As Etapas do Pensamento Sociológico: Vilfredo Pareto – Resíduos e Derivações

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A teoria dos resíduos leva a uma classificação que se apresenta como uma espécie de análise teórica da natureza humana para uso dos sociólogos. Pareto distingue, inicialmente, seis classes de resíduos:  “instinto das combinações”; “persistência dos agregados”; “necessidade de manifestar os sentimentos por meio de atos exteriores”; “resíduos relacionados com a sociabilidade”;  “integridade do indivíduo e dos seus dependentes” e a dos “resíduos sexuais”.

As mais importantes são indubitavelmente as duas primeiras.

1. A primeira classe está constituída pelos resíduos correspondentes ao “instinto das combinações”. O instinto das combinações é a tendência para relacionar as ideias e as coisas, para tirar as consequências de um principio enunciado, para raciocinar bem ou mal.

O instinto das combinações comporta, como um dos seus gêneros, a “necessidade de desenvolvimentos lógicos”. Ele está na raiz dos progressos intelectuais da humanidade. É a necessidade do desenvolvimento lógico que explica a renovação incessante das teorias e o progresso nas ciências.

2. A segunda classe, a persistência dos agregados, corresponde à tendência humana a manter as combinações que se estabeleceram, a rejeitar as transformações e a aceitar os imperativos.

A segunda classe constitui portanto, com a primeira, um par de termos opostos. Uma incita a elaborar construções intelectuais, a outra a estabilizar as combinações. O que pertence à ordem dos costumes, da organização familiar e das crenças religiosas constitui o fundamento da sociedade e é mantido pela persistência dos agregados. De um modo geral, as relações de um homem com outros homens, e dos homens com os lugares, são exemplos típicos de resíduos que tendem à persistência dos agregados.

A tipologia dos resíduos é essencial ao pensamento de Pareto. As diferentes classes correspondem aos conjuntos de sentimentos que agem em todas as sociedades e através da história. Para Pareto, as classes de resíduos variam pouco. Em outras palavras, o homem não muda fundamentalmente. Se a esquerda se define pela ideia do progresso e pela convicção de que é possível transformar a natureza humana, então Pareto pertence à direita.

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As derivações representam, na linguagem de Pareto, o equivalente do que chamamos normalmente de ideologia, ou teoria justificativa. São os diferentes meios pelos quais os indivíduos e os grupos dão uma lógica aparente ao que, na verdade, não tem lógica, ou nem tanto quanto os atores gostariam de fazer crer. Pareto chega a uma classificação das derivações em quatro classes.

A primeira classe é a das “simples afirmações”. Como pai, filho ou soldado, todos já ouvimos esta fórmula: “é assim porque é assim”. São relações interpessoais de um tipo determinado que fazem com que a derivação da simples afirmação atinja seu objetivo.

A segunda classe das derivações pode ser ilustrada pela ordem materna: “você deve obedecer porque papai quer”. Em termos abstratos, é o argumento de autoridade: derivações que tiram sua força persuasiva da autoridade de certos homens, da tradição ou do costume.

Na terceira classe, as derivações podem fundamentar-se em sentimentos ou princípios, entidades jurídicas ou metafisicas, e apelar para a vontade de seres sobrenaturais. O exemplo seria a ordem materna: “você deve obedecer ou o bicho-papão vem tem pegar”.

A quarta classe de derivações é composta por aquelas que fundamentam sua força de persuasão em “provas verbais”. A maioria dos discursos políticos pertencem à categoria das provas verbais. Bem antes de Hitler, Pareto afirmou que um dos meios mais eficientes para convencer seus ouvintes ou leitores é a repetição incessante da mesma coisa. Há palavras que exercem uma espécie de influência mágica sobre a multidão; convém portanto empregar essas palavras, embora não tenham um sentido preciso (sobretudo por isto). A teoria das derivações de Pareto é uma contribuição à psicologia das relações interpessoais e intergrupais no domínio da política.

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Resíduos e derivações são palavras escolhidas arbitrariamente para designar fenômenos identificados por uma análise indutiva. Esta, tomando como ponto de partida as condutas humanas, chega às expressões dos sentimentos que são os resíduos, e às expressões pseudo-racionais que são as derivações.

Uma conduta humana particular raramente pode ser explicada por um só resíduo. Essa classificação, contudo, é importante porque prova que há uma ordem interna na natureza humana e que se pode descobrir uma espécie de lógica nas condutas não-lógico-experimentais dos homens que vivem em sociedade.

Esta estrutura inteligível dos resíduos é percebida através das seis classes. Ao lado desta estruturação dos resíduos, pode-se elaborar uma classificação diferente, que pode ser deduzida das suas proposições. Indica uma interpretação muito diferente.

Distinguiríamos uma primeira categoria de resíduos: os que determinam os objetivos das nossas ações. O lógico-experimental só se aplica à relação meios–fins; por isso, os objetivos precisam ser estabelecidos por outro processo, em outras palavras, pelos sentimentos. Num primeiro sentido, os resíduos exprimem portanto os estados psíquicos que fixam os objetivos que cada um de nós assume em sua vida.

Em segundo lugar, certas condutas não são lógico-experimentais porque são simbólicas. Os ritos de um culto religioso são condutas não-lógico-experimentais, pela simples razão de que objetivam exprimir sentimentos a respeito de realidades sagradas. Pertencem a esta segunda categoria as condutas rituais, não-lógicas, porque seu sentido resulta apenas do seu caráter simbólico.

Uma terceira categoria de condutas que também não comportam coincidência entre a série subjetiva e a objetiva é a das condutas políticas orientadas no sentido de objetivos ideais, e comandadas na verdade por ilusões. Pareto lembra a aventura dos revolucionários, que prometem renovar o cotidiano tradicional das sociedades e chegam a resultados fundamentalmente diversos dos que queriam alcançar. É neste ponto que intervém a teoria dos mitos, de George Sorel. Os homens agem com base em representações ideais, que não podem ser transformadas em realidade mas tem forte poder de persuasão. Este comportamento pode ser chamado de conduta pela ilusão.

Finalmente, uma quarta categoria é a das condutas determinadas por pseudo-raciocínios lógico-experimentais, ou por erros. Se um governo, visando restabelecer o equilíbrio da balança de pagamentos, decide aumentar os direitos aduaneiros e esta medida prejudica o equilíbrio da balança de pagamentos, esta conduta governamental é não-lógico-experimental porque se baseia numa teoria falsa. O método da análise não se ajustava às exigências lógico-experimentais.

Destas quatro categorias de resíduos, a quarta merece ser chamada de ilógica, propriamente. O não-lógico decorre do fato do erro. Contudo, a determinação dos fins pelos resíduos é não-lógica, mas não é ilógica, já que não há determinação lógica dos fins. Da mesma forma as condutas rituais são não-lógicas, mas não são ilógicas. Um gesto de respeito diante da bandeira não é uma conduta ilógica, porque é normal manifestar simbolicamente nosso devotamento a uma realidade sagrada.

Neste ponto da análise, Pareto acrescenta que a maioria dos líderes políticos são de fato não-lógicos, vítimas das ilusões que pretendem difundir. Pelo menos até um certo ponto, os condutores de povos precisam ser prisioneiros das ilusões de que os governados necessitam. Não há dúvida de que esta proposição, que é verdadeira, é também pouco agradável. Mas, comentaria Pareto, não há motivo para que a verdade coincida com a utilidade.

Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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