Uma Breve História do Brasil: Ler, Escrever e Criar

COMPARTILHE:
Share

Foi graças à instalação de conventos de jesuítas, franciscanos, carmelitas e beneditinos, que brotou o primeiro embrião da vida cultural no mundo colonial. Vieram com as ordens religiosas os primeiros livros, de instruir e de ensinar a rezar. JOSÉ DE ANCHIETA foi pioneiro, produzindo um dos primeiros livros escritos entre nós e publicado, num impecável latim, em Lisboa em 1563. O jesuíta escreveu, também, poesias e autos teatrais, sempre tendo em vista catequizar os infiéis. Seu auto sacro Pregação universal é pioneiro pela forma como misturava latim, português e tupi.

Todavia, conspirava contra a presença de livros o elevado número de analfabetos. Entre os que sabiam ler e escrever, não faltou quem quisesse retratar a terra e seus moradores. Administradores e sacerdotes, magistrados e mercadores produziram relatórios, descrições ou mesmo poemas para descrever, dominar e tirar proveito do que os cercava. Pouco a pouco, essas descrições da terra brasileira vão dando lugar a relatos históricos. O primeiro brasileiro a escrever tal prosa foi Vicente Rodrigues Palha, o frei Vicente do Salvador. Concluiu sua História do Brasil em dezembro de 1627. Seu texto é revolucionário na medida em que introduz os verdadeiros personagens de nossa história: índios, negros, mulatos e brancos, cujas histórias são contadas em tom popular. Frei Vicente foi o primeiro a criticar a posição dos portugueses, alheios, então, à conquista do sertão e o pouco caso que fizeram do Brasil.

No século XVII, a luta contra franceses e holandeses suscitou novos textos históricos. Por outro lado, os holandeses contribuíram para recuperar a tradição lusitana seiscentista de descrições da natureza. Isso foi possível graças a Maurício de Nassau, que trouxera consigo uma pequena corte de cientistas, como o cartógrafo Cornelis Golijath, os médicos e naturalistas Willem Piso e Georg Markgraf, assim como artistas do porte de Frans Post, Albert Eckhout, Zacharias Wegener e Pieter Post – que alguns historiadores consideram o arquiteto do plano geral do Recife.

Coube a Piso e Markgraf dar início às investigações sobre as ciências naturais e físicas entre nós. Ambos os autores batavos tiveram oportunidade de identificar na medicina indígena e nas nossas florestas um manancial de remédios para a cura de doenças, como no caso do tabaco, visto como um excelente medicamento, que matava piolhos e vermes, fortificando o estômago, beneficiando o coração e curando certas afecções de pele.

Além desses autores, surgiram na Bahia do século XVII dois grandes nomes: Antônio Vieira e Gregório de Matos Guerra. Embora nascido em Portugal em 1608, Vieira passou a maior parte da vida no Brasil, onde morreu em 1697. Vieira confessava a rainha de Portugal, aconselhava d. João IV, desafiou os senhores de escravos pela liberdade dos índios, defendeu a aliança com os comerciantes judeus contra a fúria da Inquisição, que também o perseguiu. Tinha, contudo, uma obsessão: transformar o Brasil em sede de monarquia, intitulada Quinto Império Português. Contemporâneo de Vieira, Gregório de Matos (1636-95) teve uma vida igualmente surpreendente. Seu reconhecimento ainda vivo foi de tal ordem que dele se queixava o eminente jesuíta dizendo “maior fruto fazem as sátiras de Matos do que os sermões de Vieira”. Ao voltar de Coimbra, onde se formou em leis, compôs uma obra onde se encontram poemas líricos, religiosos e satíricos, retrato da Bahia seiscentista.

Dos mesmos conventos que abrigaram nossas primeiras bibliotecas, saíram nossos primeiros artistas. Tal como a literatura, majoritariamente sacra, nossos entalhadores, escultores e pintores se dedicaram, no século XVII, a pintar as coisas do céu. No mosteiro de São Bento, de Salvador, frei Agostinho da Piedade, foi o responsável pela modelagem de madonas, relicários e estátuas de pequeno porte. No mosteiro de Sant’Ana do Parnaíba, frei Agostinho de Jesus, trabalhou, por mais de trinta anos, em dezenas de imagens em barro paulista. Outro beneditino, frei Domingos da Conceição da Silva, esculpiu anjos gordos enrolados em sinuosas volutas. Os pintores de maior importância, como o frei alemão Ricardo do Pilar, vinham da Europa. No entender de especialistas, as pinturas sacras do século XVII saíam do pincel de práticos e de aprendizes. Se, por um lado, sua origem denota a falta de especialização, por outro, elas irradiam o profundo sentimento religioso da Colônia.

A vida cultural que vai timidamente se desenvolvendo também trouxe vitalidade à arquitetura em diversas regiões do Brasil. O “barroco mineiro” alternou fachadas sóbrias com interiores altamente trabalhados. Igrejas onde o esplendor artístico deslumbra o espectador se acotovelavam ao lado de pequenas capelas, fruto apenas da devoção, e não de recursos financeiros. Observa-se, no interior, uma maior improvisação quanto aos cânones europeus que eram facilmente adaptáveis no litoral. Na falta de azulejos ou outros materiais de luxo, artesãos brancos, negros e mulatos alforriados respondiam com inovações. O uso de pedra-sabão é um exemplo disso.

Como seria de esperar, o Século de Ouro trouxe mudanças para a literatura. A nova riqueza alimentada pelo ouro e pelos diamantes empurrou para o Sudeste boa parte da incipiente vida literária. O Rio de Janeiro, escoadouro das riquezas minerais e capital colonial a partir de 1763, e as cidades mineradoras passaram a sediar novas expressões estéticas. Fruto deste interesse por livros e por escrever, as academias literárias começavam a se organizar. Em 1724, criou-se em Salvador a primeira delas, a Brasílica dos Esquecidos. O nome aludia ao fato de que nas academias portuguesas ninguém se lembrava de incluir um brasileiro. Ao tentar imitar os modismos metropolitanos e refletir simplesmente a inspiração oficial, tais academias não resistiram.

A “escola mineira” produziu intelectuais bem mais expressivos, como Cláudio Manuel da Costa, Basílio da Gama, Tomás Antônio Gonzaga, José de Santa Rita Durão. Nessa época, vicejava em Portugal um estilo, o arcadismo, que entendia que a arte deveria imitar a natureza, identificando-se com a vida bucólica do campo; a obra de arte tinha também que possuir fim moral e edificante. Nossos líricos somaram a tais características um “nativismo comovido”, como disse importante crítico.

O século XVIII foi marcado ainda por outras manifestações que, mais do que retratar literariamente a natureza, procuravam investigá-la. Essa mudança de atitude se deve à chegada das ideias ilustradas e filiadas ao racionalismo francês. Pombal nomeara o padovano Domingos Vandelli para a cátedra de história natural, dando início à formação de uma geração de naturalistas cujo alvo era o desenvolvimento da pátria portuguesa. Entre nós, os nomes de José Mariano da Conceição Veloso e Alexandre Rodrigues Ferreira se sobressaem pela importância das tarefas que realizaram. Nascido em 1742, em Minas Gerais, Veloso seguiu para Portugal como editor de estudos técnicos, memórias e estudos sobre as plantas pertencentes à flora brasileira. Sua obra Florae Fluminensis, terminada em 1790, catalogou quatrocentas espécies, antes ignoradas, observadas nas matas que rodeavam o Rio. Ferreira, considerado o primeiro zoólogo do Brasil, nasceu em Salvador, em 1756. Seus estudos incidiam sobre várias áreas: geografia, mineralogia, espeleologia e, sobretudo, agronomia. Ao doutorar-se, foi indicado para chefiar uma expedição que deveria inventariar as riquezas naturais que pudessem servir aos interesses da Coroa portuguesa.

Outro aspecto da cultura que se desenvolveu durante o Setecentos foi o do teatro. Atores ambulantes percorriam cidades encenando, nas praças e mercados, autos como Inês de Castro, Princesa Magalona e o vicentino Auto da Lusitânia. Nas Minas Gerais, durante as festividades organizadas em torno do natalício ou do casamento dos reis portugueses havia representações. A Casa da Ópera, em Ouro Preto, considerada por especialistas como um dos mais antigos prédios teatrais da América do Sul, foi concluída em 1769. Bem longe de Minas, em 1794, construiu-se a Casa da Ópera da Vila de Porto Alegre, na sua fundação conhecida como Casa de Comédia. Embora fosse um barracão de pau a pique, tinha capacidade para trezentas pessoas e começou a funcionar durante o contrato firmado entre o empresário Pedro Pereira Bragança e a “cômica representante” Maria Benedita de Queirós Montenegro. Como se pode observar, também dentro de alguns aspectos da cultura na Colônia as mulheres tiveram o seu papel.

Contribua com o Resumo da Obra

Bibliografia:

DEL PRIORE, Mary e VENANCIO, Renato. Uma breve História do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

More Posts

Follow Me:
Twitter

Desabafos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.