As Etapas do Pensamento Sociológico: Vilfredo Pareto – A Síntese Sociológica

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Depois de estudar a natureza do homem social, com seus resíduos e derivações, Pareto passa à análise do funcionamento da sociedade, considerada em seu conjunto. Este esforço de síntese sociológica corresponde aos três últimos capítulos do Traité de sociologie générale.

Pareto esclarece que uma sociedade composta exclusivamente por condutas lógico-experimentais não pode ser concebida porque o pensamento lógico-experimental não tem condições de determinar os objetivos últimos da sociedade. Esta questão permite abordar as teorias paretianas do interesse e da utilidade.

Por interesses, entendemos as tendências que fazem com que os indivíduos e as coletividades sejam levados a se apropriar dos meios materiais úteis e agradáveis à vida, assim como a procurar consideração e honrarias. Estas tendências se manifestam nas condutas que tem maiores probabilidades de serem lógicas: as dos sujeitos econômicos e as dos sujeitos políticos.

Consideremos o caso do engenheiro que vai construir uma ponte. A decisão de construir uma ponte não é lógico-experimental; mas como este objetivo tem utilidade evidente para os indivíduos interessados, é fácil acentuar o acordo entre o processo intelectual dos construtores e o processo real que se desenvolve de conformidade com suas previsões.

A conduta dos sujeitos econômicos é interessada e lógico-experimental porque a ciência econômica considera os indivíduos admitindo que querem alcançar determinados objetivos e empregam os meios mais apropriados para ter êxito.

A utilidade não é um conceito definido. O problema da utilidade social se coloca, portanto, nos seguintes termos:

– Não há solução lógico-experimental para o problema social, ou o problema de conduta que o indivíduo deve adotar, porque os objetivos da conduta nunca são determinados de modo lógico-experimental.

– A noção de utilidade só se torna clara pela escolha de um critério que incumbe ao observador.

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A noção de heterogeneidade tem um papel muito importante na sociologia de Pareto. Assim, a sociedade não pode ser considerada como uma pessoa porque os sistemas de valores dos indivíduos são radicalmente heterogêneos. Pareto usa também a expressão heterogeneidade social para designar o fato de que todas as sociedades conhecidas comportam a separação entre a massa dos indivíduos governados e um pequeno número de pessoas que dominam e que ele chama de elite.

Para Pareto, fazem parte da elite o pequeno número de indivíduos que, cada um na sua esfera de ação, chegaram a um escalão elevado da hierarquia profissional. A definição restrita agrupa indivíduos, entre os que tiveram êxito, que exercem funções políticas ou socialmente dirigentes: “Identificamos, portanto, duas camadas na população: 1) a camada inferior, classe estranha à elite. (…) 2) a camada superior, a elite, que se divide em duas: a) a elite governante; b) a elite não-governante.” (&& 2032 a 2034.)

A população se deixa dirigir pela elite porque esta detém os meios de força ou então porque consegue convencer o grande número.

Quatro variáveis permitem, portanto, compreender o movimento geral da sociedade: os interesses, os resíduos, as derivações e a heterogeneidade social. Estas quatro variáveis principais, das quais depende o movimento da sociedade, estão em estado de mútua dependência.

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Pareto afirma, em particular em Les systèmes socialistes, que Marx tem razão: através de toda a história a luta de classes é um dado fundamental.

Marx, porém, segundo Pareto, errou em dois pontos. Em primeiro lugar, é falso que a luta de classes seja determinada exclusivamente pelos conflitos resultantes da propriedade dos meios de produção, pois a posse do Estado e da força militar pode constituir igualmente a fonte da oposição entre a elite e a massa.

Além disso, Marx se enganava ao acreditar que a luta de classes atual difere essencialmente da que podemos observar através dos séculos, e que a vitória do proletariado lhe porá um fim. A luta de classes da época contemporânea não levará à ditadura do proletariado, mas sim ao domínio dos que falarão em nome do proletariado, isto é, de uma minoria privilegiada.

De acordo com Pareto, a história das sociedades é a história da sucessão de minorias privilegiadas que se formam, lutam, chegam ao poder, aproveitam o poder e decaem, para ser substituídas por outras minorias. O sociólogo precisa indagar por que as aristocracias ou as minorias dirigentes tem quase sempre tão pouca estabilidade e duração.

Seguindo ciclos de dependência mútua, as sociedades conhecem, portanto, uma circulação das elites, fenômeno que constitui o principal aspecto daquilo que Pareto chama de forma geral da sociedade. Nestas condições, como a estabilidade social pode ser mantida?

O equilíbrio social, isto é, a situação que reduz os riscos de revolução, pressupõe um certo grau de abundância dos resíduos da primeira classe na elite, e uma abundância maior dos resíduos da segunda classe na massa. Para que uma ordem seja duradoura, “é preciso religião para o povo e inteligência nos que governam” (muitos o disseram de forma diferente).

Inevitavelmente, a história se faz com oscilações de duração mais ou menos longa. Pareto poderia acrescentar que a história é feita de alternâncias entre fases de ceticismo e fases de fé, patriótica ou religiosa. São as oscilações dos resíduos, na massa e na elite, que determinam os ciclos de dependência mútua.

Para completar esta reconstrução do conjunto do movimento social, Pareto desenvolve ainda duas antíteses que se situam na ordem econômica, entre os que vivem de especulação e os que vivem de renda, e entre a atividade livre dos agentes econômicos, criadores de riqueza, e a burocratização.

Trata-se, com efeito, de duas atitudes econômicas possíveis, a dos criadores de riqueza, pela combinação e pela especulação, e a dos indivíduos que almejam acima de tudo a segurança dos seus bens, e se esforçam por obtê-la mediante aplicações que consideram seguras. Se não houvesse falências e desvalorização monetária, os que vivem de renda terminariam por possuir toda a riqueza existente. É preciso portanto que, de tempo em tempo, aqueles que vivem de renda sejam despojados do seu patrimônio.

A última antítese é a que existe entre a iniciativa e a burocracia. À livre iniciativa dos agentes econômicos Pareto opõe a cristalização social ou a organização estatal e burocrática. Por razões políticas e demagógicas, os Estados são levados a intervir no funcionamento da economia e a substituir assim, progressivamente, a concorrência favorável às iniciativas individuais e à expansão por uma ordem burocrática que tende progressivamente à cristalização.

O Traité de sociologie générale, e de modo mais amplo toda a obra sociológica de Pareto, leva portanto a um diagnóstico das sociedades democráticas (que ele chama de plutodemocráticas), lembrando que sua característica é a ligação entre a classe política, ou elite, os quadros dirigentes da indústria e das finanças. De acordo com Pareto, os regimes plutodemocráticos são governados por elites que empregam astúcia de preferência à força. Finalmente, nota a expansão gradual da gestão administrativa da economia e a diminuição correlata do domínio da iniciativa privada e dos mecanismos do mercado. Vê assim as sociedades ocidentais evoluírem no caminho da cristalização burocrática.

Invista mo Resumo da Obra

Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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