdisciplinar entre as ciências.

O Incesto

Ao examinar grupos culturais da América Tropical, Lévi-Strauss busca elucidar a proibição do incesto. A proibição torna possível a coexistência ao levar um individuo a reivindicar uma mulher de outra família – relação exogâmica, que seria o núcleo originário de todas as formas de intercâmbio. Por ser universal, a proibição do incesto está ligada à natureza, e, por ser uma regra, liga-se à cultura. A origem da proibição não está nem na natureza nem na cultura; a origem é a passagem da natureza à cultura.

Lévi-Strauss distingue três níveis da comunicação social: comunicação de mensagens (como a linguagem); comunicação de mulheres (formas de organização de parentesco e de intercâmbio matrimonial); e comunicação de bens (a economia). Esses sistemas são regidos por regras inconscientes. Elas pertencem a um nível onde a subjetividade passa a ser ativa em função do seu relacionamento com o outro. O objetivo da Etnologia é trazer à luz as leis universais que ligam o sujeito com sujeito e sociedade com sociedade. Por exemplo, a fonologia ressaltou a necessidade de se passar de estudo dos fenômenos conscientes da linguagem ao dos inconscientes e a necessidade de descobrir o conjunto de leis universais da comunicação linguística.

O Pensamento Primitivo

Em 1955, Lévi-Strauss publicou Tristes Tópicos, onde relata a distância social que separa o antropólogo, representante da sociedade ocidental, e as sociedades primitivas. O antropólogo deve, visando eliminar essa distância, reduzir a sociedade primitiva e a civilizada a um modelo único, para explicar com os mesmos modelos os mais diferentes fenômenos. Constrói-se assim, uma verdade da razão à falta de uma verdade de fato.

Ao antropólogo convém afastar o fantasma da “mentalidade primitiva”. O pensamento dos povos primitivos oferece a imagem de um pensamento concreto que ainda não produziu as distinções entre objetivo e subjetivo e entre qualidades primárias e secundárias. Seria o próprio pensamento civilizado em seu caráter originário.

Contribua com o Resumo da Obra

Bibliografia:

LÉVI-STRAUSS, Claude. Vida e obra. São Paulo: Abril Cultural (Col. Os Pensadores), 1980.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

More Posts

Follow Me:
Twitter

Desabafos

2 thoughts on “Lévi-Strauss: Vida e Obra (Os Pensadores)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.