As Etapas do Pensamento Sociológico: Vilfredo Pareto – Ciência e Política e Uma Obra Contestada

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Ciência e política

Em que medida Pareto conseguiu estudar cientificamente a sociedade, como era sua intenção? Em outras palavras, em que medida logrou estudar logicamente as condutas não-lógicas?

Segundo o próprio Pareto, um estudo lógico-experimental das condutas não-lógicas deve ser moral e politicamente neutro. Ora, é evidente que os escritos de Pareto estão repletos de julgamentos de valor. Este contraste pode servir de ponto de partida para nosso exame crítico.

Os alvos de Pareto revelam o sistema intelectual, moral e político do autor do Traité de sociologie générale. Para ele, nada mais contrário ao espírito científico do que a supervalorização da ciência, do que a tendência a pensar que ela nos pode dar, como pensava Durkheim, uma doutrina política ou uma religião. Para Pareto, a razão científica só se sustenta se tem consciência das suas limitações. A ciência estabelece simplesmente as uniformidades verificadas pela concordância entre nossas ideias e a experiência; não esgota a realidade. Pareto não nega que, a longo prazo, aumentará o papel da conduta determinada pela razão, mas este aumento não levará a uma sociedade cimentada pela razão cientifica. Por definição o pensamento lógico-experimental não pode fixar os objetivos individuais ou coletivos, e a sociedade só mantém sua unidade na medida em que os indivíduos consentem em sacrificar seu próprio interesse ao interesse coletivo.

Em outras palavras, não se podem convencer os indivíduos, por meio de raciocínios lógico-experimentais, de que devem sacrificar-se pela coletividade. Se a maior parte do tempo os indivíduos obedecem a estas normas é porque não se converteram racionalmente ao egoísmo a ponto de só agir no próprio interesse. Os homens agem por paixão ou por sentimento, e são as paixões e os sentimentos que os fazem agir de modo que a sociedade possa existir.

Tendemos a crer que o progresso da moralidade acompanha o progresso da razão e da civilização; mas Pareto afirma que a razão não pode ganhar sem que o egoísmo triunfe, que as cidades onde se desenvolve o espírito humanitário não estão longe de grandes efusões de sangue, que as elites mais toleráveis porque menos violentas atraem as revoluções que vão destruí-las.

Esta listagem dos inimigos de Pareto, inimigos políticos – os humanitaristas, os burgueses decadentes – e inimigos científicos – os filósofos que interpretam racionalmente as condutas humanas, os moralistas que pretendem demonstrar a harmonia preestabelecida entre os interesses particulares e o interesse coletivo -, permite compreender os diferentes sentidos que podemos atribuir ao pensamento do autor do Traité de sociologie générale.

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No período entre as duas guerras, Pareto foi interpretado com base no fascismo. Os fascistas italianos afirmavam que os povos são sempre governados por minorias. Lembravam que as funções dos dirigentes políticos nem sempre são agradáveis. Pareto admitia que o objetivo da política era reduzir o mais possível a violência histórica, mas acrescentava que a pretensão ilusória de suprimir toda violência levava quase sempre ao seu crescimento desmesurado. Os fascistas afirmavam que as elites governantes, para serem eficazes, precisam ser violentas.

Pareto morreu em 1923, pouco tempo depois da ascensão de Mussolini ao poder. Para ele o fascismo era uma reação do corpo social aos problemas causados pelo desenvolvimento exagerado do espírito humanitarista e pelo enfraquecimento da vontade burguesa.

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Que regime político-econômico mereceria, teoricamente, as preferências de Pareto? Pareto teria sido favorável a um governo forte e liberal, tanto do ponto de vista econômico como do científico. Recomendaria o liberalismo intelectual aos governos porque a seus olhos a liberdade de investigação e de pensamento era indispensável ao progresso da ciência; e a longo prazo, toda a sociedade se beneficia com o progresso do pensamento lógico-experimental.

Portanto, se não é impossível interpretar Pareto no sentido do fascismo, é igualmente possível interpretá-lo num contexto liberal e empregar os argumentos paretianos para justificar as instituições democráticas ou plutodemocráticas.

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Pareto não é porta-voz de nenhum grupo. Ele sugere uma espécie de contradição intrínseca que haveria entre a verdade científica e a utilidade social. Cada indivíduo é livre para escolher a verdade, movido por sua preferência pessoal, ou a utilidade, para servir a sociedade a que pertence. A lição política de Pareto é, portanto, ambígua por essência.

Uma obra contestada

O Traité de sociologie générale ocupa um lugar especial na literatura sociológica. Alguns o consideram uma das obras-primas do espírito humano; outros, com igual paixão, o veem como um monumento de estupidez.

Em outras palavras, confrontando sua experiência de engenheiro e de economista com a observação do cenário político, Pareto concebeu o tema fundamental da sua obra, a saber, a antinomia entre as ações lógicas e as ações não-lógicas. Constatando como funcionam as instituições representativas, conclui que são sempre as minorias privilegiadas que fazem o jogo, todo homem político é interessado, ou então ingênuo, e muitas vezes o menos honesto, é mais útil à sociedade.

O método paretiano não é nem propriamente psicológico nem especificamente histórico: é generalizador. Pareto se mantém no nível intermediário dos resíduos, isto é, das expressões dos sentimentos perceptíveis através das condutas. Em outras palavras, o método intermediário das generalidades sociológicas se mantém num nível formal. Não ousaria dizer que os resultados são falsos, mas pode ser que nem sempre sejam instrutivos.

Finalmente, surpreende constatar que Pareto distingue seis classes de resíduos, mas que, na segunda parte do Traité, quando aborda os ciclos de mútua dependência, só duas classes tem uma função importante, o instinto das combinações e a persistência dos agregados. O primeiro é a origem da investigação intelectual, do progresso da ciência e do desenvolvimento do egoísmo. A persistência dos agregados corresponde ao equivalente do conjunto dos sentimentos religiosos, nacionais, patrióticos que mantem as sociedades. Qualquer que seja a verdade parcial desta oposição, não se pode deixar de perguntar se é indispensável escrever tantos capítulos para chegar à velha antítese da conduta lógica e da ação pelo sentimento.

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Se a primeira parte do Traité  o método se detém no limiar da psicologia, na segunda parte as elites são caracterizadas, sobretudo, pelos seus traços psicológicos. As peripécias das histórias nacionais são interpretadas pelos sentimentos, pelos humores, pelas atitudes das elites e das massas.

Pode-se considerar, ao mesmo tempo, que algumas das suas afirmativas se aplicam efetivamente a todas as sociedades e que, no entanto, não apreendem o essencial. De um lado, Pareto caracteriza os regimes pela psicologia das elites, mais do que pela organização dos poderes e da sociedade; de outro, sugere que o mais geral é também o mais importante. Assim, desvaloriza as diferenciações históricas e tira quase todo o significado do próprio devenir.

Minha última observação diz respeito à teoria do lógico e do não-lógico. É bem verdade que se pode complicar progressivamente a classificação de Pareto, mas a dualidade ações lógicas – ação pelo sentimento leva Pareto a uma representação dualista da natureza humana, e a uma tipologia dualista das elites e dos regimes. Estes antagonismos estilizados podem suscitar uma filosofia que o próprio Pareto não subscreveria. Como a única justificação incontestável do poder de uma elite é o êxito, é tentador procurar alcançar êxito por meios eficazes a curto prazo. Diante de uma elite astuciosa, que quer persuadir, o revolucionário poderá recorrer à coerção com a consciência tranquila.

Invista mo Resumo da Obra

Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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