Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo – Uma Prova em Versos

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CARLOS MARIGHELLA jamais aprendeu a manejar o volante de um automóvel. Isso não deixava de ser curioso para o filho de um mecânico, ex-condutor de caminhão de lixo e orgulhoso proprietário de um Buick. Agostinho e Humberto seguiriam os passos do pai na oficina. Para as meninas, o italiano mostrava as ferramentas sujas e esbravejava:

“Olhem aqui os meus livros!”

Com Carlinhos era diferente. As ferramentas construíram estantes de ferro para os livros que o garoto não cansava de devorar. O pai reformou o escritório da oficina para servir como aposento de estudo do filho. Em vez de introduzi-lo nos macetes das chaves de fenda, distanciou-o da graxa. Se a inveja e o rancor não corroeram a família, foi porque, para os irmãos, Carlinhos também era especial. Veneravam-no. Nem era mais Carlinhos: uma criança pronunciou “Carrinho”, e assim ficou.

Os pais se impressionaram desde cedo com Carrinho. Augusto vibrou com a alfabetização precoce do filho, aos quatro anos de idade. Propiciou-lhe chances que não batiam à porta de todo garoto da Baixa dos Sapateiros, área pobre, e não miserável.

Contrastando com capitais ao sul, negros e mestiços compunham a maioria em Salvador. O censo de 1940 estimou os não brancos em 64,9%. A cor persistia, entretanto, fator de discriminação. Um sociólogo proeminente como OLIVEIRA VIANA saudava, na introdução do censo de 1920, um “movimento de arianização”: “Os elementos inferiores [a população negra e mestiça] que formam o nosso povo estão sendo, pois, rapidamente reduzidos”.

Com oportunidades desiguais, se negro ou mestiço, maior a perspectiva de se eternizar a pobreza. Em 1936, o sociólogo americano DONALD PIERSON apurou que no ensino secundário do estado havia apenas 6,4% de alunos negros e 18,9% de mulatos — os brancos representavam 74,3%.

Colado ao convento da Lapa, funcionava na década de 1920 o Ginásio da Bahia. Pertinho dali, na rua Chile, suas alunas faziam brilhar os olhos de Marighella e seus amigos do Carneiro Ribeiro. Os ginasianos espreitavam o momento de as garotas apoiarem o pé no estribo do bonde. No início de 1928, ele soube que não precisaria mais caminhar até a rua Chile para espiar os joelhos das moças do Ginásio da Bahia. Aprovado no exame de seleção para o meio do curso, bastaria olhar para o lado. Era lá que iria estudar.

Se havia um ranço que não saltava à vista no Ginásio da Bahia, era o do conservadorismo. Desde 1900 as turmas misturavam os dois sexos — o Pedro II, no Rio, somente admitiria mulheres um quarto de século depois. Em maio deste ano, a primeira professora estreou. Ex-estudante da casa, Heddy Peltier dava aulas de inglês. Tivera como colegas os irmãos Jaime e Bernardo Grabois. Tornara-se mestra de outros dois irmãos Grabois, Maurício e José, no ginásio desde 1925. Seu aluno Marighella chegou em 1928, no quarto dos cinco anos do currículo. Ele e Maurício não tinham como saber que a camaradagem de colegas da mesma classe iria longe.

O garoto da Baixa dos Sapateiros fez amizade com outros dois irmãos, Armando e Jayme Pondé, filhos de um magistrado. No Ginásio da Bahia era assim: os filhos de juiz, de mecânico e de mascate estudavam juntos. Nas décadas seguintes, passariam por suas classes estudantes como os dirigentes comunistas Mário Alves, Jacob Gorender e Fernando Sant’Anna, o empresário João Falcão, o governador Antonio Carlos Magalhães e o cineasta Glauber Rocha.

Era o aluno mais popular do Ginásio da Bahia. Brincalhão, além do sorriso escancarado, ficou conhecido pelos livros, dos quais não desgrudava. Encorajou-se a mostrar aos amigos seus poemas. Os amigos quase morreram de rir, e os versos se espalharam por Salvador. Não foi nada perto do que aconteceu em 29 de agosto de 1929, dia da prova de física. O ponto sorteado pedia que se discorresse sobre a catóptrica, o estudo da luz refletida. Como os colegas, Marighella desenhou no papel figuras com pontos e retas para ilustrar a resposta. Dissertou à sua maneira, considerando o “J” como “ji” (e não “jota”), o “L” como “lê” (em vez de “ele”) e o “R” como “rrê” (não “erre”). Tinha dezessete anos:

Doutor, a sério falo, me permita,
em versos rabiscar a prova escrita.
Espelho é a superfície que produz,
quando polida, a reflexão da luz.
Há nos espelhos a considerar
dois casos, quando a imagem se formar.
Caso primeiro: um ponto é que se tem;
ao segundo um objeto é que convém.
Seja a figura abaixo que se vê,
o espelho seja a linha
beta cê.
O ponto
P um ponto dado seja,
como raio incidente
R se veja.
O raio refletido vem depois
e o raio luminoso ao ponto
2.
Foi traçada em seguida uma normal,
o ângulo
I de incidência a R igual.
Olhando em direção de
R segundo,
a imagem vê-se nítida ao fundo.
No prolongado, luminoso raio,
que o refletido encontra de soslaio.
Dois triângulos então o espelho faz,
retângulos os dois, ambos iguais.
Iguais porque um cateto tem comum,
dois ângulos iguais formando um.
Iguais também, porque seus complementos
iguais serão, conforme uns argumentos.
Quanto a graus,
A + I possui noventa,
B + J outros tantos apresenta.
Por vértices opostos
R e J
são iguais assim como R e I.
Mostrado e demonstrado o que é mister,
I é igual a J como se quer.
Os triângulos iguais viram-se acima,
L2, P2, iguais, isto se exprima.
[Aqui Marighella desenhou uma figura.]
Atrás do espelho plano então se forma
a imagem, que é simétrica por norma.
[Desenhou outra.]
Simétrica, direita e virtual,
e da mesma grandeza por final.
Melhor explicação ou mais segura
encontra-se debaixo da figura.

Redigiu algumas linhas de teoria, assinou e entregou a prova.

Naquele ano, o aluno receberia a média de 8,2 em física. Embevecidos, os colegas de Marighella publicaram o exame no jornal de estudantes O Cenáculo e pregaram uma cópia no mural. Nenhuma prova merecera tamanha aclamação no Ginásio da Bahia.

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Bibliografia:

MAGALHÃES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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