Uma Breve História do Brasil: 1850 – Mutações

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A década de 1840 não foi somente a de busca de cidades perdidas. Os dirigentes do Império tinham consciência de que, sem instituições sólidas, não seria possível construir uma nação. Não bastava convencer as elites regionais de que elas eram brasileiras, era também necessário acenar com vantagens, mostrar, por exemplo, que a monarquia era um antídoto contra a guerra civil vivida no período regencial, ou então que ela era capaz de tratar da questão escravista, garantindo a transição lenta do sistema, proporcionando formas de trabalho alternativas aos fazendeiros. Daí a obsessão da época em torno da questão da ordem, preocupação que se desdobrará, por um lado, em um arranjo político conservador e, por outro, em uma transformação radical da sociedade, decorrente da vinda em massa de imigrantes europeus.

Ao cabo de uma década, as instituições e articulações políticas dos dirigentes do Império foram suficientemente eficazes a ponto sufocar os revoltosos e convencer as elites locais da importância e viabilidade do projeto centralizador. Nesse sentido, 1850 representa um marco do que se planejara desde o Golpe da Maioridade. Finalmente cessam os projetos de independência “alternativa” liderados pelas elites provinciais, e a monarquia firma-se como o sistema político que garantia a manutenção da unidade territorial herdada do período colonial. A manutenção da ordem adquire, a partir de agora, uma conotação mais ampla, não exclusivamente repressiva, mas que também valoriza um projeto civilizador da sociedade através da supressão da escravidão.

A ideia, aliás, não era nova. Na Constituinte de 1823, José Bonifácio a defendera, propondo a adoção de leis que gradualmente emancipassem o que então denominou “inimigos domésticos”. Essa proposta, contudo, não vingou. Não é difícil compreender as razões desse fracasso: entre 1820 e 1840, o café expandiu-se vertiginosamente pelo interior do Rio de Janeiro, levando à necessidade cada vez maior de mão de obra, com a consequente importação em larga escala de africanos, até que, em 1850, o gabinete conservador, liderado por Eusébio de Queirós, sancionasse uma lei extinguindo o tráfico internacional de escravos. Uma maneira de explicar essa ousadia é a de atribuí-la às pressões inglesas.

Em 1807, foi abolido o tráfico de escravos em todos os territórios ingleses. Nos anos seguintes, graças à pressão diplomática sobre Portugal, são firmados tratados em 1810, 1815 e 1817, que previam, para breve, o fim do tráfico no BRASIL. Entre 1826 e 1830 são assinados novos acordos, que transformam o tráfico em pirataria, atividade ilegal em qualquer ponto do oceano Atlântico. No ano de 1845, por decisão unilateral inglesa, é aprovado o ABERDEEN ACT, que permitia o ataque por parte de navios ingleses aos navios de traficantes também em portos brasileiros.

Embora se deva reconhecer a importância dessas medidas, surpreende a capacidade das elites brasileiras em resistir ao imperialismo inglês. Talvez elas tenham finalmente cedido, extinguindo o tráfico em 1850, por temerem as rebeliões de senzala; temor intensificado a partir de 1835, em razão da REVOLTA DOS MALÊS, em Salvador, quando então foram descobertos planos que, entre outras coisas, previam a morte de todos os brancos após a conquista do poder.

Tal possibilidade estava longe de ser absurda, havia um forte desequilíbrio entre a população livre e a cativa. As estimativas relativas ao período de 1500 e 1822 sugerem que, no máximo, um milhão de portugueses vieram para o Brasil, ao passo que o número referente aos africanos é da ordem de três milhões. O período imediatamente posterior à independência acentuou esse desequilíbrio: entre 1821 e 1830 chegavam anualmente 43 mil africanos em portos brasileiros, ao passo que a entrada de portugueses foi inferior a mil. Além disso, um em cada três portugueses retornava a Portugal alguns anos depois de, como se dizia na época, “fazer o Brasil”. Os líderes do Império nunca deixaram de perceber o predomínio de negros no conjunto da população, alertando por isso mesmo para o constante risco de rebelião escrava.

Talvez a expressão que melhor sintetize essas preocupações seja medo da africanização, ou seja, medo da importação de escravos, que, segundo as visões preconceituosas da época, além de ser um risco para a segurança pública, afastava o Brasil das “rotas da civilização”. No Brasil, o medo da africanização era, dessa forma, um “produto” a mais importado da civilizada Europa. Só que, no contexto da sociedade imperial, esse preconceito contava com um importante contraponto: a necessidade de trabalhadores para a agricultura. No intuito de conseguir apoio dos fazendeiros, a política adotada pelos reformistas foi a de estimular a vinda de imigrantes europeus, destinados a fazer com que a sociedade brasileira não necessitasse mais de seus “inimigos domésticos”.

O ano de 1850 foi, nesses debates, um marco divisor de águas. Dez anos após a promulgação da LEI EUSÉBIO DE QUEIRÓZ, o Brasil havia definitivamente deixado de ser um país importador de escravos. Cresce, então, o tráfico interno, deslocando milhares de cativos das regiões açucareiras em crise para as fazendas de café do Sudeste. Registra-se, também, a progressiva chegada de proletários da Europa.

Paralelamente à vinda de europeus, assistiremos a uma migração de costumes. De 1840 a 1889, procurou-se imprimir a marca europeia no cotidiano brasileiro. No café da manhã, por exemplo, o pão “francês” substitui a mandioca cozida, enquanto no almoço a cerveja começa a ser registrada e, na sobremesa, os sorvetes concorrem com os centenários doces nas fazendas açucareiras coloniais. As formas de tratamento também mudam: expressões como dona, sinhá ou iaiá dão lugar a denominações afrancesadas, como, mais popularmente, madame. No vestuário, apesar do clima tropical, adota-se a lã e o veludo como padrão. As cores vivas, comuns a essas roupas e aos objetos de uso diário colonial, tendem a ser substituídas pela sisuda e puritana cor preta – quase luto fechado, conforme sublinha GILBERTO FREYRE. Na moda, a influência do costureiro parisienese Paul Poiret vai desfolhar os grandes vestidos rodados, elegendo a imagem da mulher longilínea e magra, em oposição às curvilíneas do final do Império. Na vida literária a influência também foi grande: na Biblioteca Nacional, os volumes mais consultados eram Alexandre Dumas, Verlaine e Victor Hugo. Hábitos e leituras abriam caminho para o romantismo francês na voz de poetas, escritores e dramaturgos. Se, na época, a literatura deixava de ser um reflexo das letras portuguesas, fazendo-se lugar para os assuntos nacionais, continuava-se a ler e a admirar Victor Hugo, Lamartine e Musset. Mas não era só através da literatura que a França se fazia presente. O teatro e a confeitaria foram outras duas modas que “pegaram”.

A arquitetura também registra mutações. Nas cidades, os antigos sobrados e casas-grandes dão lugar a chalés ou a construções de inspiração neoclássica, enquanto nos jardins substituem-se as antigas espécies nativas por roseiras. Nem o submundo da prostituição escapou a esse afã de ser europeu, sendo ao final do século XIX organizado um “tráfico” de “polacas”, russas, austríacas, francesas e italianas; “mulheres de má nota” no dizer da época, que, independentemente da nacionalidade, eram cobiçadas por serem brancas.

As mutações de 1850 tiveram repercussões. A imigração europeia e a importação de modas que a acompanhou tenderam a se concentrar em áreas economicamente mais desenvolvidas. O resultado disso foi o aumento das diferenças culturais entre o Norte e o Sul do país, assim como entre cidade e campo, entre litoral e sertão. O surgimento dessa diferença, por sua vez, alimentará uma nova faceta da europeização: a crença na ciência como um meio de reformar a sociedade, postura que encontrou no Exército os seus mais ardorosos defensores e que fez nascer uma nova onda de críticas ao governo monárquico.

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Bibliografia:

DEL PRIORE, Mary e VENANCIO, Renato. Uma breve História do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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