As Etapas do Pensamento Sociológico: Os Sociólogos e a Revolução de 1848

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É interessante, sob vários aspectos, estudar a atitude de Auguste Comte, Marx e Tocqueville em relação à Revolução de 1848. No curso do período 1848-51 sucederam-se a dominação temporária de um governo provisório, no qual a influência socialista era forte; a luta entre a Assembleia Constituinte e o povo de Paris; e por fim a rivalidade entre uma Assembleia Legislativa de maioria monarquista, que defendia a república, e um presidente eleito pelo sufrágio universal, que pretendia estabelecer um império autoritário.

Durante uma primeira fase, de 24 de fevereiro de 1848 a 4 de maio do mesmo ano, uma rebelião derruba a monarquia, e o governo provisório inclui vários socialistas, que exercem uma influência predominante durante alguns meses.

Com a eleição da Assembleia Constituinte (de maioria conservadora), inicia-se uma segunda fase. Surge um conflito entre o governo provisório, predominantemente socialista, e a Assembleia. Esse conflito leva às revoltas de junho de 1848, do proletariado parisiense contra a assembleia eleita por sufrágio universal.

A terceira fase tem início com a eleição de Luís Napoleão, em dezembro de 1848. Incapazes de chegar a um acordo sobre o nome do monarca e a restauração da monarquia, os monarquistas se tornam defensores da república por hostilidade a um Luís Napoleão desejoso de restaurar o Império. Luís Napoleão revoga a Constituição, dissolve a Assembleia Legislativa e restabelece simultaneamente o sufrágio universal.

Auguste Comte e a Revolução de 1848

O caso de Auguste Comte é o mais simples. Ele se regozija primeiramente pela destruição das instituições representativas e liberais, que, para ele, estavam associadas ao espírito metafísico, crítico e anarquizante, ligadas também às particularidades da evolução da Inglaterra. Segundo Comte, querer introduzir na França instituições representativas é um erro histórico fundamental, pois não há neste país as condições que permitam o florescimento do parlamentarismo.

Auguste Comte é favorável à centralização, que lhe parece refletir a lei da história da França. Ele se satisfaz, portanto, com a supressão do parlamento francês em benefício do que chama de ditadura temporária. Auguste Comte não queria excluir inteiramente a representação, mas achava suficiente que uma assembleia se reunisse a cada três anos, para aprovar o orçamento.

Alexis de Tocqueville e a Revolução de 1848

Escrevendo alguns anos depois da Revolução de 1848, Tocqueville está mais convencido do que nunca de que fora um acontecimento infausto, uma vez que o último resultado da Revolução tinha sido a substituição de uma monarquia semilegítima, liberal e moderada, por um Império autoritário. Tocqueville é um apaixonado pelas liberdades intelectuais, pessoais e políticas. Para ele essas liberdades estão encarnadas nas instituições representativas. Acredita que, ao se multiplicarem, as revoluções tornam cada vez mais improvável a sobrevivência das liberdades.

Tocqueville constata que numa primeira fase, entre o mês de fevereiro de 1848 e a reunião da Assembleia Constituinte, em maio, os socialistas tiveram em toda a França, uma influência considerável. Serviram-se bastante dessa influência para aterrorizar os burgueses e a maioria dos camponeses, e bem pouco para ganhar uma posição de poder. A partir da reunião da Assembleia Constituinte, não sabiam se deviam fazer o jogo da Revolução ou o do regime constitucional. Depois, no momento decisivo, abandonaram suas tropas, os operários de Paris, que, nas terríveis jornadas de junho, combateram sozinhos, sem chefes.

Assim Tocqueville, que pertencia ao partido da ordem burguesa, viu o caráter socialista da Revolução de 1848 e condenou a ação dos socialistas como insensata. Na segunda fase da crise, foi um republicano moderado, um partidário daquilo que se chamaria mais tarde de república conservadora, e se fez antibonapartista. Foi derrotado mas não se surpreendeu com a derrota, pois, desde junho de 1849, pensava que as instituições livres estavam provisoriamente condenadas; que a Revolução tornaria inevitável um regime autoritário; e depois da eleição de Luis Napoleão previu naturalmente a restauração do Império.

Karl Marx e a Revolução de 1848

Jornalista e agitador revolucionário, Marx tinha morado na França e conhecia muito bem a política e os revolucionários franceses. Acreditava no caráter internacional da Revolução. Como Tocqueville, Marx está consciente de que os acontecimentos de 1848-51 já não representam, simplesmente, dificuldades políticas. Ele exclama que a subversão social está em via de se realizar.

Marx procura, e está aí a sua originalidade, explicar os acontecimentos políticos pela infraestrutura social. Esforça-se por mostrar, nos conflitos propriamente políticos, a manifestação no nível político dos distúrbios profundos dos grupos sociais. Tocqueville também o faz. Contudo, mantém o caráter específico da ordem política. Marx, pelo contrário, procura encontrar uma correspondência termo-a-termo entre os acontecimentos no plano político e na infraestrutura social.

Resta porém uma dificuldade importante: o que acontece no cenário político pode ser explicado adequadamente pelo que ocorre na infraestrutura social? Por exemplo: segundo Marx, a monarquia legitimista representava a propriedade rural e a monarquia orleanista a burguesia financeira e mercantil. Durante a crise de 1848-51, a disputa das duas dinastias foi o obstáculo intransponível à restauração da monarquia. Naturalmente, Marx é tentado a explicar a impossibilidade do acordo pela incompatibilidade dos interesses econômicos. A fragilidade desta interpretação está no fato de que em outros países e em outras circunstâncias os proprietários de terras puderam conciliar seus interesses com os da burguesia industrial e mercantil. Os sociólogos sentem a consciência pesada quando se limitam a explicar as mudanças de regime e as crises políticas pela política. O detalhe dos acontecimentos políticos raramente pode ser explicado a não ser pelos homens, pelos partidos, por suas disputas e por suas ideias.

Como teórico, Marx pretende fundamentar a política nas relações e nas lutas das classes sociais. Em vários pontos essenciais, contudo, ele reconhece os fatores políticos dos conflitos de regime e autonomia do Estado com respeito aos vários grupos. Na medida em que existe esta autonomia, pelo menos um elemento do processo de desenvolvimento das sociedades não pode ser reduzido à luta de classes.

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Montesquieu, Auguste Comte, Marx e Tocqueville deram origem a três escolas.

A primeira é a que se poderia chamar de escola francesa da sociologia política, cujos fundadores foram Montesquieu e Tocqueville. É uma escola de sociólogos que, sem desprezar a infraestrutura social, aceitam a autonomia da ordem política e tem ideias liberais.

A segunda escola é a de Auguste Comte. Deprecia a importância do político e do econômico, em relação ao social, colocando a ênfase sobre a unidade do todo social e retendo o conceito de consenso como conceito fundamental.

A terceira escola é a marxista. Tal como interpretada por centenas de milhões de pessoas, combina a explicação do conjunto social a partir da infraestrutura socioeconômica com um esquema do futuro que garante a seus fiéis a vitória. É a mais difícil de discutir, em razão de seu êxito histórico: nunca se sabe que versão discutir.

Essas três escolas sociológicas são interpretações da sociedade moderna. Auguste Comte é um admirador desta sociedade moderna, que chama de industrial e que, segundo crê, será pacífica e positivista. Para a escola política, a sociedade moderna é uma sociedade democrática, que não representa a realização final do destino do homem. A terceira escola, supremamente otimista com respeito ao futuro distante, é sombriamente pessimista com relação ao futuro imediato, anunciando longo período de catástrofes, guerras e lutas de classe.

Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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