As Etapas do Pensamento Sociológico: Émile Durkheim – As Regras do Método Sociológico

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Ao analisar os três grandes livros de Durkheim, pode-se notar a semelhança dos métodos utilizados e dos resultados obtidos: no ponto de partida, uma definição do fenômeno; depois, a refutação das interpretações anteriores. Por fim, uma explicação propriamente sociológica do fenômeno considerado.

Nos três livros, as interpretações anteriores são refutadas e tem a mesma característica: são interpretações individualistas e racionalizantes. Nos três casos, a explicação a que chega é essencialmente sociológica, embora o adjetivo tenha em cada livro um sentido algo diferente. Em Da divisão do trabalho social a explicação é sociológica porque propõe a prioridade da sociedade sobre os fenômenos individuais. Em O Suicídio, o fenômeno social pelo qual explica o suicídio é o que chama de corrente suicidógena, ou uma tendência social ao suicídio, que se manifesta, em determinados indivíduos. Em As Formas Elementares da Vida Religiosa, a explicação sociológica tem dupla característica: de um lado, e a exaltação coletiva provocada pela reunião de indivíduos num mesmo lugar, que faz surgir o fenômeno religioso e inspira o sentido do sagrado; de outro lado, e a própria sociedade que os indivíduos adoram sem o saber.

As regras do método sociológico representa a formulação abstrata da prática dos dois primeiros livros. O objetivo de Durkheim é demonstrar que pode e deve existir uma sociologia objetiva e científica, tendo por objeto o fato social. Para que haja tal sociologia, duas coisas são necessárias: que seu objeto seja específico, distinguindo-se do objeto das outras ciências, e que possa ser observado e explicado de modo semelhante ao que acontece com os fatos observados pelas outras ciências. Esta dupla exigência leva às duas fórmulas que servem de fundamento para a metodologia de Durkheim: é preciso considerar os fatos sociais como coisas; a característica do fato social é que ele exerce uma coerção sobre os indivíduos.

De acordo com Durkheim, a coerção é apenas a aparência externa, uma característica que permite reconhecer o fato social. Durkheim parte da ideia de que convém definir os fatos sociais pelas características externas facilmente reconhecíveis, a fim de evitar os preconceitos. O perigo deste método é duplo: substituir imperceptivelmente uma definição, intrínseca, por outra, extrínseca, relacionada com sinais exteriores reconhecíveis, e pressupor arbitrariamente que todos os fatos classificados nessa categoria derivam necessariamente de uma mesma causa.

Essa tendência a ver os fatos sociais como suscetíveis de serem classificados em gêneros e em espécies aparece no Cap. V, dedicado às regras relativas à constituição dos tipos sociais. A classificação das sociedades, de Durkheim, se baseia no princípio de que o diferente grau de complexidade é que as diferencia. O ponto de partida é o grupo mais simples, a que Durkheim chama horda. Depois da horda vem o clã, que compreende várias famílias e é a mais simples sociedade historicamente conhecida. Para classificar as outras sociedades, basta aplicar o mesmo princípio. Este critério permite determinar a natureza de uma sociedade sem referência às fases históricas, tais como as etapas do desenvolvimento econômico.

Os sociólogos do século XIX, Auguste Comte e Karl Marx, se esforçaram por determinar as fases do progresso intelectual, econômico e social da humanidade. Segundo Durkheim, estas tentativas não levam a nada, pois uma sociedade pode absorver certo desenvolvimento econômico sem que sua natureza fundamental se transforme. Contudo, é possível fazer uma classificação cientificamente válida dos gêneros e espécies de sociedades, com base num critério que reflete a estrutura da sociedade considerada, como o número dos segmentos justapostos numa sociedade complexa e o modo de combinação desses segmentos.

As teorias da definição e classificação dos gêneros e espécies levam à distinção do normal e do patológico. A distinção do normal e do patológico, desenvolvida no Capitulo III de As regras do método sociológico, é uma das bases do pensamento de Durkheim. Sua vontade de ser um cientista puro não o impedia de afirmar que a sociologia não valeria nada se não permitisse o aperfeiçoamento da sociedade. A distinção entre o normal e o patológico é precisamente uma das intermediações entre a observação dos fatos e os preceitos. Se um fenômeno é patológico, temos um argumento cientifico para justificar projetos de reforma.

Para Durkheim, será considerado normal o fenômeno que encontrarmos mais frequentemente numa sociedade dada, num certo momento do seu desenvolvimento. Esta definição da normalidade não exclui que, subsidiariamente, se procure explicar a causa que determina a frequência do fenômeno considerado.

Assim como a normalidade é definida pela generalidade, a explicação, segundo Durkheim, é definida pela causa. Explicar um fenômeno social é identificar o fenômeno que o produz. Uma vez estabelecida a causa de um fenômeno, pode-se procurar igualmente a função que exerce, a sua utilidade. As causas dos fenômenos sociais devem ser procuradas no meio social. É a estrutura da sociedade considerada que constitui a causa dos fenômenos que a sociologia quer explicar.

A explicação dos fenômenos pelo meio social se opõe à explicação histórica segundo a qual a causa de um fenômeno deveria ser procurada no estado anterior da sociedade. Durkheim pensa que se podem explicar os fenômenos sociais pelas condições concomitantes. De certa maneira, a causalidade eficiente do meio social representa, para Durkheim, a condição da existência da sociologia cientifica.

Esta teoria da sociologia cientifica se fundamenta numa afirmativa central do pensamento de Durkheim: a sociedade é uma realidade de natureza diferente das realidades individuais. Todo fato social tem como causa um outro fato social, e nunca um fato da psicologia individual.

Este é o centro do pensamento metodológico de Durkheim. Para ele o fato social é específico, provocado pela associação dos indivíduos, e diferente, pela sua natureza, do que se passa no nível das consciências individuais. Os fatos sociais podem ser objeto de uma ciência geral porque se distribuem em categorias, e os próprios conjuntos sociais podem ser classificados em gêneros e espécies.

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Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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