Laranja Mecânica: Violência ou Violação?

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O filme de Stanley Kubrick é um filme sobre o futuro. Nada que se assemelhe ao futuro ascético, como em 2001 – Uma odisséia no espaço. Aqui, o passado está presente em um futuro que o incorpora e não o destrói. Neste “futuro”, o sexo brota por todos lados, nas mais variadas formas e dimensões. O sexo também está ligado a três das quatro cenas de agressão que Alex comete antes de ser preso.

É lugar-comum interpretar este filme de Kubrick como um libelo contra a violência. Entretanto, o filme também nos mostra como a definição de “violência” é fluída por si só, ao nos apresentá-la em várias formas e imagens diferentes. Além disso, uma análise mais detida dessas imagens poderá nos apontar outras possibilidades interpretativas. Lembremos das imagens da briga com Billy Boy. A mistura de ingredientes, como a música que toca e a voz calma do narrador, dá à cena um ar que parece não combinar com a violência das imagens.

A cena do espancamento do mendigo, momentos antes, havia utilizado os mesmos referenciais. Mas o close do rosto de Alex, tomado de perfil, olhando para baixo, e falando com a voz pausada é, na verdade, mais aterrorizador do que a cena do espancamento que se segue. Os problemas que Kubrick está nos propondo vão se tornando pertinentes pelo fato de mostrar a violência como uma atitude amoral de Alex e de seu bando. Eles não a executam a favor ou contra nada. Eles simplesmente a fazem, sem mais nem menos.

A cena na fazenda da saúde é bastante elucidativa. A primeira imagem é a da dona do casarão fazendo ginástica, com as pernas abertas voltadas em nossa direção. Próxima à porta pela qual Alex entra há uma escultura na forma de um pênis em ereção. Ela exclama: “não toque nela. Isto é uma obra de arte muito importante”. A frase surge como se fosse uma justificação para que a imagem pudesse passar pelos censores.

Ao se sentir ofendida por Alex, a senhora resolve agredi-lo com um busto que estava sobre a mesa e este, para se defender, empunha a escultura. Estas imagens, que quase equivalem a uma tourada sexual, terminam com a senhora caída no chão e aquela imensa cabeça fálica que desce em direção ao seu rosto. Esta cena marca uma mudança radical na trajetória de Alex, quando ele é preso e começa a sua derradeira peregrinação.

O momento crucial de sua domesticação pelo método Ludovico nos é mostrado através das sessões de “terapia”. Alex é submetido à apreciação de filmes que, com a interferência de drogas que lhe são injetadas, vão se transformar na sua referência do que não é para ser feito. O desenrolar deste tratamento nos é dado a perceber apenas pelas expressões que vão tomando conta do rosto de Alex.

No decorrer desses filmes, Alex demonstra certo prazer e, paulatinamente, este sorriso se transforma. Este processo atingirá o seu auge quando ele escuta a IX de Beethoven e começa a gritar desesperadamente. São reações controversas com suficiente carga de ambiguidade – seu olho azul lhe dá um ar angelical ao mesmo tempo em que suas expressões o transformam em algo demoníaco. Kubrick está nos fazendo passar por um processo semelhante ao que ele está promovendo em Alex. A terapia é visual, e é através da visão que as proposições vão se impregnar no próprio corpo de Alex. De nada adianta achar que é errado. É preciso sentir em seu próprio corpo que é errado, sem que possa ou mesmo precise pensar sobre o assunto.

Depois de ser liberado, ele senta-se na beira do palco, tendo o ministro de Estado de um lado e o ministro de Deus do outroCada um deles coloca a mão em um dos ombros de Alex, ladeado e esmagado igualmente por duas das mais importantes “forças” sociais: O Estado e a Igreja. Mesmo recuperado, ele acaba sendo recusado pela Família, que foi recomposta pela “aquisição” de outro filho. Na sequência, seus ex-companheiros vão excluí-lo com um brutal espancamento para, por fim, ele realizar seu último retorno aquela Home, agora não tão sweet home.

Vemos outra vez o escritor, que reage ao som da campainha. Cena quase igual a anterior, porém o escritor senta-se agora sobre uma cadeira de rodas, consolidando a visão de impotência, que a cor da máquina de escrever (antes vermelha – sinal de virilidade – agora cinza) e a presença de um halterofilista, a se exercitar onde a mulher antes lia, insinuavam. O escritor se dá conta, ao ouvir Alex cantando na banheira, que foi ele que o espancou e que levou sua mulher a se deixar morrer. Ele serve um vinho com sonífero a Alex, que será então trancado em uma outra casa, onde dois grandes alto-falantes tocam em uma altura ensurdecedora a IX de Beethoven, que Alex não suporta mais ouvir. A ideia era fazer com que ele se atirasse pela janela e que seu suicídio se transformasse em uma bandeira de campanha contra o governo representado no filme pelo ministro.

Aqui talvez apareça um dos fundamentos do fato de o filme ter sido taxado de fascista com tanta facilidade. A base para tal interpretação advém da apresentação de Alex como um personagem pelo qual os espectadores vão adquirindo simpatia, o que legitimaria a violência que ele pratica, igualada neste contexto à “violência” que a Igreja, o Estado e a Família também perpetraram sobre ele. Preferimos, entretanto, olhar em uma outra direção. Não estaria ele colocando em questão o fato de alguns pensarem ser possível construir um mundo diferente utilizando-se os mesmos métodos condenados quando utilizados pelos adversários?

O fato de as atitudes amorais de Alex deixarem em evidência a moralidade de todos os seus controladores nos mostra que não é exatamente sobre violência que se fala. O que Kubrick nos mostra são imagens sobre a dissidência. Alex é, antes de tudo, um dissidente. E o filme nos mostra as várias tentativas de domesticar esta dissidência, que, curiosamente, mostram-se repulsivas, tanto em seus métodos como em seus resultados, do adestramento corporal aos arrotos que sobram como efeito colateral.

Não percamos de vista o potencial questionador que Alex parece encarnar e que suas atitudes parecem mostrar em dois níveis diferentes: num primeiro momento, dirigidas aos outros personagens; num segundo, dirigidas também a nós que assistimos o filme. Sua forma distante e seca de fazer tudo, sua violência não visualmente violenta, sua sexualidade sem sensualidade, sua adesão amoral a qualquer moralidade que se apresente, tudo isto ressalta para nós os parâmetros com que construímos a nossa própria moralidade. Assim, Kubrick acaba nos forçando a reavaliar os valores que orientam a nossa própria conduta e a sua homogeneização.

Sua importância questionadora vai situar-se também no nível do questionamento de proposições visuais, e não naquele de uma ação política direta. Laranja Mecânica parece dar forma visual aos escritos de Marcuse, em especial quando ele afirma que “a ruptura com a continuidade do poder tem também de ser uma ruptura com o vocabulário do poder”, com o seu imaginário que, sem perceber, fazemos também ser nosso, nos apontando os seus devidos lugares em que as coisas devem estar.

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Bibliografia:

MENEZES, Paulo. Laranja Mecânica: violência ou violação?. In: Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 9(2): 53-77, outubro de 1997.

Clique aqui para acessar a íntegra do artigo.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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