As Etapas do Pensamento Sociológico: Tocqueville – O Tipo Ideal da Sociedade Democrática

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O primeiro volume de A Democracia na América e O Antigo Regime e a Revolução desenvolvem dois aspectos do método sociológico de Tocqueville: de um lado, o retrato de uma sociedade particular, a americana; de outro, a interpretação sociológica de uma crise histórica, a da Revolução Francesa.

O segundo volume de A Democracia na América é a expressão de um terceiro método característico do autor: a constituição de uma espécie de tipo ideal, a sociedade democrática, a partir do qual ele deduz algumas das tendências da sociedade futura.

No segundo tomo de A Democracia na América, Tocqueville imagina os traços estruturais de uma sociedade democrática, definida pelo desaparecimento progressivo das diferenças de classe e pela uniformidade crescente das condições de vida. Em seguida, enuncia as indagações seguintes: qual o resultado disso no que concerne ao movimento intelectual, no que concerne aos sentimentos dos americanos, no que concerne aos costumes propriamente ditos e, por fim, no que concerne à sociedade política? No jargão da sociologia moderna, são questões que pertencem à sociologia do conhecimento.

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O título do capítulo quatro do livro I lembra uma das comparações preferidas de Tocqueville, entre os franceses e os americanos: “Por que os americanos nunca se apaixonaram tanto quanto os franceses pelas ideias gerais em matéria política?”.

A essa questão Tocqueville responde que os franceses tem o gosto da ideologia porque durante séculos não se puderam ocupar efetivamente com os assuntos públicos. Essa interpretação tem um alcance amplo. De modo geral, os estudantes jovens cultivam tanto mais as teorias em matéria política quanto menos experiência têm da atividade política.

Tocqueville diz que uma sociedade democrática tem tendência a crer na perfectibilidade indefinida da natureza humana. Uma sociedade em que a ascensão é possível tende a conceber, no plano filosófico, uma ascensão comparável para toda a humanidade. Uma sociedade aristocrática aceita isto com dificuldade, pois essa crença seria contraditória com a fórmula ideológica sobre a qual ela repousa. Nesse caso, há uma relação íntima entre a organização social e a ideologia, servindo esta última como fundamento da primeira.

Tocqueville observa que os historiadores democráticos tendem a explicar os acontecimentos por forças anônimas e por mecanismos irresistíveis da necessidade histórica, enquanto os historiadores aristocráticos tendem a acentuar o papel dos grandes homens. Nisso, certamente tinha razão. A teoria da necessidade histórica, que nega a eficácia dos acasos e dos grandes homens, pertence indubitavelmente à era democrática em que vivemos.

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Na segunda parte, Tocqueville procura acentuar os sentimentos fundamentais em toda sociedade democrática.

Numa sociedade democrática a paixão pela igualdade terá mais força que o gosto pela liberdade. A sociedade se preocupará mais em apagar as desigualdades entre os indivíduos e os grupos do que em manter o respeito pela legalidade e a independência pessoal. O bem estar-material e a igualdade não podem, com efeito, criar uma sociedade tranquila e satisfeita, pois cada indivíduo se compara com os outros, e a prosperidade nunca está garantida. Superficialmente turbulentas, elas se inclinarão para a liberdade, mas é de temer que os homens amem a liberdade mais como condição do bem-estar material do que por si mesma. É concebível que, quando as instituições livres parecem funcionar mal e a prosperidade for comprometida, os homens se inclinem a sacrificar a liberdade na esperança de consolidar o bem-estar ao qual tanto aspiram.

Para Tocqueville, uma sociedade democrática é uma sociedade individualista, em que cada um tende a se isolar dos outros, com sua família. Curiosamente, o isolamento também é característico das sociedades despóticas, pois o despotismo tende a isolar os indivíduos uns dos outros. O resultado, porém, não é a inclinação ao despotismo, pois certas instituições podem impedir o desvio no sentido deste regime corrompido. Essas instituições são associações livremente criadas pela inciativa dos indivíduos, que devem interpor-se entre o indivíduo solitário e o Estado todo-poderoso.

Uma sociedade democrática tende à centralização e comporta o risco de uma gestão pela administração pública do conjunto das atividades sociais. Tocqueville concebeu a sociedade totalmente planificada pelo Estado; mas essa administração representa, no seu esquematismo, o próprio tipo de uma sociedade despótica, que devemos temer.

As sociedades democráticas são, em conjunto, materialistas, o que significa que o objetivo da coletividade é fazer com que o maior número possível de pessoas vivam do melhor modo. Tocqueville lembra, todavia, que como contrapartida desse materialismo ambiente surgem de vez em quando explosões de espiritualismo exaltado, erupções de exaltação religiosa. Os dois fenômenos opostos fazem parte da essência de uma sociedade democrática.

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A terceira parte do segundo volume de A Democracia na América trata dos costumes. Focalizarei sobretudo as ideias de Tocqueville a respeito das revoluções e da guerra.

Tocqueville explica primeiramente que os costumes das sociedades democráticas tendem a se abrandar, que desaparecem os refinamentos da polidez aristocrática. A gradação da hierarquia aristocrática que sobrevive nas relações interindividuais, nas sociedades europeias, desaparece cada vez mais numa sociedade fundamentalmente igualitária como é a americana.

Depois, examina as guerras e as revoluções, em função desse tipo ideal da sociedade democrática. Afirma em primeiro lugar, que as grandes revoluções políticas ou intelectuais pertencem à fase de transição entre as sociedade tradicionais e as sociedades democráticas, e não à essência destas últimas. As grandes revoluções nas sociedades democráticas se tornarão raras. Estas sociedades são fundamentalmente antirrevolucionárias porque, à medida que melhoram as condições de vida, aumenta o número dos que tem alguma coisa a perder com uma revolução.

Tocqueville pensava que as sociedades democráticas seriam pouco propensas à guerra. A guerra é considerada pela sociedade democrática como um intervalo desagradável na sua existência normal, que é pacífica. Em tempos de paz, pensa-se o menos possível na guerra e não se torna nenhuma precaução; assim, as primeiras batalhas são geralmente derrotas. Contudo, se o Estado democrático não é inteiramente derrotado no curso dos primeiros combates, termina por se mobilizar completamente, e leva a guerra até a vitória total. O fato de que as sociedades democráticas sejam pouco inclinadas à guerra não significa que não entrem em guerra.

A quarta e última parte é conclusiva. As sociedades modernas são atravessadas por duas revoluções; uma tende a realizar a igualdade crescente de condições, mas também concentrar cada vez mais a administração na cúpula, a reforçar indefinidamente os poderes da gestão administrativa; a outra debilita sem cessar os poderes tradicionais. Supondo-se essas duas revoluções, revolta contra o poder e centralização administrativa, as sociedades democráticas enfrentam a alternativa das instituições livres ou do despotismo.

Como sociólogo, Tocqueville pertence à descendência de Montesquieu. Combina o método do retrato sociológico com a classificação dos tipos de regime e dos tipos de sociedade, e a propensão a construir teorias abstratas a partir de um pequeno número de fatos. Não acredita que a história passada tenha sido determinada por leis inexoráveis e que os acontecimentos futuros estejam predeterminados. Como Montesquieu, Tocqueville deseja tornar a história inteligível, não quer suprimi-la. Ora, os sociólogos do tipo de Comte e de Marx estão sempre inclinados a suprimir a história, pois conhecê-la antes de que se realize é tirar-lhe a dimensão propriamente humana, a da ação e da imprevisibilidade.

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Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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