O Novo Paradigma da Violência – Michel Wieviorka

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A violência não é a mesma de um período a outro. As transformações recentes, a partir dos anos 60 e 70, são tão consideráveis que justificam explorar a ideia da chegada de um novo paradigma da violência, que caracterizaria o mundo contemporâneo.

  1. Mudanças

a. Novos significados

a1. Importantes nos anos 70 e ainda nos 80, a violência política e o terrorismo de extrema-esquerda – ligados à desestruturação dos regimes e dos partidos de inspiração marxista-leninista – regrediram em toda parte. A violência de extrema-direita, animada por projetos de tomada do poder do Estado, também regrediu, substituída por condutas que visam mais a manter atividades privadas fora do controle do Estado.

a2. A partir dos anos 50, lutas de libertação nacional deram origem a novos regimes e a novos Estados.

a3. O declínio do movimento operário e a perda do lugar central das relações de produção industriais tornam improváveis a ideia de uma ligação entre importantes violências sociais e a inserção de seus agentes num conflito estrutural de classe, no sentido habitual da expressão.

a4. Enfim, o elemento mais espetacular da renovação da violência hoje é dado pelas referências crescentes de seus protagonistas a uma identidade étnica ou religiosa. Trata-se de construções históricas recentes que nada têm de natural.

b. Percepções e representações

Nos países ocidentais, a violência parece ter perdido a legitimidade no espaço político; ela é o que a sociedade deve combater completamente. Nos anos 60 e 70, ela podia ser tolerada na esfera política. Uns admiravam as guerrilhas e faziam do “Che” seu herói. Mas, na falta de debate, na falta de agentes políticos ou intelectuais capazes de romper o consenso relativo à violência, esta transforma-se em objeto de percepções e de representações que funcionam por excesso e por carência.

Por excesso: a alteridade, a diferença cultural, são objeto de fantasmas e medos. É o caso da imigração, nos países que a recebem, porque os imigrantes são muitas vezes tratados como “raças perigosas”.

Por carência: a violência, na medida em que não questiona as modalidades mais fundamentais da dominação, é suscetível de ser negada ou banalizada. É assim, na França, as violências sociais dos pequenos comerciantes ou dos agricultores, figuras solidamente instaladas em um lugar respeitável do imaginário nacional, são minimizadas.

Uma segunda característica importante da época contemporânea é que a violência constitui uma categoria bem mais central do que era para pensar o interno e o externo, a sociedade e o meio que a cerca.

  1. Quatro níveis de análise

É clássico, na análise da violência, distinguir níveis. Nos anos 60, por exemplo, Pierre Hassner sugeria que fossem feitas três diferenciações. A primeira era a do sistema internacional; a segunda era a dos Estados e a terceira, a das sociedades, no interior dos Estados. Nós retomaremos essa distinção aqui, acrescentando um quarto nível, o do indivíduo, para insistir sobre um fenômeno contemporâneo que tem um peso enorme sobre a produção da violência contemporânea: o crescimento do individualismo moderno.

  1. Dúvidas e incertezas

b. Desarticulação

A violência tem a ver com mudanças que afetam não apenas cada um dos quatro níveis considerados na análise, mas também o seu conjunto. O mais decisivo remete aqui à crise do Estado-nação, enfraquecido em seu papel de espaço principal da vida coletiva. Assim, há um hiato entre a escala dos problemas, planetários, colocados pela economia e pela ecologia, e os instrumentos institucionais, essencialmente estatais, de que se dispõe para tratá-los.

A violência, desse ponto de vista, pode resultar do esforço de certos atores para manter aquilo que se desfaz; ela se exprime através de agressões contra os que são suspeitos de preparar a desintegração sociopolítica da sociedade nacional. O racismo na Europa tem muito a ver com a recusa reativa de uma decomposição das sociedades nacionais.

c. Um mundo sem referências?

Para pensar de maneira diferenciada o surgimento e o desenvolvimento da violência no espaço, não há mais princípio geopolítico sólido, as distinções econômicas são insuficientes, e a tese do choque das civilizações revela-se imprópria. No novo paradigma, a violência deve ser apreendida através de uma de suas novidades radicais: o fato de ser ao mesmo tempo globalizada e localizada, o que nos obriga a refletir ainda a mais, indo de um extremo, sócio-histórico, a outro, centrado na pessoa.

  1. Violência e crise da modernidade

Consideremos, na perspectiva de Alain Touraine (1992), que a modernidade implica em um dualismo sob tensão entre a razão e a cultura, entre o mundo objetivo e o mundo da subjetividade. De um lado, o mundo da técnica, dos mercados, da ciência e da economia neoliberal; de outro, o das identidades comunitárias ou sectárias. De um lado, o sistema; do outro, os atores.

Desse ponto de vista, a violência contemporânea pode ser analisada como um vasto conjunto de experiências que traduzem o risco de implosão pós-moderna. E nesses dilaceramentos, uma primeira hipótese merece ser explorada: a de uma fragmentação dos espaços políticos e de uma distorção do espectro geral da violência a partir de suas dimensões políticas.

c. Violência e identidades

Assim, a violência parece carregada significações mais culturais que sociais, ligada a atores que se definem acima de tudo por uma identidade. Na prática, a violência identitária é fruto da crise da modernidade. Ela adquire uma feição radical quando encarna a rejeição da modernidade, e sua fragmentação e se engaja num processo de construção de si mesmo que o inscreve num comunitarismo pós-moderno. O islamismo deve muito, em suas expressões mais sangrentas, a essa combinação de referências à tradição perdida, e de construção de uma identidade que não é a do islã mais tradicional.

A violência contemporânea situa-se no cruzamento do social, do político e do cultural do qual ela exprime correntemente as transformações e a eventual desestruturação. Ela pode, por exemplo, ser a princípio social, antes de se elevar ao nível político.

Isso nos conduz a nossas últimas observações. A violência surge e se desenvolve através das carências e dos limites do jogo político, que pode também regredir ou desaparecer em função de um tratamento institucional das demandas que ela vem traduzir. O declínio da violência está frequentemente condicionado pela conjunção de fatores próprios aos atores – capazes de serem sujeitos e de se afastarem de lógicas de puro ódio ou barbárie – e de fatores próprios ao sistema no seio do qual eles evoluem; e aos atores políticos que sobre ele exercem uma influência.

A íntegra do texto pode ser acessada aqui.

Bibliografia:

WIEVIORKA, Michel. O novo paradigma da violência. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 9(1): 5-41, maio de 1997.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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