Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo – Os Fuzis de Canudos

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O sol iluminou a manhã da segunda-feira em Salvador. Aglomerados em frente ao Ginásio da Bahia, estavam os estudantes uniformizados, que deveriam estar lá dentro. Prosseguiam a greve pelo adiamento dos exames, iniciada uma semana antes.

O Ministério da Educação postergara as provas parciais dos cursos superiores, mas não as dos secundários. Escola pública do estado, o ginásio se curvava ao calendário do colégio federal Pedro II.

Antes das oito horas apareceram os policiais. A calma prevaleceu até um ginasiano arremessar um caroço de manga para o alto e acertar por acaso o rosto de um motorista da polícia. O homem atingido disparou para cima. Uma aluna golpeou um policial com um livro. Imobilizaram-na e a esbofetearam. Os colegas a resgataram. Alguns acabaram presos, outros se refugiaram no ginásio. A maioria se incorporou à passeata que serpenteou até a Faculdade de Medicina. O anfiteatro Alfredo Brito fervilhava quando os acadêmicos perceberam o alarido na praça. Saudaram a adesão dos secundaristas e assumiram o controle do prédio.

No antigo colégio dos jesuítas, duas mobilizações distintas se fundiram. Os futuros médicos rejeitavam o regime instaurado pelo golpe de outubro de 1930 e que prolongava o arbítrio do seu estatuto “provisório”. Ecoavam na Bahia a REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA que levantara São Paulo. As reivindicações dos ginasianos não eram políticas, mas acadêmicas — pleiteavam o adiamento das provas. Eles só acabaram no Terreiro de Jesus por causa da truculência da polícia do estado. Como o interventor (governador não eleito) da Bahia fora imposto pelo governo provisório, a bronca estendeu-se ao palácio do Catete, sede da administração federal.

O cinturão que os cercava era integrado por Exército, Força Pública, polícia, Corpo de Bombeiros, Guarda Civil e Legião Acadêmica (civis armados). Os estudantes recolheram no museu do Instituto Nina Rodrigues fuzis Mauser modelo de 1895 que haviam sido disparados no extermínio dos milhares de moradores de CANUDOS no fim do século XIX. Contavam de fato com pelo menos doze Mauser, nove revólveres, cinco pistolas automáticas, três pistolas de fogo central, duas espingardas e uma espada. Os pacotes de dinamite eram 29 e a munição, limitada. Centenas de bombas artesanais foram feitas com ácidos armazenados nos laboratórios de farmacologia, histologia e química geral e mineral. Tijolos, pedras e tubos de ferro completaram o arsenal.

Passava das quatro horas quando os universitários identificaram um policial infiltrado. Desarmaram-no na sala da diretoria e o expulsaram. Reconheceram mais dois “secretas” em meio ao mundaréu na praça. Dirigiam-se a eles quando um guarda puxou o gatilho e foi imitado pelos agentes desmascarados. Os estudantes responderam ao fogo.

Enquanto a bruma de pólvora caía sobre o Terreiro de Jesus, o interventor do estado telegrafava ao chefe. Carimbou os insurgentes como “reacionários”, antípodas dos “revolucionários” que ele e GETÚLIO DORNELLES VARGAS representaram no movimento que tomara o poder em 1930.

O chefe de governo sentia a “atmosfera um tanto enervante” no Catete. Nada grave. Se havia um talento do gaúcho de São Borja, era o de cavalgar crises. Getúlio recomendou, ao tomar conhecimento dos coices da elite baiana no interventor cearense: “Juracy, quando o burro começa a escoicear, é bom dar um murro na cangalha para o bicho ver que tem gente em cima”.

Sem mandato popular, o governo provisório de Getúlio Vargas configurava uma ditadura. Obediente às instruções do ditador, Juracy bateu forte com o relho de um lado do burro. Do outro, acercou-se de banqueiros, arcebispo, usineiros de açúcar e produtores de cana. Interesses preservados, eles até simpatizaram com o sotaque fortalezense.

Na tarde de 22 de agosto, o interventor recebeu uma comissão de professores que buscava evitar que as balas zunissem no Terreiro de Jesus. Mandou o ultimato: se todos se entregassem, prometia consideração com os presos; se os líderes se apresentassem, os demais seriam liberados. Em qualquer hipótese, estipulava o prazo de sete horas da noite para a desocupação. Caso contrário, as tropas invadiriam. Na faculdade, ninguém duvidou de que seria suicídio lutar em condições tão desiguais. Alguns manifestantes fugiram; a maioria se entregou e resolveu que todos pagariam pela ousadia coletiva, não somente as lideranças. Ônibus levaram 514 estudantes para a Penitenciária do Estado, conhecida como Engenho da Conceição. Sete professores foram encaminhados para a 1a e a 2a delegacias. As alunas imploraram para serem detidas, mas as autoridades só encarceraram os homens. Era quase meia-noite quando um veículo fez a última viagem para a cadeia.

* * *

O ônibus despejou MARIGHELLA depois de ultrapassar os coqueiros que no entorno da penitenciária lhe davam a aparência de colônia de férias. Os estudantes foram conduzidos a uma antiga galeria. Grupos de dez foram atirados em celas construídas para três. Estavam vazias porque a Saúde Pública as interditara aos presos comuns, tamanha a imundície. Homicidas e larápios de toda espécie ficavam numa área próxima, de onde provocaram os jovens bem nutridos.

Em um embate do dia, haviam golpeado Marighella no dorso, que sangrava. Na cama sem colchão, ele se deitou de lado, mas a dor não o largou. O vento esfriou a madrugada, e não havia pano para se cobrir. Marighella sentiu gosto de argamassa na comida e teve sede. Nas primeiras horas, ninguém dormiu.

À noite, antes da soltura dos estudantes, ele apresentou sua versão de “Vozes d’África”, o poema de CASTRO ALVES que sabia de cabeça. O seu era “Vozes da mocidade acadêmica” e fazia pouco caso do interventor.

A afronta custaria caro. Ao pisar no Engenho da Conceição, Marighella já era conhecido em Salvador. A prova de física fora comentada da rua Chile ao Mercado Modelo. Na Escola Politécnica, ele se juntara ao grêmio nos trotes aos calouros e saraus literários. O inofensivo poema de Marighella fez furor, disseminado em cópias manuscritas, e Juracy soube contra quem fazer a “sua” guerra. Ele não perdeu tempo: chegou aos ouvidos do estudante que o interventor mandara “triturar-lhe os ossos” — quinze anos depois, Juracy negaria a acusação. Os policiais tocaiaram Marighella sem êxito em toda a cidade.

Marighella deixara a penitenciária em 24 de agosto de 1932. Escondeu-se por mais de um mês. Não compareceu à faculdade para as provas. Em dezembro, aparentemente esquecido pela polícia, o aluno reapareceu e prestou os exames. As notas murcharam, e ele foi reprovado em mecânica racional e geologia. Até então, a vida de universitário fora divertimento. Resmungos, só contra a geometria descritiva e as mesas pequenas para as suas pernas.

Queixou-se das restrições às mulheres no universo dos engenheiros — havia poucas alunas na faculdade. O olhar não desgrudava das mulheres. Na Baixa dos Sapateiros, as amigas das irmãs se embelezavam para serem notadas por ele. Teve tantas namoradas que granjeou fama de não poder com um rabo de saia. Desconheciam-se casos duradouros. Em plena Bahia, parecia mesmo vindo de outro planeta: não fumava nem bebia álcool.

Desde o seu retorno após a prisão, o observador do cotidiano foi também crítico do poder. Na conclusão do terceiro ano, em 1933, passou nas sete cadeiras. Uma comissão de inquérito subordinada à direção inquiriu-o em dezembro de 1933. Queriam explicações sobre “o aparecimento de boletins no interior da escola”. Acusavam Marighella de ser o autor de panfletos apresentariam “convicções contrárias ao regime”. A investigação se arrastou até março de 1934, mês em que o julgaram culpado. Pouco antes, o Conselho Técnico lhe aplicara a pena de advertência, condenando-o como responsável pelo furto de provas de física da secretaria da escola. Na tarde de 8 de maio de 1934, por unanimidade, a congregação negou provimento ao seu recurso no processo dos panfletos. A pena foi de três meses sem pôr os pés na Escola Politécnica da Bahia.

Marighella nunca seria engenheiro.

Bibliografia:

MAGALHÃES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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