Marighella: O Guerrilheiro que Mudou o Mundo – Três Semanas no Inferno

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Marighella ignorava os planos para a madrugada de 27 de novembro de 1935 (INTENTONA COMUNISTA), não conspirou para o levante e torceu pelos revoltosos. Os enviados da INTERNACIONAL COMUNISTA e o comando partidário restringiram a insurreição aos militares. Mas a tormenta se abateria sobre todos os antigetulistas de esquerda. O presidente da República pretextou os eventos do Nordeste para pedir ao Congresso autorização para o estado de sítio, sufocando as liberdades e expandindo a repressão. Em meados de 1936, o PCB estimou em 15 mil os encarcerados por motivos políticos. O chefe de polícia, Filinto Strubing Müller, apresentou, em julho de 1937, as estatísticas falando de 7056 somente na capital.

Prestes e Olga escaparam por um triz da incursão da polícia à casa da rua Barão da Torre. Os tiras os perderam, mas ganharam uma documentação formidável sobre a revolta, que o inquilino deixou intacta em um cofre. A caçada implacável fez os membros do Secretariado Nacional do PCB fugirem para Recife e Salvador.

Se a cúpula se precaveu e sumiu, quem permaneceu ficou com o trabalho dela e dos companheiros detidos. De uma hora para outra, numa cidade estranha, Marighella passou a gerenciar a produção gráfica (panfletos, folhetos, cartazes) do núcleo central do PCB. Apanhava dinheiro para manter a engrenagem, pagava as despesas e gastava as migalhas restantes com a manutenção dos camaradas dedicados em tempo integral ao partido. Ele também se transformara em revolucionário profissional.

Meses antes, Marighella passara a dormir em outro local, próximo à rua Bella, mantendo as duas residências. Alugou a sala do sobrado da rua Senador Alencar, 115. O esquema de elaboração da “Dona Claudina”, como se referia ao jornal do PCB A Classe Operária, não passava por ele, que a distribuía. O destaque da edição de abril foi a convocação para o Primeiro de Maio como jornada de luta pela liberdade dos presos políticos e as reivindicações populares. Marighella espalhou um panfleto que mobilizava pela “grande data do proletariado”.

No Dia do Trabalhador, Marighella dobrou à direita na rua do Riachuelo, no bairro boêmio da Lapa, e subiu a ladeira do Castro rumo a Santa Teresa. Não imaginava que, ao contrário do combinado, não seria recebido pelo morador da casa 71, com quem trataria de protestos naquele dia. O prático de farmácia Taciano José Fernandes fora preso às duas e meia da madrugada. Marighella se deparou com policiais que voaram em sua direção. Reagiu, mas o agarraram, empurraram-no para dentro de um carro na rua do Riachuelo e aceleraram para a Polícia Central, na rua da Relação.

Mal desceram, deram-lhe as boas-vindas esmurrando-o no rosto, no peito e nas costas. Arrastaram-no até o chefe de Segurança Social, Serafim Braga, que mandou retomar a pancadaria. Insistiram em informações sobre o destino da correspondência. Sem respostas, cinco sessões de espancamento depois, encaminharam o comunista renitente a uma sala exclusiva para tortura. Marighella suportara mais de doze horas a ocultar os pontos de encontro daquele dia. Seu silêncio salvou companheiros, e os policiais se vingaram. Já era noite quando cruzaram o portão do temido quartel do morro de Santo Antônio.

Marighella foi jogado para fora do carro e se defrontou com uma roda de agentes: o investigador José Torres Galvão (que capturou Olga e Prestes), Francisco Menezes Julien (ligado à embaixada alemã nazista) e o tenente Eusébio de Queiroz. Os três eram da Polícia Especial. Com os colegas da polícia política, Galvão, Julien e Queiroz cobriram o preso de murros e pontapés. Enquanto exigiam confissões, comprimiram seus testículos. A cada curiosidade não saciada, apertaram com mais força. À dor sobreveio a sensação de perda dos sentidos e exaustão dos pulmões. Marighella acordou na enfermaria com um curativo no supercílio. O dia nascera quando o removeram para a rua da Relação.

Chegou apanhando. O capitão Affonso Henrique de Miranda Corrêa, delegado especial de Segurança Política, recebera no dia da prisão a papelada descoberta na rua Senador Alencar. Marighella os despistou e pagou por isso. Puniram-no com novo espancamento. De volta à Polícia Especial, na quarta-feira, reencontrou socos, pontapés e cassetetes.

Não houve um só dia em que não batessem em Marighella, com ou sem depoimentos formais. Três semanas depois de 1º de maio, ele queria que sua condição de prisioneiro se tornasse pública. Só assim teria certeza de que seu fim não seria igual ao do americano Victor Allen Baron, operador de rádio enviado pelo Komintern. Destroçado pelas torturas, Baron havia caído do terceiro andar do prédio da rua da Relação. A polícia alegara suicídio. Talvez o tenham empurrado vivo ou já o houvessem assassinado antes.

Temerosa de que Marighella se valesse do acesso aos repórteres para denunciar o que sofrera, a polícia o manteve à distância. Na manhã de sábado, anunciou a captura e distribuiu uma fotografia sua. Para os jornais, tão difícil como acertar a grafia do sobrenome (Marighela, Menghella, Merighela, Meringhella, Marichella, Miringhella, Miranghala) era escapar das versões oficiais. Houve mais que deslizes. As publicações imprimiram a foto na qual Marighella aparecia com um curativo num supercílio. Dois neurônios bastavam para desconfiar do que ocorrera. O Correio de S. Paulo limpou a imagem, subtraindo o curativo.

A ação dos enviados do Komintern foi explorada na histeria anticomunista que sucedeu o levante. O governo tinha argumentos fortes: uma organização (a Internacional Comunista) vinculada a um governo do exterior (o da União Soviética) contribuíra para um golpe de Estado em uma nação estrangeira. O partido tivera sua iniciativa e o liderara em nome da ANL, mas a conta foi cobrada da esquerda em bloco. Nenhuma desventura do PCB serviria de combustível tão duradouro ao anticomunismo.

O Tribunal de Segurança Nacional (TSN) era uma corte de exceção instituída pelo governo para julgar os comunistas e seus aliados. Marighella e quatro centenas de prisioneiros assinaram em outubro de 1936 uma declaração contra o TSN. Alegaram que era inconstitucional e resolveram boicotá-lo.

O procurador Himalaia Virgulino denunciou Marighella, em 10 de maio de 1937, com base na Lei de Segurança Nacional de abril de 1935. No dia 21 de junho, ele chegou escoltado ao prédio da avenida Oswaldo Cruz, perto da enseada de Botafogo. Deu de cara com o juiz Raul Campello Machado. Com a negativa de Marighella em constituir defensor, Machado solicitou à Ordem dos Advogados do Brasil que designasse um. O escolhido foi Ulysses Moreira Senna, que teve três dias para ler as 432 páginas do processo e apresentar a defesa (106 linhas em duas páginas).

O julgamento foi marcado para 25 de agosto. As perspectivas do réu eram cinzentas. A sua chance surgiu quando José Carlos de Macedo Soares foi empossado no Ministério da Justiça e convenceu Getúlio Vargas a libertar os presos políticos sem condenação — eles aguardariam a sentença em liberdade. Como não havia condenação, em 19 de julho o Supremo Tribunal Militar concedeu-lhe habeas corpus. Só no dia 27 Marighella deixou a Casa de Detenção.

Foi por pouco: em 25 de agosto de 1937, o TSN condenou-o por unanimidade à pena de dois anos e seis meses de reclusão. À frente da 18ª sessão do tribunal, esteve o seu presidente, Frederico de Barros Barreto. Um repórter do jornal O Globo perguntou se seria fácil prender quem fora solto antes da condenação. “Não será”, respondeu o juiz.

Marighella, àquela altura, estava longe da enseada de Botafogo.

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Bibliografia:

MAGALHÃES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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