As Etapas do Pensamento Sociológico: Max Weber – História e Sociologia

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As ciências históricas e sociais pretendem explicar causalmente, além de interpretar de maneira compreensiva. A análise das determinações causais é um dos procedimentos que garantem a validade universal dos resultados científicos. Segundo Max Weber, a investigação causal pode se orientar em dois sentidos: causalidade histórica e causalidade sociológica. A primeira determina as circunstâncias únicas que provocaram um certo acontecimento. A segunda pressupõe a determinação de relação regular entre dois fenômenos. Por exemplo: o fenômeno A favorece mais ou menos fortemente o fenômeno B.

O problema da causalidade histórica é o da determinação do papel dos diversos antecedentes na origem de um acontecimento. Pressupõe os passos seguintes:

A primeira regra da metodologia causal, em matéria histórica e sociológica, consiste em definir com precisão as características do indivíduo histórico que se quer explicar. Procurar as causas da guerra de 1914 é indagar por que houve uma guerra, na Europa, no mês de agosto de 1914. As causas deste acontecimento não se confundem nem com as causas da frequência das guerras na história da Europa, nem com as causas do fenômeno guerra em todas as civilizações.

Em segundo lugar, convém analisar o fenômeno histórico em seus elementos. Uma relação causal é sempre uma relação parcial e construída entre certos elementos do indivíduo histórico e determinados dados anteriores.

Em terceiro lugar, se considerarmos uma sequência que só ocorreu uma vez, para chegar a uma determinação causal, precisaremos formular a questão: Que teria ocorrido se…? No caso da guerra de 1914-1918, que teria acontecido se Raymond Poincare não fosse o Presidente da Republica Francesa? Finalmente, convém comparar o devenir irreal com a evolução real, para poder concluir que o elemento modificado pelo pensamento foi de fato uma das causas do indivíduo histórico considerado no ponto de partida da pesquisa.

Para Max Weber, se deixarmos de formular perguntas deste gênero, ficaremos limitados a uma narrativa pura: em tal data, esta pessoa disse ou fez tal coisa. Para a análise causal, é preciso que se sugira implicitamente que, sem determinada ação, o curso dos acontecimentos teria sido outro.

A análise causal retrospectiva tende a distinguir o que foi, num momento dado, a influência das circunstâncias gerais e a eficácia de um certo acidente, ou de certa pessoa. O papel das pessoas ou dos acidentes, na origem dos acontecimentos históricos, é um dado primordial e imediato; cabe, aos que o negam, a tarefa de provar que esse papel é uma ilusão.

Mostrar como fatos parciais podem determinar um movimento de alcance considerável não significa negar o determinismo global dos fatos econômicos ou demográficos. Significa apenas conceder aos acontecimentos do passado a dimensão de incerteza e probabilidade que caracteriza os acontecimentos tais como os vivemos, ou como qualquer homem de ação os concebe.

Max Weber concebe as relações causais da sociologia como relações parciais e prováveis, no sentido de que um fragmento dado da realidade torna provável ou improvável um outro fragmento. As relações causais comportam um caráter de probabilidade, e não de determinação necessária.  Esta teoria da causalidade é uma refutação da interpretação vulgar do MATERIALISMO HISTÓRICO. Exclui a possibilidade de que um elemento da realidade seja considerado como determinante dos outros aspectos da realidade, sem ser também influenciado por eles. Esta rejeição exclui também a possibilidade de que o conjunto da sociedade futura seja determinado a partir de certas características da sociedade presente.

Esta é a interpretação geral que Max Weber dá à causalidade e às relações entre a causalidade histórica e a sociológica. Max Weber se recusa a considerar que as ciências que tem por objeto a realidade humana sejam exclusivamente históricas. É verdade que as ciências da realidade humana se interessam mais pelo singular do que as ciências da natureza. Mas não é verdade que não se interessem por proposições de caráter geral. As ciências da realidade humana só são ciências na medida em que são capazes de formular proposições gerais, mesmo quando buscam compreender o singular. Há, portanto, uma relação íntima entre a análise dos acontecimentos e a formulação de proposições gerais. Esta solidariedade da história e da sociologia aparece claramente na concepção do tipo ideal.

A construção de tipos ideais permite perceber indivíduos históricos ou conjuntos históricos. Um conceito histórico não retém as características que todos os indivíduos incluídos na extensão do conceito apresentam Quando se diz que os franceses são indisciplinados e inteligentes, não se quer dizer que todos eles sejam indisciplinados e inteligentes. O que se pretende com o tipo ideal é reconstruir um indivíduo histórico, os franceses, identificando certos traços que parecem típicos e definindo sua originalidade. O conceito será uma reconstrução estilizada, um isolamento dos traços típicos.

Simplificando, pode-se dizer que Max Weber chama de tipos ideais três espécies de conceitos:

A primeira é a dos tipos ideais de indivíduos históricos, por exemplo, o capitalismo ou a cidade ocidental. Neste caso, o tipo ideal é uma reconstrução inteligível de uma realidade histórica global e singular; global porque o conjunto de um regime econômico é chamado de capitalismo; singular porque, para Weber, o capitalismo, segundo sentido em que define este termo, só se realizou plenamente nas sociedades ocidentais modernas. O tipo ideal de um indivíduo histórico é uma reconstrução parcial: o sociólogo seleciona, no conjunto histórico, um certo número de características, para constituir um todo inteligível. A reconstrução é uma entre várias outras que são possíveis, e a realidade toda não entra na imagem mental do sociólogo.

A segunda espécie é a dos tipos ideais que designam elementos abstratos da realidade histórica. Quando combinados, estes conceitos permitem caracterizar e compreender os conjuntos históricos reais.

A oposição entre estas duas espécies de tipos ideais aparece claramente se tomarmos o capitalismo como exemplo da primeira espécie, e, da segunda, a burocracia. No primeiro caso, designamos um conjunto histórico real e singular; no segundo, definimos um aspecto das instituições políticas que não cobre todo um regime, e que pode ser encontrado em diferentes momentos da história.

Estes tipos ideais dos elementos característicos da sociedade se situam em diferentes níveis de abstração. Num nível inferior, aparecem conceitos tais como burocracia ou feudalismo. Num nível mais elevado de abstração, figuram os TRÊS TIPOS DE DOMINAÇÃO: o racional, o tradicional e o carismático. Eles são definidos pela motivação da obediência ou pela natureza da legitimidade pretendida pelo chefe. A DOMINAÇÃO RACIONAL se justifica por leis e regulamentos; a DOMINAÇÃO TRADICIONAL, pelo passado e o costume; a DOMINAÇÃO CARISMÁTICA, pela virtude excepcional, quase mágica, atribuídas ao chefe. Os três tipos de dominação são utilizados como elementos graças aos quais se reconstroem e compreendem regimes políticos concretos.

Como a realidade é confusa, precisamos abordá-la com ideias claras. Como os tipos se confundem na realidade, é preciso defini-los rigorosamente. Utilizando conceitos precisamente definidos, medimos o seu afastamento da realidade, e combinando conceitos múltiplos apreendemos uma realidade complexa. Finalmente, num terceiro nível de abstração, temos os tipos de ação: a ação racional com relação ao objetivo, a ação racional com relação aos valores, a ação tradicional e a ação afetiva.

Por fim, chegamos à terceira espécie dos tipos ideais, constituída pelas reconstruções nacionalizantes de condutas de um tipo particular. O conjunto das proposições da teoria econômica, segundo Max Weber, não passa da reconstrução ideal típica do modo como os sujeitos se comportariam se fossem sujeitos econômicos puros. A teoria econômica concebe o comportamento econômico rigorosamente definido conforme sua essência.

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Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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