Marighella: O Guerrilheiro que Mudou o Mundo – Bicão Siderúrgico

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Revolucionários não eram passageiros estranhos ao Almirante Alexandrino. O navio conduzia-os entre portos nacionais e levava alguns para a Europa. Em 1936, o governo GETÚLIO VARGAS expulsara duas dezenas de estrangeiros do Brazkor, organização político-assistencial da comunidade judaica vinculada aos comunistas.

O destino de Marighella foi uma ilha do Atlântico na qual desterrados eram comuns à paisagem. No século XVIII, tinham sido enviados para Fernando de Noronha os ciganos que as autoridades perseguiam por vadiagem. No século XIX, desembarcaram os conjurados alfaiates da Bahia, capoeiristas reprimidos como desordeiros e o líder farroupilha Bento Gonçalves.

Quem mandava lá em 1940 era um veterano da COLUNA PRESTES, o coronel gaúcho Nestor Verissimo da Fonseca, que só abandonara a marcha de Prestes depois de colecionar 27 ferimentos. Dirigia o presídio político, instalado em 1938, sob controle da União. Os presos antifascistas já haviam feito um acordo com o diretor quando o Almirante Alexandrino carregou os novos hóspedes à terra firme: em troca do direito de administrar suas vidas e andar livremente, comprometiam-se a não fugir.

Sem considerar os minoritários presos comuns mantidos para prestar serviços à administração, os condenados se apartavam em dois grupos: por volta de noventa integralistas, que se acomodavam num prédio, e 180 militantes de esquerda, quase todos da extinta ANL, com hegemonia comunista, que se acomodavam no alojamento maior, em duas edificações médias e em casas nas quais cabia meia dúzia de pessoas. Em uma delas, dormia Marighella.

Um mutirão levantou mais duas construções: uma que servia como dispensa e uma para sede do Grêmio Atlético Brasil, o clube desportivo que os aliancistas fundaram. Vôlei era o esporte do gosto do tenente José Guttman e do sargento Gregório Bezerra. Nenhum dos dois jogava futebol, a modalidade que empolgava Marighella,  atuava de pés descalços. Seus chutes impressionavam pela potência. Como dera uma palestra sobre siderurgia, apelidaram-no de Bicão Siderúrgico.

Os integralistas inauguraram um tablado, designado como “Teatro Tupã, a voz nacional”. Para contrastar, os aliancistas improvisaram seu “Teatro de Brinquedo”. Nele se encenavam peças de autores brasileiros e esquetes sobre a agenda política do momento, em especial a guerra na Europa.

A diferença em Fernando de Noronha ia além da inexistência de uniforme de presidiário: como exerciam uma espécie de autogestão, os militantes da ANL se impunham o padrão que antes pleiteavam. Do desjejum ao jantar, preparavam as próprias refeições. Enquanto os integralistas se contentavam com a gororoba servida pela administração, os rivais estabeleceram uma linha de produção que começava na horta e terminava no refeitório.

Construíram uma caixa-d’água para a lavoura não sucumbir no período de seca. Plantavam de alface, cenoura, pimentão e rabanete a uma infinidade de temperos. A horta derrubou a incidência de escorbuto. Para complementar a ingestão de proteínas, empreenderam um aviário. De um ovo por mês, a ração passou a um por dia e o galeto quinzenal virou semanal. A pesca proveu mais proteínas. Marighella não era somente um glutão ávido por peixes, mas pescador.

Depois da temporada na horta, ele se mudou para a cozinha. Gregório e um camarada cozinheiro de profissão ensinavam culinária e distribuíam as tarefas para Marighella e o tenente Benedito de Carvalho. Poucos camaradas eram tão admirados e queridos como ele. Pois foi Gregório quem abriu uma crise um ano depois da chegada de Marighella.

Condenado a 27 anos e meio de prisão, Gregório planejou sua fuga à revelia do compromisso com Nestor Verissimo. Construiu por seis meses uma jangada com seu conterrâneo pernambucano conhecido como Aço. O sonho durou duzentos metros, até uma onda emborcar a jangada.

Afora dois amigos que ajudaram na construção da jangada, não houve quem não recriminasse a dupla que descumpriu a promessa de não fugir. O trunfo dos presos de esquerda era o seu coletivo, o partido-sindicato que os congregava, representava e coordenava suas atividades na cadeia. Os integralistas negociavam individualmente com a administração; era a sua fraqueza. O coletivo falava pelo conjunto dos aliancistas; era o seu poder. Se tivessem tido êxito, Gregório e Aço exporiam os companheiros à retaliação. Aparentemente, o coronel Veríssimo não soube da tentativa de fuga.

Na noite de 22 de junho de 1941, Gregório Bezerra saiu desesperado pelos alojamentos anunciando a tragédia que acabara de escutar no rádio: as tropas nazistas tinham invadido a União Soviética. Enquanto os aliancistas abriam o mapa da Europa, ouviam a algazarra a poucos metros: os integralistas celebravam o que acreditavam ser os dias contados do Estado socialista. Era difícil apostar no Exército Vermelho ante a voracidade nazista. A maioria dos seus comandantes fora passada em armas nos expurgos de Stálin. Em setembro de 1941, Kiev foi ocupada e Leningrado, sitiada. Em outubro, a Wehrmacht acampou a cinquenta quilômetros de Moscou.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL foi batizada na União Soviética como Grande Guerra Patriótica. A rendição dos soviéticos daria a Hitler sua maior conquista e lhe permitiria concentrar fogo no Oeste. O mundo olhava para Moscou com aflição e esperança.

O novo cenário uniu Moscou, Londres e Washington — os americanos entraram na guerra depois do ataque japonês a Pearl Harbour, em dezembro de 1941. Nos marcos do pan-americanismo, uma agressão a um Estado do continente era considerada agressão contra todos. Em 28 de janeiro de 1942, o ditador quis ou se viu obrigado a romper as relações do Brasil com o Eixo Roma-Berlim-Tóquio. Na aproximação com os Estados Unidos, Getúlio Vargas barganhara o apoio à instalação de indústrias estratégicas. Washington requisitou áreas para instalar bases militares, e o Brasil cedeu-as a partir de 1941.

Como Fernando de Noronha abrigaria tropas da Marinha aliada, o governo decidiu transferir os presos políticos para a Ilha Grande, no litoral do estado do Rio de Janeiro. A Alemanha reagiu à ruptura torpedeando: em meados de fevereiro de 1942, os navios mercantes Buarque e Olinda, ambos de bandeira brasileira, foram afundados pelo submarino U-432 na costa norte-americana. Por aqueles dias, o vapor Comandante Ripper ancorou na baía de Santo Antônio, em Fernando de Noronha. Aliancistas e integralistas embarcaram na terceira classe.

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Bibliografia:

MAGALHÃES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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