Uma Breve História do Brasil: Cidades Coloniais

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Prolongando uma tradição medieval, nossas cidades, na sua grande maioria, foram construídas em lugares altos e de difícil acesso. O casario apertado fazia sombra às vias estreitas e escuras, nas quais se jogava, dia e noite, todo tipo de lixo.

Com todos os defeitos, Salvador foi, até 1763, a capital da possessão portuguesa, e nela se concentravam a alta fidalguia lusitana, o alto clero e os magistrados que administravam a Colônia. Os lucros com o açúcar incentivaram a construção de edifícios oficiais e religiosos, assim como de algumas luxuosas residências. A existência de casario com arquitetura mais rebuscada levava ao surgimento de opiniões favoráveis ao meio urbano colonial. Segundo o professor português Luís dos Santos Vilhena, morador da capital baiana em 1790, a maior parte dos sobrados desembocava na Praia, ou Cidade Baixa. A preocupação de Vilhena era, contudo, com a construção demasiada em terreno impróprio. Encarapitadas morro acima, por “evidente milagre, não rolavam” morro abaixo.

Também no Recife, a riqueza do açúcar tratara de concentrar a população e promover a construção de altos sobrados, que conviviam com uma multidão de mocambos de escravos e homens pobres. Nos sobrados, o comércio ocupava o térreo; no primeiro andar, o escritório com apartamentos para caixeiros e sucessivamente alcovas e salas; no último andar, localizava-se a cozinha. Diferentemente de outras tantas cidades coloniais, Recife estabeleceu uma relação especial com as águas, que emolduravam o espaço urbano. Um braço do Capibaribe cortava o sudoeste do subúrbio e, ao norte, um afluente do rio Beberibe e os manguezais de Santo Amaro das Salinas – local de desembarque de escravos africanos – iam, aos poucos, separando a ilha que abrigava o palácio da Boa Vista da terra firme até chegar à divisa com Olinda, a antiga capital.

Ao redor desse núcleo, estendiam-se as terras verdes dos engenhos. Os rios escoavam a produção açucareira até o porto do Recife; os senhores preferiam morar em lugar mais salubre: as colinas de Olinda. O nó da antiga povoação feito de um conjunto de armazéns, depósitos de açúcar e pequenas casas de pescadores fora substituído, no tempo dos flamengos, pela rua dos Judeus, com suas residências, comércio e sinagoga.

Ancorada entre os charcos formados pelo Tamanduateí, o Pinheiros, o Juqueri e o Cotia, São Paulo parecia aos viajantes estrangeiros melhor aglomeração urbana do que suas congêneres. Casas em taipa branqueada com tabatinga, uma espécie de argila clara, davam-lhe ares de limpeza. As ruas eram “largas, claras, calçadas, espaçosas e asseadas”. O clima ameno e saudável também impressionava.

Transposto o riacho do Tamanduateí, entrava-se na parte mais animada: o mercado ou rua das casinhas – com lojas de víveres – que se esparramavam pela rua do Buracão ou ladeira do Carmo. As casas de moradia dos que tinham mais posses costumavam ter dois andares dotados de balcões. Outras possuíam corredores laterais sustentados por pilares em madeira, assim como umbrais de portas e janelas decoradas. Construções religiosas dominavam o contorno da capital: a catedral da Sé, o mosteiro de São Bento, os conventos de São Francisco, Carmo e Santa Teresa e, mais afastado, o da Luz. Para além da colina central, do lado do Brás, da Consolação ou Santa Ifigênia, pequenas chácaras com seus pomares e roças bem cuidadas indicavam a presença de moradores.

A presença de terreiros e praças, tão comum em nossas cidades, não se fará sentir nos núcleos de mineração que se formaram de pequenos arraiais, como Ouro Preto e São João del-Rei. Ocorrendo o ouro em regiões montanhosas, os arraiais nasciam ora junto aos regatos, ora nas encostas. Entre eles se formou uma rede de ruas irregulares e íngremes, nas quais se encravavam pequenos pátios. Em meio ao emaranhado de vielas, travessas e becos se equilibravam casas de pau a pique cobertas de telhas do barro facilmente encontrado na região, as casas de sopapo. Ao longo do século XVIII, os povoados rapidamente se transformaram em vilas, concentrando colonos e imigrantes que, com seus escravos, vinham em busca de ouro, e autoridades que ali se instalavam para controlar a extração aurífera. Nessas mudanças, os casarões se assobradaram e, como em outras partes do Brasil, instalava-se um negócio no térreo.

Até a descoberta do ouro em Minas Gerais, a cidade do Rio de Janeiro não tinha muitos encantos. Possuía, no século XVII, uma fortaleza guarnecida de canhões e um centro comercial animado por embarcações vindas do Rio da Prata e de Angola. Da América espanhola, especialmente do Peru, vinham muitas patacas de prata para pagar escravos clandestinos. A importância desse comércio ficou gravada na devoção a Nossa Senhora de Copacabana – de origem boliviana –, mais tarde instalada na pequena capela da praia do mesmo nome. Igualmente do Rio saía parte do tabaco baiano destinado a comprar escravos em Angola.

Seu perfil, contudo, era ainda de um Rio de Janeiro rural. A cidade tinha, há pouco tempo, descido dos morros. Ao longo da ribeira, plantavam-se trapiches encarregados de armazenar açúcar. Entre o quadrilátero dos morros do Castelo, Santo Antônio, de São Bento e da Conceição delineavam-se as primeiras vias: a rua Direita, da Vala, da Misericórdia. No atual Catete instalaram-se olarias que abasteciam a cidade com tijolos e telhas. Na lagoa de Socopenapã (mais tarde, Rodrigo de Freitas) moía o engenho del Rei restaurado por Martim de Sá. Na Ilha Grande, erigiu-se um estaleiro, destinado a fabricar galeões e fragatas empregados no comércio marítimo e no policiamento do litoral brasileiro.

Num porto onde o tráfico de escravos era determinante, Valongo era o nome do mercado onde eram negociados. Consistia em armazéns alinhados, beirando a praia, cada um com sua porta para receber a mercadoria humana vinda da África. Depois da travessia, os cativos eram engordados com farinha, banana e água. Cartazes do lado de fora anunciavam a chegada de “negros bons, moços e fortes”, e de preços com “abatimento”.

No Rio de Janeiro ou em outras cidades coloniais, a massa de escravos dominava boa parcela dos ofícios urbanos. Atarefados, oferecendo seus serviços ou os produtos feitos na casa do senhor, cumprindo obrigações, levando recados, carregando água, os cativos estavam em toda parte. Sua presença associada ao transporte privado é constante nas gravuras sobre o período. Escravos doentes, aleijados, moribundos eram deixados a mendigar ou a morrer pelas ruas da cidade. Misturavam-se a outros pedintes, muitos deles imigrantes sem sorte e sem trabalho, camponeses pobres, crianças abandonadas, soldados expulsos das tropas.

Durante o dia, as ruas das cidades se animavam com outros sons. O peditório dos irmãos das confrarias era um deles. Campainhas informavam sua presença, que era respondida pela criançada gritando: “Pai Nosso! Pai Nosso!”. O santo viático, quando passava, também causava comoção. Irmãos de opa anunciavam pela campainha que estavam levando os últimos sacramentos a um moribundo. Uma multidão consternada seguia atrás em oração. Mulheres, as trabalhadoras, cativas, forras ou brancas pobres, vendiam, elas também, os seus serviços de lavadeiras, doceiras, rendeiras, prostitutas, parteiras, cozinheiras, etc. Pouco se viam senhoras e sinhás. Reclusas, não deixavam de realizar tarefas domésticas, expondo-se apenas em dias de festa religiosa.

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Bibliografia:

DEL PRIORE, Mary e VENANCIO, Renato. Uma breve História do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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