Por Uma Outra Globalização: O Território do Dinheiro e da Fragmentação

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Introdução

No mundo da globalização, os territórios tendem a uma compartimentação generalizada, onde se associam e se chocam o movimento da sociedade planetária e o de cada fração da sociedade nacional. Esses movimentos são paralelos a um processo de fragmentação que rouba às coletividades o comando do seu destino. A agricultura moderna é um exemplo dessa tendência.

Os lugares escolhidos acolhem os vetores da racionalidade dominante mas também permitem a emergência de outras formas de vida. Essa esquizofrenia tem um papel ativo na formação da consciência. O espaço geográfico indica a seus atores o modo de nela intervir.

  1. O espaço geográfico: compartimentação e fragmentação

A compartimentação: passado e presente Até recentemente, a humanidade vivia o mundo da lentidão, no qual a prática de velocidades diferentes não separava os respectivos agentes. A política compensava a diferenciação do poder técnico ou do poder econômico, assegurando a ordem interna e a ordem internacional.

Rapidez, fluidez, fragmentação Hoje, vivemos um mundo da rapidez e da fluidez, possível pela presença dos novos sistemas técnicos. A fluidez não é um bem comum; apenas alguns agentes têm a possibilidade de utilizá-la – os portadores das velocidades extremas. O chamado mercado global se impõe como razão principal da constituição desses espaços da fluidez.

Competitividade versus solidariedade A competitividade acaba por destroçar as antigas solidariedades, frequentemente horizontais, e por impor uma solidariedade vertical, cujo epicentro é a empresa hegemônica, indiferente ao entorno. Esse novo poder das grandes empresas é desagregador, excludente.

  1. A agricultura científica globalizada e a alienação do território

Os últimos séculos marcam para a atividade agrícola uma considerável mudança de qualidade, chegando-se à constituição de um meio geográfico a que podemos chamar de meio técnico-científico-informacional. Podemos agora falar de uma agricultura científica globalizada.

A demanda externa de racionalidade Nas áreas onde essa agricultura científica globalizada se instala, verifica-se uma importante demanda de bens científicos (sementes, inseticidas, fertilizantes, corretivos) e, também, de assistência técnica. Os produtos são escolhidos segundo uma base mercantil. Nas áreas onde tal fenômeno se verifica, registra-se uma tendência a um duplo desemprego: o dos agricultores e outros empregados e o dos proprietários.

A cidade do campo A relação da agricultura moderna com o mundo e com as áreas dinâmicas do país se dá por meio de pontos. É o que explica, por exemplo, o relacionamento existente entre cidades regionais e São Paulo. Nessas localidades dá-se uma oferta de informação ligada à atividade agrícola, produzindo uma atividade urbana de fabricação e de serviços. A cidade é um lugar de residência de funcionários da administração pública, das empresas e de pessoas que trabalham no campo.

  1. Compartimentação e fragmentação do espaço: o caso do Brasil

O exame do caso brasileiro revela que o campo modernizado se tornou mais aberto à expansão das formas atuais do capitalismo que as cidades. Enquanto o urbano surge como o lugar da resistência, as áreas agrícolas se transformam agora no lugar da vulnerabilidade.

O papel das lógicas exógenas Tais áreas atualmente funcionam sob um regime obediente a lógicas distantes. Num mundo globalizado, idêntico movimento pode ser também rapidamente implantado em outras áreas, num mesmo país ou em outro continente. Assim, a competitividade mostra-se aqui com toda força.

Redefine-se uma diversidade regional que agora não é controlada nem controlável, seja pela sociedade local, seja pela sociedade nacional. Isso pode levar à quebra da solidariedade nacional e conduzir a uma fragmentação do território e da sociedade.

As dialéticas endógenas Há, todavia, uma dialética interna a cada um dos fragmentos resultantes. Dentro de cada região, as alianças e acordos estão sempre se refazendo e a hegemonia deve ser sempre revista.

  1. O território do dinheiro

A queda-de-braço entre governos municipais e estaduais e o governo federal é mais que uma discussão técnica. A questão é a federação e sua inadequação com a emergência da globalização.

O dinheiro da globalização Com a globalização, o uso das técnicas disponíveis permite a instalação de um dinheiro relativamente invisível. O dinheiro se torna um equivalente universal e ganha uma existência autônoma em relação ao resto da economia.

Nas condições atuais, as lógicas do dinheiro impõem-se às da vida socioeconômica e política. Tais lógicas se dão segundo duas vertentes: uma é a do dinheiro das empresas que são também agentes financeiros; há, também, a lógica dos governos financeiros globais, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial. Essa inteligência global é exercida pelo que se chamaria de contabilidade global, em que governos globais avaliam economias nacionais. É por meio desse mecanismo que o dinheiro global autonomizado se torna o principal regedor do território. Hoje, o conteúdo do território escapa a toda regulação interna, objeto que ele é de uma permanente instabilidade.

Efeitos do dinheiro global O dinheiro regulador e homogeneizador contribui para quebrar a solidariedade nacional, aumentando as fraturas sociais e ameaçando a unidade nacional. Na medida em que o governo da nação se solidariza com as forças externas, levantam-se problemas para estados e municípios.

  1. Verticalidades e horizontalidades

As verticalidades As verticalidades podem ser definidas como um conjunto de pontos formando um espaço de fluxos, adequados às tarefas produtivas hegemônicas. Desse modo ordenado, o espaço de fluxos tem vocação a ser ordenador do espaço total.

As horizontalidades As horizontalidades são zonas da contiguidade que formam extensões contínuas. Valemo-nos do vocabulário de François Perroux quando se referiu a existência de um “espaço banal” em oposição ao espaço econômico. O espaço banal seria o espaço de todos; o espaço das vivências. Todos os agentes são implicados, e os respectivos tempos, mais rápidos ou mais vagarosos, são imbricados. Em tais circunstâncias cria-se uma solidariedade orgânica. As horizontalidades, além das racionalidades típicas da verticalidades, admitem as contra-racionalidades, isto é, formas de convivência e de regulação que se mantêm a despeito da vontade de unificação e homogeneização.

  1. A esquizofrenia do espaço

O cotidiano e o território O território tanto quanto o lugar são esquizofrênicos, porque de um lado acolhem os vetores da globalização, que neles se instalam para impor sua nova ordem, e, de outro, neles se produz uma contra-ordem, porque há uma produção acelerada de pobres, excluídos.

Globais, os lugares ganham um quinhão da “racionalidade” do “mundo”. Mas esta se propaga de modo heterogêneo, isto é, deixando coexistirem outras racionalidades, isto é, “irracionalidades”. É somente a partir de tais irracionalidades que é possível ampliação da consciência.

Uma pedagogia da existência De um ponto de vista da ação, o problema é ultrapassar as soluções imediatistas e alcançar a busca política genuína e constitucional de remédios estruturais e duradouros. Como passar de uma situação crítica a uma visão crítica – e, em seguida, alcançar uma tomada de consciência. Para isso, é fundamental viver a própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. Então a existência é produtora de sua própria pedagogia.

Bibliografia:

SANTOS, Milton. Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: BestBolso; 2011.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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