As Etapas do Pensamento Sociológico: Auguste Comte – Da Filosofia à Religião

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O sociólogo da unidade humana, Auguste Comte, tem um ponto de vista filosófico, que comanda a fundação da sociologia. A vinculação indissolúvel entre filosofia e sociologia resulta do princípio do seu pensamento, isto é, a afirmação da unidade humana, que implica uma determinada concepção do homem, da sua natureza, da sua vocação, da relação entre indivíduo e coletividade. Convém também identificar as ideias filosóficas de Comte, referenciando o seu pensamento às três intenções que encontramos em sua obra: a intenção do reformador social, a intenção do filósofo que sintetiza os métodos e os resultados das ciências e, por fim, a intenção do homem que assume a posição de pontífice de uma nova religião, a religião da humanidade.

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A maioria dos sociólogos se preocupou em agir ou em exercer influência sobre a evolução social. De que forma o sociólogo passa da teoria à prática?

Montesquieu admite uma passagem, prudente e limitada, da ciência para a ação; soluções parciais, não uma solução global. Auguste Comte, por outro lado, acredita possuir a solução para o problema social. Na sua representação da reforma necessária, Comte desvaloriza o econômico e o político, em favor da ciência e da moral. Reformador social, quer transformar a maneira de pensar dos homens. Preocupa-se, antes de mais nada, em difundir uma maneira de pensar que levará por si mesma à justa organização da sociedade e do Estado. Sua tarefa é fazer com que todos se tornem positivistas; mostrar a todos que a organização positivista é racional para a ordem temporal, ensinar-lhes o altruísmo e o amor na ordem espiritual ou moral.

Como Montesquieu, Comte não acredita que a revolução poderá resolver a crise moderna e levar as sociedades à plena realização da sua vocação. Admite que é necessário tempo para que as sociedades dilaceradas de hoje se transformem nas sociedades harmoniosas do futuro. Simultaneamente, aceita o papel da ação e justifica os esforços dos homens de boa vontade pelo caráter transformável da fatalidade. A liberdade reservada aos homens se manifesta na duração e nas modalidades da evolução, em si mesma inevitável.

Portanto, para Comte, o sociólogo reformador social é uma espécie de profeta pacífico, que instrui os espíritos, congrega as almas e, secundariamente, atua como grande sacerdote da religião sociológica.

Desde sua juventude, Comte teve dois objetivos principais: reformar a sociedade e estabelecer a síntese dos conhecimentos científicos. A vinculação entre estas duas ideias é clara – essa reforma das crenças coletivas só pode ser uma consequência do desenvolvimento científico.

A síntese filosófica das ciências pode ser ordenada em torno de quatro ideias:

1) Tal como é concebida por Auguste Comte, a ciência procura verdades definitivas. As leis estabelecidas pelos cientistas, para Comte, devem ser aceitas de uma vez por todas, e não perpetuamente questionadas. Se as ciências levam à sociologia, isso se deve ao fato de que proporcionam um conjunto de proposições verificadas, que constituem o equivalente dos dogmas do passado.

2) Auguste Comte acredita que o conteúdo essencial da verdade científica é representado pelo que se chama de leis, isto é, relações necessárias entre fenômenos ou fatos dominantes ou constantes, característicos de um certo tipo de ser.

A ciência de Auguste Comte se limita a constatar a ordem que reina no mundo, para ter condições de explorar os recursos que nos oferece a natureza, e para por ordem em nosso próprio espírito. É o princípio de que são tiradas as receitas técnicas como consequências inelutáveis; tem valor educativo para nossa consciência. Se não houvesse no mundo exterior uma ordem que descobrimos e que é a origem e o princípio da nossa inteligência, nossa própria consciência seria caótica, as impressões subjetivas se misturariam confusamente e nada produziriam de inteligível. Essa concepção da ciência leva, logicamente, à sociologia e à moral, como ao seu resultado e à realização da sua intenção imanente.

Toda ciência que não tivesse o mérito de nos revelar uma ordem, ou de nos permitir agir, era, a seus olhos, inútil, e portanto injustificável.

3) Quando Comte procura reunir os resultados e os métodos das ciências, descobre, ou pensa descobrir, uma estrutura do real, essencial para a compreensão do homem por ele mesmo e das sociedades pelos sociólogos: uma estrutura hierárquica dos seres, segundo a qual cada categoria está sujeita a determinadas leis. Há na natureza uma hierarquia, que vai dos fenômenos mais simples até os mais complexos, da natureza inorgânica à orgânica e, por fim, aos seres vivos e ao homem.

Essa visão hierárquica permite situar os fenômenos sociais no seu lugar e, ao mesmo tempo, determinar a própria hierarquia social: o superior é condicionado pelo inferior, como os fenômenos da vida são condicionados, mas não determinados, pelos fenômenos físicos e químicos.

4) As ciências (que constituem a expressão e a realização do espírito positivo e proporcionam os dogmas da sociedade moderna) são espreitadas por um perigo permanente: o da dispersão na análise. Os cientistas estudam um pequeno setor da realidade, uma pequena parte de uma ciência, sem ambição de reformar a sociedade. Ciências puramente analíticas terminariam por ser mais prejudiciais que úteis. De que nos serve uma acumulação indefinida de conhecimentos?

É necessário que ocorra uma síntese das ciências que tenha como centro ou princípio a própria sociologia. A reunião dos conhecimentos e métodos só é possível se se toma como ponto de referência a humanidade. Se estivéssemos animados por curiosidade pura e simples, poderíamos limitar-nos a observar indefinidamente a diversidade dos fenômenos e as suas relações.

Para Comte, a sociologia é, portanto, a ciência do entendimento. O homem só pode entender o espírito humano se observar sua atividade e sua obra na sociedade e através da história. O espírito humano não pode ser conhecido por introspecção, à maneira dos psicólogos, ou pelo método da análise reflexiva, à maneira de Kant.

A sociologia é também a ciência do entendimento porque o modo de pensar e a atividade do espírito são, em todos os momentos, solidários com o contexto social. O espírito de cada época e de cada pensador está vinculado a um contexto social. É preciso compreender esse contexto para poder compreender como funciona o espírito humano.

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Comte é o fundador de uma religião, e assim se considerava. Acreditava que a religião da nossa época pode e deve ter inspiração positivista. Já não pode ser a religião do passado. Por outro lado, a religião corresponde a uma necessidade permanente do homem, porque precisa amar algo que seja maior do que ele. As sociedades tem necessidade da religião porque precisam de um poder espiritual que consagre e modere o poder temporal e lembre aos homens que a hierarquia das capacidades não é nada ao lado da hierarquia dos méritos.

A religião que busque o amor e a unidade será a religião da humanidade. O que Auguste Comte nos recomenda é o amor à excelência de que alguns homens foram capazes, e na direção da qual todos os homens devem se elevar. O Grande Ser que Auguste Comte nos convida a amar é o que os homens tiveram ou fizeram de melhor.

A religião de Comte é superior a muitas outras concepções religiosas ou semi-religiosas que outros sociólogos difundiram, deliberadamente ou não. Mais vale amar a humanidade essencial representada e simbolizada pelos grandes homens do que amar uma ordem econômica e social, a ponto de querer a morte de todos os que não acreditam nessa doutrina de salvação.

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Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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