As Etapas do Pensamento Sociológico: Max Weber – Teoria da Ciência

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Para estudar a teoria weberiana da ciência pode-se tomar como ponto de partida a classificação dos tipos de ação. Weber parte da distinção entre quatro tipos de ação:

AÇÃO RACIONAL COM RELAÇÃO A UM OBJETIVO: definida pelo fato de que o ator concebe claramente seu objetivo e combina os meios disponíveis para atingi-lo.

Exemplo: a ação do engenheiro que constrói uma ponte. A racionalidade com relação a um objetivo é definida com base nos conhecimentos do ator, e não do observador.

AÇÃO RACIONAL COM RELAÇÃO A UM VALOR: o ator age racionalmente, aceitando todos os riscos para permanecer fiel à sua ideia de honra. Exemplo: o capitão que afunda com seu navio. A ação é racional porque seria desonroso abandonar o navio que afunda.

AÇÃO AFETIVA: é a ação ditada imediatamente pelo estado de consciência ou o humor do sujeito. É o soco dado numa partida de futebol pelo jogador que perdeu o controle dos nervos. A ação é definida por uma reação emocional do ator, em determinadas circunstâncias e não em relação a um objetivo ou a um sistema de valores.

AÇÃO TRADICIONAL: é aquela ditada pelos hábitos, costumes, e crenças, transformada numa segunda natureza. Para agir de conformidade com a tradição, o ator não precisa conceber um objetivo, ou um valor, nem ser impelido por uma emoção; obedece simplesmente a reflexos enraizados por longa prática.

Esta classificação dos tipos de ação está associada com o que constitui o centro da reflexão filosófica de Max Weber: os vínculos de solidariedade e de independência entre a ciência e a política. Estas concepções estão resumidas em duas conferências, intituladas A política como profissão e A ciência como profissão.

Para Weber, a ciência é um aspecto do processo de racionalização característico das sociedades ocidentais modernas. A ciência positiva e racional valorizada por MAX WEBER apresenta duas características que comandam o significado e o alcance da verdade científica. Estes dois traços específicos são o não-acabamento essencial e a objetividade. O cientista observa com a mesma serenidade o charlatão e o médico, o demagogo e o estadista.

Para Max Weber, a ciência moderna é por essência um devenir; ela renova sem cessar as indagações dirigidas à natureza. Para todas as disciplinas o conhecimento é uma conquista que nunca chega ao seu termo. Mas para as ciências da realidade humana, da história e da cultura, não é só isso. O conhecimento nesse caso está subordinado às questões que o cientista coloca à realidade. À medida que a história avança e renova os sistemas de valor e os monumentos do espírito, o historiador e o sociólogo espontaneamente formulam novas questões sobre os fatos, presentes ou passados. Como a história-realidade renova a curiosidade do historiador ou do sociólogo, é impossível conceber uma história ou uma sociologia acabadas.

As ciências da história e da sociedade diferem profundamente das ciências da natureza, embora tenham a mesma inspiração racional. As características originais e distintivas destas ciências são três: elas são compreensivas, históricas e se orientam para a cultura.

A ideia de Weber com o termo compreensão é a seguinte: no domínio dos fenômenos naturais, só podemos apreender as regularidades observadas por meio de proposições de forma e natureza matemáticas. A compreensão passa por intermediários, conceitos ou relações. No caso da conduta humana, a compreensão é imediata: o viajante compreende por que o motorista do táxi para diante do sinal vermelho. Não é necessário constatar quantos motoristas se detém diante do sinal vermelho para entender por que razão eles agem assim. As condutas sociais tem uma textura inteligível que as ciências da realidade humana são capazes de apreender.

Do fato de sermos capazes de compreender resulta que podemos explicar fenômenos singulares sem a intermediação das proposições gerais. Há um vínculo entre a inteligibilidade intrínseca dos fenômenos humanos e a orientação histórica destas ciências. Nas ciências da realidade humana devem-se distinguir duas orientações: uma no sentido da história, do relato daquilo que não acontecerá uma segunda vez, a outra no sentido da sociologia, isto é, da reconstrução conceitual das instituições sociais e do seu funcionamento. Estas duas orientações são complementares. Quando o objeto do conhecimento é a humanidade, é legítimo o interesse pelas características singulares de um indivíduo, de uma época ou de um grupo, tanto quanto pelas leis que comandam o funcionamento e o desenvolvimento das sociedades.

O objetivo específico da ciência é a validade universal. Ela é, para empregar os conceitos weberianos, uma conduta racional cuja finalidade é atingir julgamentos de fato, universalmente válidos. Como é possível formular tais julgamentos a propósito de obras que se definem como criações de valores? Max Weber respondia a esta questão, que está no centro de toda sua reflexão filosófica e epistemológica, traçando a distinção entre o julgamento de valor e a relação com os valores.

O cidadão que considera que a liberdade é algo essencial está fazendo um julgamento em que sua personalidade se manifesta. Os julgamentos de valor são pessoais e subjetivos; todos tem o direito de considerar a liberdade como um valor positivo ou negativo, primordial ou secundário. Por outro lado, a fórmula “relação aos valores” significa que o sociólogo da política acredita que a liberdade é um dos conceitos com a ajuda dos quais vai delimitar e organizar a parte da realidade a ser estudada, sem que esteja obrigado a declarar seu apreço com relação a ela [liberdade]. A distinção entre o julgamento de valor e a relação aos valores permitia a Weber ao mesmo tempo marcar a diferença entre a atividade do cientista e a do político, e a semelhança de interesses entre um e outro.

Max Weber defendia que uma obra de história ou de sociologia deve seu interesse ao interesse das questões propostas pelo historiador ou sociólogo. Ele pretendia superar deste modo uma antinomia bem conhecida: o cientista que se apaixona pelo objeto da sua investigação não será nem imparcial nem objetivo. Distinguindo assim as perguntas e as respostas, Weber encontra uma saída: é preciso ter o senso do interesse daquilo que os homens viveram para compreendê-los autenticamente; mas é preciso distanciar-se do próprio interesse para encontrar uma resposta universalmente válida a uma questão inspirada pelas paixões do homem histórico.

Os resultados científicos devem ser obtidos a partir de uma escolha subjetiva, por procedimentos sujeitos a verificação, que se imponham a todos os espíritos. Esforça-se por demonstrar que a ciência histórica é racional, demonstrativa; que só procura enunciar proposições do tipo científico, sujeitas a confirmação. Nas ciências históricas ou sociológicas a intuição não tem um papel diferente do que desempenha nas ciências naturais. As proposições históricas e sociológicas tratam dos fatos observáveis, e visam atingir uma realidade definida, a conduta dos homens, na significação que lhe dão os próprios atores.

A sociologia weberiana se inspira numa filosofia existencialista que propõe uma dupla negação: nenhuma ciência poderá dizer aos homens como devem viver, ou ensinar as sociedades como se devem organizar. Nenhuma ciência poderá indicar a humanidade qual é o seu futuro. A primeira negação o opõe a DURKHEIM, a segunda, a MARX. Toda ciência histórica e social representa um ponto de vista parcial; é incapaz de prever o futuro, pois este não é pré-determinado. Na medida em que alguns acontecimentos futuros são pré-determinados, o homem terá sempre a liberdade, seja de recusar este determinismo parcial, seja de se adaptar a ele de diferentes maneiras.

Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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