Uma Breve História do Brasil: O Brasil na Rota do Oriente

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Ano de 1500: debruçada sobre as águas do Tejo, estendia-se Lisboa. Ruas estreitas e tortuosas serpenteavam em meio ao casario branco e baixo que cobria as colinas. Sobressaindo-se a todas elas, erguia-se o Castelo: sólido bloco de pedras a lembrar os tempos em que os mouros ameaçavam os muros da capital do Reino.

Junto ao rio erguia-se a torre do Paço da Ribeira, edifício irregular, de várias dependências subordinadas às instalações do rei, que ali passou a residir em 1503. Sob os arcos do Rossio, ponto de transição entre a cidade e o campo, se vendiam alimentos sobre tabuleiros. Mulheres, brancas e negras, saíam da Ribeira com arroz-doce e cuscuz marroquino, oferecendo as iguarias de porta em porta.

Mais abaixo, na praia ribeirinha, estendia-se a Ribeira das Naus, com oficinas e seus barcos prestes a ser lançados ao Tejo. Ao longo dela, instalavam-se os malcozinhados, tabernas nas quais se reuniam marinheiros, prostitutas, escravos e trabalhadores braçais pobres. Nas águas do rio desfilavam tanto embarcações transportando alimentos dos arredores, quanto barcos enfeitados, nos quais músicos embalavam a conversa dos membros da Corte. No porto, tremulavam naus mercantes vindas de Gênova, Veneza, Normandia, Bristol ou de Flandres.

As tripulações apresentavam, desde o século XV, marinheiros de origens diferentes. Quase todos os marinheiros eram vistos como “criminosos da pior espécie”, cujas penas por decapitação ou enforcamento podiam ser comutadas pelo serviço marítimo. Os pobres embarcados dependiam da generosidade para conseguirem roupas com as quais pudessem se cobrir nos meses que ficavam longe da terra natal.

Pequenas, capazes de avançar em zigue-zague contra o vento e dotadas de artilharia pesada, as caravelas eram consideradas os melhores veleiros a navegar em alto-mar. Mas o cotidiano das viagens ultramarinas não era fácil. A precária higiene a bordo começava pelo espaço restrito que era utilizado pelos passageiros. O banho a bordo era impossível. Além de não existir este hábito de higiene, a água potável era destinada ao consumo e ao preparo de alimentos. Nas pessoas e na comida, proliferavam piolhos, pulgas e percevejos. Passageiros satisfaziam as necessidades fisiológicas próximos de quem comia. A má higiene costumava contaminar os alimentos e a água. Os fluxos de ventre, para os quais não havia cura, ceifavam rapidamente indivíduos já desidratados e desnutridos. A falta habitual de víveres em Portugal impedia que os navios fossem abastecidos com a quantidade suficiente de alimentos. A fome crônica e a debilidade física colaboravam para a morte de uma parcela importante dos marinheiros.

Além de escassos, os alimentos muitas vezes estragavam antes mesmo de começar a viagem. Armazenados em porões úmidos, se sobreviviam ao embarque, apodreciam rapidamente ao longo da jornada. Oficiais mais graduados ficavam com os produtos que estivessem em melhores condições. Grumetes e marinheiros pobres eram obrigados a consumir alimentos em adiantado estado de decomposição. Febres altas e delírios, que atingiam muitos tripulantes, decorriam da ingestão de carnes excessivamente salgadas e podres regadas a vinho avinagrado. Nas calmarias, quando a nau poderia ficar horas ou dias sem se mover, sob o calor tórrido dos trópicos, os marinheiros famintos ingeriam de tudo: sola de sapatos, couro dos baús, papéis, biscoitos repletos de larvas de insetos, ratos, animais mortos e mesmo carne humana. Muitos matavam a sede com a própria urina. Outros preferiam o suicídio a morrer de sede.

Na realidade, a dramática situação dos navegadores não diferia muito da enfrentada pelos camponeses em terra firme. Um trabalhador que cavasse de sol a sol, sete dias por semana, ganhava por dia uma quantia que mal lhe permitia comprar alguns pedaços de pão. Um grande número de camponeses pobres preferia fugir da fome enfrentando os riscos do mar. O sonho com o império das especiarias era um alento e uma possibilidade num quadro de miséria e desesperança.

Mas que sonho seria esse? Depois de dois anos e dois meses de viagem, Vasco da Gama chegava a Lisboa, voltava da expedição às Índias. Ao longo da viagem tomara contato com o mundo muçulmano da costa oriental da África, onde hábeis mercadores controlavam o comércio de escravos, de tecidos de algodão e de especiarias, como o gengibre e o cravo. O encontro entre o mundo europeu e o indiano deu-se, contudo, em Calicute, mercado dos produtos desejados pelos portugueses, como gengibre, canela e todas as demais especiarias. Vasco decidiu, então, encontrar-se com o rei de Calicute, o “Senhor dos Mares”, o Samorim. Cordial, a entrevista encerrou-se com um convite para que uma delegação de embaixadores o acompanhasse em seu retorno a Portugal.

O retorno foi marcado por dificuldades decorrentes do desconhecimento que os portugueses tinham do Pacífico, além de pequenos conflitos com pesqueiros e embarcações leves. Enxotada de muitos portos onde buscava água e descanso, a exausta expedição estava desfalcada. Atacada pelo escorbuto, a tripulação se reduzira a cerca de vinte homens em cada nau. Dos 150 marinheiros que partiram, cerca de 80 regressaram.

D. Manuel l apressou-se a dar notícia dos fatos ao papa Alexandre VI e aos seus vizinhos, os reis católicos – Isabel e Fernando. A intenção de colocá-los a par das notícias escondia seu interesse em acelerar os fatos. Apoiado na desculpa de que havia uma suposta população católica na Índia, que se deveria integrar à cristandade ocidental, o monarca português ambicionava o controle do comércio de especiarias e pedras preciosas. Simultaneamente, o monarca pressionava o papa (a corte papal era a encruzilhada por onde passavam as informações sobre a chegada e partida de embarcações, as rotas de viagens e transações frutuosas) para que o Vaticano permitisse a Portugal exercer o controle sobre todos os domínios marítimos, dando aos lusos o direito de descobrir novas terras.

Uma segunda expedição era preparada às pressas. D. Manuel parecia querer apresentar Portugal ao mundo como a nova potência da cristandade ocidental. A meta era instalar entrepostos em Sofala, para adquirir ouro e especiarias em Calicute, além de enviar missionários, um teólogo e freis capuchinhos para catequese dos moradores locais. A armada, comandada por Pedro Álvares Cabral e composta de doze naus e uma caravela, zarpou com destino à Índia a 9 de março de 1500.

A armada percorreu em cinco rápidos dias o caminho até as ilhas Canárias e seguiu direto até os mares que banhavam a que seria chamada Terra de Santa Cruz. O afastamento para oeste foi intencional, pois, desde 1452, sabia-se da existência de terras a noroeste dos Açores e da Madeira. Tendo em vista a pressa de se retornar a Calicute, é de se estranhar que a frota de Cabral pudesse perder tempo “explorando” zonas desconhecidas e já chanceladas, há seis anos, pelo Tratado de Tordesilhas. Tomar posse das terras demarcadas devia fazer parte dos planos da expedição.

No dia 22 de abril de 1500, chegaram ao sul do atual estado da Bahia. No dia 26 de abril, uma missa celebrada pelo franciscano Henrique Soares de Coimbra marcou os festejos do Domingo de Páscoa. Em 1º de maio, uma cruz foi plantada. No dia seguinte, Cabral zarpava para Calicute. O Brasil havia sido “oficialmente descoberto”.

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Bibliografia:

DEL PRIORE, Mary e VENANCIO, Renato. Uma Breve Historia do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

 

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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