Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo – Prólogo

COMPARTILHE:
Share

CARLOS MARIGHELLA viu a zeladora do prédio onde morava caminhando em sua direção e pensou que, outra vez, conseguira ludibriar a polícia. Valdelice carregava um embrulho cor-de-rosa. Enfim, ele resolveria o problema da falta de roupa que o apoquentava havia mais de um mês. Na noite de 1° de abril, saíra às carreiras do quarto e sala que alugava no bairro do Catete. Temia ser surpreendido pela polícia política do estado da Guanabara, que talvez já preparasse o bote para capturá-lo.

A temperatura aumentou quando Marighella notou um homem que vigiava Valdelice. Comprou dois ingressos na bilheteria do Eskye-Tijuca, o cinema em frente ao qual marcara com a zeladora. Fez-lhe um sinal, e entraram sem dar ao intruso a chance de se chegar. Recebeu o embrulho e sentou-se numa poltrona central, ao fundo. Mesmo na escuridão, viu que crianças tomavam a matinê.

Antes de o dia amanhecer um gari se avizinhou do prédio 131 da rua Corrêa Dutra, no Catete. Limpar, o gari não limpava. João Barreto de Macedo vendia remédios, mas tonificava a saúde do bolso com o ofício de caçador de subversivos. Não era funcionário público, e sim colaborador da polícia, que o recompensava pelo trabalho como espião e alcaguete. João Macedo jamais cruzara com seu alvo, mas sabia quem procurava. Nunca simpatizara com os comunistas. Tinha a quem puxar na aversão ao comunismo: o diretor do Dops, CECIL DE MACEDO BORER. O Macedo comum os unia. Preferiam que ninguém soubesse do parentesco e, se soubesse, calasse.

Para montar a Polícia Especial, o governo de GETÚLIO VARGAS garimpara atletas parrudos em academias e clubes esportivos. O fortão Borer arremessava peso e disco no Fluminense, agremiação rival do Botafogo que seu irmão Charles viria a presidir. Foi recrutado. Borer formou na equipe que em 1936 varejou o Rio até agarrar os comunistas LUIZ CARLOS PRESTES e OLGA BENARIO nos arredores do Méier, onde agora Marighella se escondia. A primeira prisão do jovem esquerdista CARLOS LACERDA fora de autoria de Borer. Dali a décadas, Lacerda se elegeria governador da Guanabara. Já na pele de inimigo figadal dos correligionários de outrora, convocou o ex-algoz.

Quem diria, doutor Borer, nós dois juntosh, ironizou Lacerda.

Não fui eu quem mudou, governador. Continuo na polícia.h

Borer odiava Marighella e era desprezado pelo antagonista. O diretor do Dops destacou quem mais confiava para espreitar o prédio do Catete. O morador do apartamento 704 não apareceu, mas João Macedo perseverou. Soube que a zeladora guardava correspondência para Marighella e passou a campaná-la. Às seis horas do sábado a mulher saiu. Circulou pelo bairro e voltou para casa sem reparar na onipresença de um gari. João Macedo quase desistiu. Tirou o uniforme. Por volta das quatro da tarde, Valdelice de Almeida Santana partiu com o embrulho.

Em atividade febril, na qual era raro um descanso, Marighella se expunha aos arapongas. A maioria dos seus confrades do Comitê Central do PCB privilegiavam a segurança, sem os riscos decorrentes das articulações políticas. Marighella ousava, nos esforços de recomposição da militância dispersa. Para isso, precisava conversar e circular. Questionava: como combater a ditadura trancado em casa? A despeito do perigo, Marighella deu um jeito de combinar com a zeladora para o sábado. Era o dia 9 de maio de 1964, um mês após o ato institucional com o primeiro pacote de cassações de direitos políticos.

No escuro do cinema, sentou-se para planejar a fuga. Tinha que pensar rápido. Até que a projeção foi interrompida, e as luzes se acenderam. Mais de dez policiais enviados por Cecil Borer bloqueiam as saídas e adentram no salão. Sabem que crianças dominam o ambiente.

De pé, por trás e pela direita de Marighella, um policial ordena-lhe que o acompanhe. Outro cerca-o por trás, pela esquerda. À sua frente, o terceiro mostra a carteira com as iniciais do Dops. O quarto, ao lado do que dá a carteirada, aponta o revólver calibre 38. Marighella pensa que vai morrer e grita: “Matem, bandidos! Abaixo a ditadura militar fascista! Viva a democracia! Viva o Partido Comunista!”

Não terminou, quando o agente dispara à queima-roupa. Ferido no peito, Marighella acerta um golpe que joga longe a arma. Os policiais o chutam e esmurram, ele retribui as agressões. O tiro foi um, mas o sangue escorre por três perfurações. A bala entrou no tórax, saiu pela axila e se alojou no braço esquerdo. Marighella continua a lutar. Dominado, Marighella é puxado pelos policiais para fora do cinema. O fotógrafo do Correio da Manhã, que passeava com a filha, logra fazer algumas chapas, tremidas. Valdelice é presa.

Quase na calçada, Marighella reconhece a camionete do Dops. Empurrado, apoia as pernas no teto da viatura e não entra. Leva mais pontapés e socos. Já são catorze homens contra um. Ao cair, pisoteiam-no, e o corpo avermelha a calçada. Transeuntes protestam. Marighella só para quando lhe acertam uma pancada na cabeça e ele desmaia. Chega apagado ao Hospital Souza Aguiar. Com Marighella ainda desmaiado, algemaram-no e o amarraram à maca. Já na noite de sábado, as rádios trombetearam a operação policial no cinema tijucano.

Na segunda-feira, Marighella presenciou o bate-boca entre médicos e policiais. A equipe do hospital resistiu à determinação para que o paciente fosse transferido de imediato. Seria imprudência mandá-lo para a penitenciária Lemos de Brito, a menos de dois quilômetros dali. De nada adiantaram os argumentos. Pouco mais de quarenta horas depois de dar entrada no Souza Aguiar com a vida em jogo, Marighella foi levado de ambulância.

Sem ordem judicial para encarcerá-lo, não poderia ser considerado prisioneiro. Foi registrado em “regime de depósito”. No cubículo, continuou proibido de receber visitantes e de apelar a advogado. Não foi requisitado para depoimento ou audiência, gostaria de saber do que o acusavam. No inquérito a que não teve acesso, a resposta era um branco: formalmente, de nada. Ignorava o que ia pelo mundo, porque também vetaram jornais.

A Última Hora condenou, no editorial “Show sanguinário”, a remoção para a Lemos de Brito. Ao descrever os procedimentos no cinema, o Correio da Manhã falou de “crueldade” e “imbecilidade”. As redações botaram as tropas em campo para apurar o caso do cinema. O furo de maior repercussão foi a fotografia de Marighella carregado por dois policiais. Com base nela, o matutino CORREIO DA MANHÃ qualificou de “falsa e tola” a versão do coronel Gustavo Borges, secretário de Segurança da Guanabara. O coronel e seus subordinados do Dops alegaram que a arma era de Marighella, que ele tinha se ferido sozinho, e um único policial o detivera.

Já era junho, dia 5, quando o mandaram se aprontar, pois o Dops o convocava. Encerrado o depoimento, voltou para o cubículo, onde vegetou por mais vinte dias. Retornou ao Dops sem saber por quê. Ao chegar, policiais de São Paulo retiraram dezenove cadernetas de uma pasta de couro amarelo. As anotações tinham a letra inconfundível de Luiz Carlos Prestes. Foragido desde o golpe, o secretário-geral do PCB deixara em sua casa apontamentos sobre o cotidiano do partido. Citava Marighella 133 vezes. Provocado sobre os blocos espirais que tinha diante de si, Marighella os reconheceu, porém desconversou: “Não conheço; nada a declarar”.

Na saída não foi reconduzido à Lemos de Brito. Ficaria no DOPS. Dado o vento úmido e gelado que entrava pelas barras de ferro da porta do xadrez, Marighella tossia e sentia os pulmões fracos. A comida causava disenteria. Quis voltar para a penitenciária, mas lhe disseram não. No fim da tarde de 2 de julho, avisaram-no que se preparasse para pegar a estrada. Seu destino seria o DOPS de São Paulo. A temperatura despencara para os doze graus. No portão, encontrou a camionete cinza com faixa amarela.

Pelas frestas, espiou a via Dutra. Os policiais da escolta lhe atiraram uma japona para afugentar o frio. A cada buraco, a cabeça batia no teto baixo. Ao protegê-la com as mãos, largava o banco de ferro e se desequilibrava. Sacolejando, identificou-se com uma fruta no liquidificador. As feridas doíam como agulhadas. Com o balanço, os vômitos se sucediam. A madrugada estava longe do fim quando Carlos Marighella se sentiu numa nave a viajar pela estratosfera. Lembrou-se do cosmonauta pioneiro do espaço. E sonhou, acordado, que era YURI GAGÁRIN.

Contribua com o Resumo da Obra

Bibliografia:

MAGALHÃES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

More Posts

Follow Me:
Twitter

Desabafos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.