Os Miseráveis: Um Novo Olhar

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Introdução

A miséria, como realidade, é bem antiga. Como tema, como um escândalo que deve ser superado, passa a ser novidade no século XIX. Luis XIV, apesar de ciente da miséria que grassava em seu reino na segunda metade do século XVII, prodigava luxo e não acreditava que algo pudesse ser feito contra a pobreza. A principal causa de mudança nesse cenário foram as migrações do campo para a cidade (em função de guerras e de industrialização no começo do século XIX) onde emprego, residência e alimentação eram precários.

Victor Hugo se mostra bastante ingênuo quanto à pobreza, Considera que é o consumo dos mais ricos que dá emprego aos pobres. Comentário conservador, não serve em um tempo em que os direitos passam a ser o fundamento da política. Ainda assim, pode compreender o peso das lutas sociais em função da miséria.

Para quem lê a história a posteriori e conhece Marx, o autor pode parecer superficial. É uma crítica anacrônica, pois Victor Hugo foi o maior responsável por se constituir, na França e num mundo que lia sentia com base na cultura Francesa, uma preocupação com a miséria, tema que deslancha e assume uma fisionomia compassiva e solidária.

No Antigo Regime (reinado dos três Luíses que precederam a Revolução Francesa), o rei dava-se a ver. Luís XIV oferecia-se em espetáculo a quem o rodeasse. Por ter o quarto invadido quando criança, Luís XIV mandou construir Versalhes e retirou-se de Paris. Com a turbulência que ameaçava a monarquia, a inteligência do rei consistiu em criar um silencia à sua volta, feito de respeito, temor e admiração. A  etiqueta foi regra dessa nova nova sociabilidade. A ideia era empalidecer todos que estivessem perto dele. Daí a importância do palácio, de tudo que chamasse atenção para a vista.

Dando continuidade ao reinado de seu pai, Luís XIII, que, demoliu castelos e decapitou quem duelava e substituiu as facas de gume pelas de ponta curva, para coibir a violência dos nobres e o exercício de direitos régios por outros que não o próprio Rei, Luis XIV instaurou, além da etiqueta, a ideia de que só vale o que está perto do rei, quem o visse ou fosse visto por ele. A Corte é um espetáculo, nada fora dela vale a pena.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, o olhar se tornou fundamental. Descartes usa como critério da verdade a evidência, aquilo cuja verdade salta aos olhos. As artes passam por grande avanço, no período clássico, mas a pobreza não é o alvo desse olhar. Mesmo no século seguinte, Luís XV, o Rei-Sol torna seu café da manhã uma atração para os burgueses de Paris. A realeza, a nobreza e o luxo são ainda o objeto privilegiado do olhar. Por isso é tão importante que Victor Hugo perceba a importância do olhar do miserável. Ele não só dá ao pobre dignidade, como torna-o personagem do mundo. Ele passa a ser visto, passa-se a falar dele.

Em julho de 1830, Paris se revolta contra o Rei Carlos X, que tentava restaurar o absolutismo monárquico. São três dias de combate, conhecidos como “Três Jornadas Gloriosas”. É considerado o último grande movimento mais político do que social da história da França. O que 1830 divide é o ideal político do social. As condições sociais insuportáveis em que viviam os pobres e miseráveis logo fariam, do operário e do burguês, inimigos. Só isso é possível entender o fato de os trabalhadores não mais quererem servir de carne de canhão nas lutas da burguesia. Essa importância das lutas sociais na política francesa – e europeia – é o que distinguirá o Velho Mundo do Novo.

É esse o universo que Victor Hugo apresenta: as lutas sociais estão surgindo na cena  pública. Antes, surgiam como desdobramento radical de outros movimentos, como a Revolução Inglesa de 1640 ou Revolução Francesa, de 1789. Com a década de 1830, elas acontecem por contra própria. E Os Miseráveis é a grande obra a, além de mostrar o espetáculo da pobreza, despertar nossos sentimentos pelos mais pobres. É uma maneira de negar que os operários sejam perigosos. Toda uma política de solidariedade, de apoio aos exploradores vai ter nos sentimentos difundidos por Victor Hugo, seu combustível. Essa política pode até ser criticada como piegas, mas ela é fundamental para entender como uma cultura de massas, vendidas aos milhares de exemplares, passa a tematizar a infelicidade das massas trabalhadoras. É muito melhor do que a mania pela segurança pública que hoje a mídia constrói.

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Bibliografia:

RIBEIRO, Renato Janine. Um Novo Olhar. In: Hugo, Victor. Os Miseráveis. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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