Por Uma Outra Globalização: Limites À Globalização Perversa

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Introdução

A análise do fenômeno da globalização ficaria incompleta se apenas nos detivéssemos na apreciação dos seus aspectos atualmente. Cabe, agora, verificar os limites dessa evolução.

A velocidade não é um bem que permita uma distribuição generalizada, e as disparidades no seu uso garantem a exacerbação das desigualdades. O que se observa é a expansão acelerada do reino da escassez, atingindo as classes médias e criando mais pobres.

Os limites da racionalidade dominante

Nos diversos níveis da vida econômica, social, individual, vivemos uma racionalidade totalitária. Na esfera da racionalidade hegemônica, uma pequena margem é deixada para a variedade, a criatividade, a espontaneidade. Enquanto isso, surgem, nas outras esferas, contra-racionalidades e racionalidades paralelas. Estas são produzidas e mantidas pelos que estão “embaixo”, sobretudo os pobres, que desse modo conseguem escapar ao totalitarismo da racionalidade dominante.

O imaginário da velocidade

Na família dos imaginários da globalização e das técnicas, encontra-se a ideia de que a velocidade constitui um dado irreversível na produção da história. Porém, somente algumas pessoas, firmas e instituições são altamente velozes. Graças à impostura ideológica, o fato da minoria acaba sendo representativo da totalidade.

Velocidade: técnica e poder

Pode-se dizer que a velocidade assim utilizada é duplamente um dado da política e não da técnica. De fato, o uso extremo da velocidade acaba por ser o imperativo das empresas hegemônicas e não das demais, para as quais o sentido de urgência não é uma constante.

Do relógio despótico às temporalidades divergentes

Os sistemas técnicos dominantes parecem se impor como invasores, servindo como parâmetro na avaliação da eficácia de outros lugares e de outros sistemas técnicos. Todavia, a velocidade atual e tudo que vem com ela, e que dela decorre, não é inelutável nem imprescindível. Como tal exercício não responde a um objetivo moral e, desse modo, é desprovido de sentido, o resultado é a instalação de situações em que o movimento encontra justificativa em si mesmo – como é o caso do mercado de capitais especulativos –, tal autonomia sendo uma das razões da desordem característica do período atual.

Just-in-time versus o cotidiano

O tema das verticalidades e das horizontalidades pode comportar numerosas reinterpretações. Uma delas é a oposição existente entre a natureza das atividades just-in-time, que trabalham com um relógio universal, e a realidade das atividades que, juntas, constituem a vida cotidiana.

O funcionamento dos espaços hegemônicos supõe uma demanda desesperada de regras. Tal regulação obedece à consideração de interesses privatísticos. Já o cotidiano supõe uma demanda desesperada de Política, resultado da consideração conjunta de múltiplos interesses.

Do artifício à escassez

Hoje, tanto os objetivos quanto as ações derivam da técnica. Na medida em que as técnicas hegemônicas, fundadas na ciência e obedientes aos imperativos do mercado, são dotadas de intencionalidade, há tendência à hegemonia de uma produção “racional” de coisas e de necessidades. Nessa situação, as técnicas a velocidade, a potência criam desigualdades e, paralelamente, necessidades, porque o que é produzido é desigualmente distribuído. Daí a sensação e, depois, a consciência de escassez.

Da escassez ao entendimento

Papel dos pobres na produção do presente e do futuro

É importante, em primeiro lugar, distinguir entre pobreza e miséria. A miséria acaba por ser a privação total da pessoa. A pobreza é uma situação de carência, mas também de luta, um estado de vida ativa, em que a tomada de consciência é possível.

É dessa forma que, na convivência com a necessidade e com o outro, se elabora uma política, a política dos de baixo, constituída a partir das suas visões do mundo e dos lugares. A política dos pobres é alimentada pela simples necessidade de continuar existindo.

A idade de ouro

O chamado milagre econômico brasileiro permite a difusão da classe média, que acompanha a explosão demográfica, a explosão urbana e a explosão do consumo e do crédito. No Brasil do milagre, e até durante boa parte da década de 1980, a classe média se desenvolve sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para a melhoria do seu poder aquisitivo e do seu bem-estar material.

Forma-se uma classe média mais apegada ao consumo que à cidadania. Daí a tolerância com o regime autoritário. O modelo econômico importava mais que o modelo cívico.

A escassez chega às classes médias

Tal situação tende a mudar quando a classe média começa a conhecer a experiência da escassez: a educação dos filhos, o cuidado com a saúde, a aquisição ou aluguel da moradia, a possibilidade de pagar pelo lazer, a falta de garantia no emprego, a deterioração dos salários, a poupança negativa e o crescente endividamento estão levando ao desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto ao futuro. Já que não mais encontram os remédios que lhe eram oferecidos pelo mercado ou pelo Estado, as classes médias ganham a percepção de que já não participam da partilha do poder. Acostumadas a atribuir aos políticos a solução dos seus problemas, proclamam, agora, seu descontentamento, distanciando-se deles.

Um dado novo na política

As classes médias brasileiras, já não mais aduladas, constituem um dado novo da vida social e política. Mas seu papel não estará completo enquanto não se identificar com os clamores dos pobres, contribuindo, juntos, para o rearranjo e a regeneração dos partidos, inclusive os partidos do progresso. Dentro destes, são muitos os que ainda aceitam as tentações do triunfalismo oposicionista e se rendem ao oportunismo eleitoreiro.

As classes médias brasileiras tem, agora, a tarefa histórica de forçar os partidos a complementar, no Brasil, o trabalho de implantação de uma democracia eleitoral, econômica, política e social. A experiência da escassez é um dado fundamental na aceleração da tomada de consciência. As novas circunstâncias podem levar as classes médias a forçar uma mudança substancial do ideário e das práticas políticas, que incluam uma maior responsabilidade ideológica e a correspondente representatividade político-eleitoral dos partidos.

Bibliografia:

SANTOS, Milton. Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: BestBolso; 2011.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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