Usos & Abusos da História Oral: Pierre Bourdieu – A Ilusão Biográfica

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HIstoria oral

A história de vida é uma dessas noções do senso comum que entraram como contrabando no universo científico. Falar de história de vida é pelo menos pressupor que uma vida é inseparavelmente o conjunto dos acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato dessa história. Isto é aceitar tacitamente a filosofia da história no sentido de sucessão de acontecimentos históricos.

Decorre dessa teoria o fato de que a vida constitui um conjunto coerente e orientado, que deve ser apreendido como expressão unitária de uma “intenção” subjetiva e objetiva, de um projeto. O relato, seja ele biográfico ou autobiográfico, propõe acontecimentos que, sem terem se desenrolado sempre em sua estrita sucessão cronológica, pretendem organizar-se em sequências ordenadas segundo relações inteligíveis. É provável que esse ganho de coerência esteja na origem do interesse que os investigados têm pelo empreendimento biográfico. Essa propensão a tomar-se o ideólogo de sua própria vida, selecionando certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões para lhes dar coerência, conta com a cumplicidade natural do biógrafo.

Não podemos nos furtar à questão dos mecanismos sociais que favorecem ou autorizam a experiência comum da vida como unidade e como totalidade. De fato, como responder, sem sair dos limites da sociologia, à velha indagação empirista sobre a existência de um eu irredutível à rapsódia das sensações singulares? Sem dúvida, podemos encontrar no habitus o princípio ativo da unificação das práticas e das representações. Mas essa identidade prática somente se entrega à intuição na inesgotável série de suas manifestações sucessivas, de modo que a única maneira de apreendê-la como tal consiste talvez em tentar recuperá-la na unidade de um relato totalizante.

O mundo social dispõe de todo tipo de instituições de totalização e de unificação do eu. A mais evidente é, obviamente, o nome próprio. Por essa forma institui-se uma identidade social constante e durável, que garante a identidade do indivíduo biológico em todos os campos possíveis onde ele intervém como agente, isto é, em todas as suas histórias de vida possíveis. É o nome próprio “Marcel Dassault” que assegura a constância através do tempo e a unidade através dos espaços sociais dos diferentes agentes sociais que são a manifestação dessa individualidade: o dono de empresa, o dono de jornal, o deputado, o produtor de filmes etc.; e não é por acaso que a assinatura, que autentica essa identidade, é a condição jurídica das transferências de um campo a outro, isto é, de um agente a outro, das propriedades ligadas ao mesmo indivíduo instituído. O nome próprio é o fundamento da unidade das sucessivas manifestações do portador e da possibilidade socialmente reconhecida de totalizar essas manifestações em registros oficiais, curriculum vitae, cursus honorum, ficha judicial, necrologia ou biografia. A nominação e a classificação introduzem divisões nítidas, absolutas, indiferentes às particularidades circunstanciais e aos acidentes individuais, no fluxo das realidades biológicas e sociais. Eis por que o nome próprio não pode descrever propriedades nem veicular nenhuma informação sobre aquilo que nomeia: como o que ele designa é uma rapsódia heterogênea e disparatada de propriedades biológicas e sociais em constante mutação, todas as descrições seriam válidas somente nos limites de um estágio ou de um espaço.

Assim o nome próprio é o suporte daquilo que chamamos de estado civil, isto é, desse conjunto de propriedades (nacionalidade, sexo, idade etc.) ligadas a pessoas às quais a lei civil associa efeitos jurídicos e que instituem as certidões de estado civil. Produto do rito de instituição inaugural que marca o acesso à existência social, ele é o verdadeiro objeto de todos os sucessivos ritos de instituição ou de nominação através dos quais é construída a identidade social: essas certidões de atribuição, produzidas sob o controle e com a garantia do Estado, também são designações válidas para todos os mundos possíveis, que desenvolvem uma verdadeira descrição oficial dessa espécie de essência social, transcendente às flutuações históricas, que a ordem social institui através do nome próprio.

Tudo leva a crer que o relato de vida tende a aproximar-se do modelo oficial da apresentação oficial de si, carteira de identidade, ficha de estado civil, curriculum vitae, biografia oficial, bem como da filosofia da identidade que o sustenta. As leis que regem a produção dos discursos na relação entre um habitus e um mercado se aplicam a essa forma particular de expressão que é o discurso sobre si; e o relato de vida varia, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, segundo a qualidade social do mercado no qual é oferecido – a própria situação da investigação contribui inevitavelmente para determinar o discurso coligido [reunido]. Mas o objeto desse discurso, isto é, a apresentação pública e a oficialização de uma representação privada de sua própria vida, pública ou privada, implica um aumento de coações e de censuras específicas. E tudo leva a crer que as leis da biografia oficial tenderão a se impor muito além das situações oficiais, através dos pressupostos inconscientes da interrogação e também através da situação de investigação, que poderá variar desde essa forma doce de interrogatório oficial que é a investigação sociológica até a confidência; através, enfim, da representação mais ou menos consciente que o investigado fará da situação de investigação, em função de sua experiência direta ou mediata de situações equivalentes (entrevista de escritor célebre ou de político, situação de exame etc.), e que orientará todo o seu esforço de apresentação de si, ou melhor, de produção de si.

Tentar compreender uma vida como uma série de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um “sujeito” cuja constância certamente é a de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações. Os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos nos diferentes estados sucessivos da estrutura da distribuição das diferentes espécies de capital que estão em jogo no campo considerado. Não podemos compreender uma trajetória sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente considerado ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis.

A necessidade desse desvio pela construção do espaço parece tão evidente quando é enunciada que seria difícil compreender que não se tenha imposto de imediato a todos os pesquisadores, se não soubéssemos que o indivíduo, a pessoa, o eu, para o qual nos conduz irresistivelmente uma pulsão narcísica socialmente reforçada, é também a mais real, em aparência, das realidades, o ens realissimum, imediatamente entregue à nossa intuição fascinada, intuitus personae.

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Bibliografia:

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaina & FERREIRA, Marieta M. (orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro : Fundação Getúlio Vargas.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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