Vigiar e Punir: Os Corpos Dóceis

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Na segunda metade do século XVIII, o soldado tornou-se algo que se fabrica; corrigiram-se aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo.

Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes. Muitas coisas entretanto são novas nessas técnicas. A escala e o objeto do controle, a modalidade enfim: implica numa coerção ininterrupta, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. E desses esmiuçamentos nasceu o homem do humanismo moderno.

A ARTE DAS DISTRIBUIÇÕES

A disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos indivíduos no espaço. Para isso, utiliza diversas técnicas.

1)  A disciplina às vezes exige a cerca, a especificação de um local heterogêneo a todos os outros e fechado em si mesmo. Local, protegido, da monotonia disciplinar.

2) Mas o princípio de “clausura” não é suficiente nos aparelhos disciplinares. Estes trabalham o espaço segundo o princípio da localização imediata ou do quadriculamento. Cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar, um indivíduo. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar.

3) Lugares determinados se definem para satisfazer não só à necessidade de vigiar, mas também de criar um espaço útil. O processo aparece claramente nos hospitais militares e marítimos. Um porto militar é um lugar de deserção, de contrabando, de contágio. Pouco a pouco um espaço administrativo e político tende a individualizar os corpos, as doenças, os sintomas, as vidas e as mortes. Nasce da disciplina um espaço útil do ponto de vista médico.

4) Na disciplina, os elementos são intercambiáveis, pois cada um se define pelo lugar que ocupa na série, e pela distância que o separa dos outros. “Celas”, “lugares”, “fileiras” – a primeira das grandes operações da disciplina é a constituição de “quadros vivos” que transformam as multidões confusas em multiplicidades organizadas.

O CONTROLE DA ATIVIDADE

1) O horário. Nas escolas elementares, a divisão do tempo torna-se cada vez mais esmiuçante. No começo do século XIX, serão propostos para a escola mútua horários como o seguinte: 8,45 entrada do monitor, 8,52 chamada do monitor, 8,56 entrada das crianças e oração, etc. Mas procura-se também garantir a anulação de tudo o que possa perturbar e distrair; trata-se de constituir um tempo integralmente útil.

2) A elaboração temporal do ato. Para cada movimento é determinada uma direção, uma amplitude, uma duração; é prescrita sua ordem de sucessão.

3) O corpo e o gesto são postos em correlação. No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido.

4) A disciplina define cada uma das relações que o corpo deve manter com o objeto que manipula. Consiste em uma decomposição do gesto global em duas séries paralelas: a dos elementos do corpo que serão postos em jogo (mão direita, joelho etc.), a dos elementos do objeto manipulado (cano, alça de mira, cão, etc.); coloca-os depois em correlação uns com os outros segundo um certo número de gestos simples (apoiar, dobrar); finalmente fixa a ordem em que cada uma dessas correlações ocupa um lugar determinado.

5) A utilização exaustiva. Importa extrair do tempo sempre mais instantes disponíveis e de cada instante sempre mais forças úteis.

A ORGANIZAÇÃO DAS GÊNESES

As disciplinas, que analisam o espaço, que decompõem e recompõem as atividades, devem ser também compreendidas como aparelhos para adicionar e capitalizar o tempo. E isto por quatro processos, que a organização militar mostra com toda a clareza.

1º) Dividir a duração em segmentos. Por exemplo: ensinar sucessivamente a postura, depois a marcha, depois o manejo das armas, depois o tiro, e só passar a uma atividade se a anterior estiver completamente adquirida; enfim decompor o tempo em sequências.

2°) Organizar essas sequências, combinando-se segundo uma complexidade crescente.

3º) Finalizar esses segmentos temporais, fixar-lhes um termo marcado por uma prova, que tem a tríplice função de indicar se o indivíduo atingiu o nível estatutário, de garantir que sua aprendizagem está em conformidade com a dos outros, e diferenciar as capacidades de cada indivíduo.

4º) Estabelecer séries de séries; prescrever a cada um os exercícios que lhe convêm; os exercícios comuns têm um papel diferenciador e cada diferença comporta exercícios específicos. Ao termo de cada série, começam outras, de maneira que cada indivíduo se encontra preso numa série temporal, que define especificamente seu nível ou sua categoria. A colocação em “série” permite um controle detalhado e uma intervenção pontual (de diferenciação, de correção, de castigo, de eliminaçãº) a cada momento do tempo; possibilidade de caracterizar, portanto de utilizar os indivíduos de acordo com o nível que têm nas séries que percorrem.

A COMPOSIÇÃO DAS FORÇAS

Surge uma exigência nova a que a disciplina tem que atender: construir uma máquina cujo efeito será elevado ao máximo pela articulação combinada das peças elementares de que ela se compõe. Essa exigência se traduz de várias maneiras.

1) O corpo singular torna-se um elemento, que se pode colocar, mover, articular com outros. As variáveis principais que o definem são o lugar que ele ocupa, o intervalo que cobre, a regularidade, a boa ordem segundo as quais opera seus deslocamentos. O corpo se constitui como peça de uma máquina multissegmentar.

2) A disciplina deve formar um tempo composto. O tempo de uns deve-se ajustar ao tempo de outros de maneira que se possa extrair a máxima quantidade de forças de cada um e combiná-la num resultado ótimo.

3) Essa combinação medida das forças exige um sistema preciso de comando. É necessário e suficiente que a ordem provoque o comportamento desejado: o que importa é colocar os corpos num pequeno mundo de sinais a cada um dos quais está ligada uma resposta obrigatória e só uma.

Em resumo, pode-se dizer que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla, quatro tipos de individualidade, ou uma individualidade dotada de quatro características: é celular (pelo jogo da repartição espacial), é orgânica (pela codificação das atividades), é genética (pela acumulação do tempo), é combinatória (pela composição das forças). E, para tanto, utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza “táticas”. A tática, arte de construir – com os corpos localizados, atividades codificadas e as aptidões formadas – aparelhos em que o produto das diferentes forças se encontra majorado por sua combinação calculada, é a forma mais elevada da prática disciplinar.

A política, como técnica da paz e da ordem internas, procurou pôr em funcionamento o dispositivo do exército perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil. O sonho de uma sociedade perfeita é facilmente atribuído pelos historiadores aos filósofos e juristas do século XVIII; mas há também um sonho militar da sociedade; sua referência fundamental era não ao estado de natureza, mas às engrenagens subordinadas de uma máquina, não ao contrato primitivo, mas às coerções permanentes, não aos direitos fundamentais, mas aos treinamentos indefinidamente progressivos, não à vontade geral mas à docilidade automática.

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Bibliografia:

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 38 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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